quarta-feira, 15 de março de 2017

JÁ SÃO QUASE 70 MANANCIAIS EM ESTADO DE COLAPSO EM PERNAMBUCO

Açude da Manhosa
Foto: Arnaldo Vitorino Silva.

Já chega a quase 70 o quantitativo de mananciais que estão em colapso ou totalmente sem água em Pernambuco. O impacto incide em mais de 400 mil habitantes de 36 municípios. Um exemplo é o Açude da Manhosa, em Santa Cruz do Capibaribe, no Agreste do Estado. 

Lá já não há mais vestígio de água. O que resta é um chão batido e rachado. Meses antes, o manancial ainda resistia quando havia chuvas marcantes e a água servia para regar plantas ou para construção. Até as aves foram castigadas, já que era no açude que elas encontravam um banquete de peixes para se alimentarem. Restam, agora, as lamentações de quem um dia viu um curso d'água passar no perímetro urbano do município. E não foi só esse manancial que secou. Até as barragens de Tabocas, Poço Fundo e Machados, operados pela Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) até 2013, estão sem água. A situação é grave na cidade, que teve recentemente a ampliação do racionamento, com um rodízio de dois dias com água e 28 sem.

Historiador e também morador de Santa Cruz do Capibaribe, Arnaldo Vitorino Silva conta que, embora pequeno, com aproximadamente 1km de extensão e 10m de profundidade, o Açude da Manhosa foi um dos que mais tempo conseguiu manter água reservada, porém a estiagem prolongada e a retirada excessiva da água por pipeiros levou ao cenário atual. "Esse açude não secava com essa frequência. Passou a ficar assim desde 2000. Desde então, nunca vimos melhorar. Quando vinha uma chuva em abundância, aí dava uma melhorada. Mas, entramos numa profunda seca. O chão rachado lembra o semiárido", compara. Inclusive, carcaças de motocicletas denunciam que o açude, embora servisse para abastecimento próprio, também era usado como ponto de desova. 

Embora não tenha uma previsão meteorológica precisa para o Agreste pernambucano, o chefe de Meteorologia da Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac), Patrice Oliveira, o início do quadro chuvoso na região se inicia, normalmente, em abril, sendo registrado para o total do trimestre (março a maio) uma precipitação de 309,3 mm. "O trimestre anterior (janeiro a março) previu para todo o Estado chuvas abaixo da média. Mas, só poderemos afirmar se o quadro será o mesmo após analisarmos dados meteorológicos de centros nacionais e internacionais que ainda serão disponibilizados para nós", afirma. A previsão, inclusive, será divulgada nos próximos dia 21 e 22, quando ocorrerá a Reunião de Análise e Previsão Climática, na sede da Apac, na avenida Cruz Cabugá, no Centro. O encontro, que reúne meteorologistas de várias partes do Brasil, tem o objetivo de divulgar a estimativa meteorológica para o trimestre. Em janeiro, a reunião ocorreu em Natal, no Rio Grande do Norte.

Sobre a possibilidade de uma frente fria que está sobre São Paulo aproximar-se do Nordeste e, assim, dar uma trégua para a longa estiagem, Oliveira descarta. "Para que uma frente fria chegue ao Nordeste, ela terá que passar pela Bahia para se estabilizar em Pernambuco. A tendência é que ela suba para o Rio de Janeiro, Espírito Santo e se dissipe no (Oceano) Atlântico", explica o chefe de Meteorologia.

Pré-colapso

Dados da Compesa revelam que um caos está para acontecer: 39 cidades estão em pré-colapso, ou seja, as barragens estão a um triz de não terem mais água. Se isso ocorrer, serão 1,1 milhão de pessoas sem água. Uma das que está com restrição de oferta d'água é o Sistema Prata, que, inclusive, é a que está mantendo o rodízio para os santacruzenses. "E ainda assim, dependemos de carros pipa que, cuja maioria é particular. Você não sabe o procedimento dessas águas, se é duvidoso ou não. Mas, se a gente precisa de água, o que iremos fazer?", questiona Arnaldo Vitorino.