segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O Monsenhor Affonso Anthero Pequeno e a velha rixa de Carvalho e Pereira

Monsenhor Affonso, sentado, à esquerda, usando batina.
Foto: 
http://academiacearense.blogspot.com.br/
Por Valdir José Nogueira

Filho do coronel Antônio Teixeira Pequeno e de dona Maria Antero Pequeno, ambos naturais de Icó (Ceará), o Monsenhor Afonso nasceu nessa cidade no dia 24/07/1871. Sacerdote exemplar e culto assumiu a Paróquia de Belmonte no dia 06 de janeiro de 1903, ficando encarregado também das Paróquias de Vila Bela e Floresta.

Desde o distante ano de 1901, inaugurou-se no Cariri, sul do Ceará, um período de inquietação política e social, que perdurou por duas décadas. Naquele mundo de canaviais, os “coronéis” alimentados pela rapadura, fizeram valer a força das armas, porquanto os mais fortes eleitoralmente nem sempre tinham como evitar a sanha dos seus adversários (inimigos), quase sempre mais fortes pelo bacamarte.

 Monsenhor Affonso Anthero Pequeno.
Proveniente daquele mundo de caudilhos, mas precisamente do Crato, quando chegou à Vila Bela e Belmonte, o Monsenhor Afonso Antero Pequeno, logo pediu as lideranças políticas locais armas, munição e cangaceiros para ajudar ao primo “coronel” Antônio Luiz Alves Pequeno na luta pela deposição do “coronel” José Belém de Figueiredo, que na época ocupava o cargo de vice-presidente (vice-governador) do Estado do Ceará.

O “Coronel” Antônio Pereira, líder na época da família Pereira, negou-se categoricamente a participar dessa bravata.

A família Carvalho concordou com o Monsenhor em tudo e decidiu mandar Antônio Clementino de Carvalho (Antônio Quelé) com um grande contingente armado, tendo à frente o próprio sacerdote.

Iniciado o tiroteio, em dias do mês de junho de 1904, só após 55 horas de combate, o “coronel” Belém recuou e fugiu.

Vitorioso, o Monsenhor Afonso  volveu à Belmonte e Vila Bela, decidido a hostilizar a família Pereira. Logo participou da eleição municipal de Vila Bela, elegendo-se prefeito. Numa visita que lhe fizera, Antônio Quelé assassinou em praça pública o delegado de polícia Manoel Pereira Maranhão. No júri de Quelé, além do advogado que contratou, o Monsenhor participou pessoalmente da tribuna de defesa. O Monsenhor renunciou ao mandato de Prefeito e retirou-se para Garanhuns. Antes, porém, segundo alguns, o sacerdote conseguiu reacender a fogueira de ódio entre as famílias Pereira e Carvalho.

As gestões políticas do Monsenhor Afonso Pequeno em Vila Bela e Belmonte foram com toda evidência, as grandes responsáveis pelo estado beligerante deflagrado na ribeira do Pajeú, “a ribeira medonha”.

Alguns historiadores afirmam que tudo degenerou em banditismo, com a formação de grupos de cangaceiros para defender a própria família e por fim, o de Lampião, que perturbou a vida dos sertanejos em 07 estados da federação. Outros afiançam que foi o Monsenhor Afonso o responsável pela fase do obscurantismo no Pajeú  no período de 1904 a 1930.

O Monsenhor Afonso Antero Pequeno permaneceu na Paróquia de Belmonte até 12/03/1907, tendo falecido na cidade de Garanhuns no dia 26/03/1918. Para homenageá-lo, uma das antigas ruas de Belmonte possui o seu nome.




Adriano Vasconcelos, ocupante da Cadeira de nº 18 da ACLJ, Academia Cearense de Letras fala do  Monsenhor Affonso Anthero Pequeno, que foi também seu tio-avô.

Adriano descobriu que esse personagem passou ao largo da história, mesmo tendo participação decisiva em episódios de grande repercussão na sociedade nordestina, na primeira metade do Século XX, tendo inclusive precipitado a promoção do cangaceiro Virgulino Ferreira a chefe de bando, o que ocasionou o fenômeno Lampião, que encerrou o ciclo do banditismo sertanejo nordestino. Esse ciclo teve termo logo após a morte do comparsa e vingador de Lampião, Corisco, o Diabo Louro, em 1940.

Segundo estudos preliminares, Monsenhor Affonso, então prefeito de Serra Talhada, cidade pernambucana, reuniu um bando de jagunços e armou uma cruzada para defender do bando do cangaceiro Sinhô Pereira os domínios de seu primo, o rico fazendeiro do Crato Cel. Antônio Luiz Alves Pequeno, padrinho de crisma do menino Cícero Romão Batista, o futuro “Padim Ciço”, de quem o coronel foi protetor, e de quem financiou os estudos eclesiásticos no Seminário da Prainha, em Fortaleza.

O jovem Virgulino Ferreira pertencia então ao bando de Sinhô Pereira, a quem substituiu na chefia do grupo, quando este abandonou o cangaço e fugiu para Goiás, após perder a luta para as tropas do Monsenhor Affonso Pequeno. A partir de então Virgulino se tornaria o mais famoso bandoleiro do país, sob a alcunha de Lampião, agnominado “O Rei do Cangaço”. O trabalho de Adriano Vasconcelos contará com o apoio e a parceria do engenheiro Rômulo Pordeus, outro apaixonado pelo tema.

Monsenhor Affonso era ainda um poeta inspirado, e é um dos patronos da ACLJ. Abaixo, um poema de sua lavra, datado do mesmo ano em que foi fundada a Academia Cearense de Letras.

 ORAÇÃO
                                   
            Quando á borda eu chegar d’eternidade
            Á meta dos caminhos desta vida
E minh’alama tremente, espavorida
D’alem tumba apalpar a realidade;

E quando s’apagarem da vaidade
As loucas illusões e do homicida
Anjo das trevas a alma combatida
Nas dores s’estorcer d’enfermidade.

Quando nos estertores d’agonia
Sem falla os lábios, o olhar sem luz
Chegar á bocca sequiosa e fria

Por vez final a Redemptora Cruz,
Ai!  Mãe do céo, ampara-me, Maria,
Toma minh’alma, dá a teu Jesus.


         AFFONSO PEQUENO
       Maio de 1894