domingo, 5 de fevereiro de 2017

Memórias de Garanhuns: Família Brasileiro


Hermínia Lins Brasileiro, irmão do
Cel. Júlio Brasileiro.
Por Cláudio Gonçalves de Lima

Em 07 de agosto de 1852 no Jornal Diário de Pernambuco, Manoel Joaquim da Silva, cidadão brasileiro, casado, morador da Rua da Câmboa do Carmo no Recife e com loja no município de Garanhuns, declara que tendo encontrado diversas pessoas com igual nome, e ultimamente um preso e processado por crime de furto, para livrar-se de equívocos assinará de hoje em diante Manoel Joaquim da Silva Brasileiro.

Manoel Joaquim da Silva Brasileiro era pai de Antônio Cesário Brasileiro (1829), era um próspero comerciante que herdara a profissão do pai, os quais de acordo com o Jornal "A Província" de 20 de julho de 1861 em nota da Secretaria do Tribunal do Comércio de Pernambuco, eram sócios de estabelecimento no município de Garanhuns. Antônio Cesário Brasileiro em 1860 foi eleito vereador da Freguesia de Garanhuns, em 10 de março 1862 é nomeado pelo presidente da Província subdelegado do 1º distrito da Freguesia de Garanhuns, na época Correntes. Ocupou a partir de 12 de janeiro de 1887 interinamente o comando Superior da Comarca de Garanhuns.

Manoel Joaquim da Silva Brasileiro nasceu em 1804 e faleceu em 05 de julho de 1872, aos 68 anos.

Julio Brasileiro nasceu em Garanhuns

Cel. Júlio Brasileiro.


Júlio Eutímio da Silva Brasileiro nasceu em Garanhuns em 30 de outubro de 1867, era o nono filho do casal de Antônio Cesário da Silva Brasileiro e Maria Pinheiro da Silva Burgos, sendo irmãos: Antônio Cesário, Leopoldina, Maria Leonila, Guilhermina, Manoel, César, Jacinta, Emília, Idalina, Olindina e Hermína.

Após a morte de sua esposa, Antônio Cesário Brasileiro casou-se em 1885 com Mariana Ferreira Carneiro, resultando a seguinte prole; Eutíquio, Jesualdo, Dumouriez, Maria Palmeirina e Aurélia Rosa Brasileiro.

Antônio Cesário Brasileiro no início de 1900 vai residir em Palmares, onde faleceu aos 80 anos, em 01 de junho de 1909, ocupando o cargo de tesoureiro do município. 

(A existência dessa rua é comprovada no trabalho de Magna Lícia Barros Milfton - o Processo de  Transformação da Cidade do Recife através da prática urbana dos recursos festivos 2013).
Fonte: Jornal "A Província".


HERMÍNIA LINS

Por Pinto Ferreira

Minha avó materna, Hermínia Lins, chamada familiarmente pelas netas pelo nome carinhoso de Mãe Nina, nasceu em março de 1875, na cidade de Palmares, filha caçula do velho Antônio Cesário da Silva Brasileiro. Sua mãe faleceu quando ela tinha 10 anos e assim foi praticamente criada, na sua segunda infância pela sua irmã Leopoldina, a quem venerava como uma mãe.

Aos 17 anos casou-se, no mês de abril de 1892, na cidade de Palmares, com Leopoldino Lins, de cujo consórcio houve três filhas, e nenhum filho: Maria Ernestina, Maria Adélia, Maria Regina. Ao contrário das famílias numerosas de então, o casal teve poucos filhos, contradizendo assim o tipo comum e generalizado das grandes e numerosas famílias da velha sociedade patriarcal. O casamento se realizou na cidade de Palmares, que então possuia rica e florescente vida local.

Hermínia Lins era possuidora de extraordinária beleza, e algumas pessoas ainda hoje vivas (1967), e que a conheceram na Colônia, como Armando Vasconcelos, que depois foi meu bedel como aluno na Faculdade de Direito, não se cansava de repetir que era a moça mais bonita que conheceu.

Dela bem me lembro na minha infância. Possuia um gênio autoritário, meio imperialista, com grande poder de atração sobre as pessoas e um especial sentimento de ajuda em favor dos semelhantes. Toda a vida da família se concentrava por assim  dizer em derredor de seu foco de atração solar: marido, genros, filhos, netos, parentes e amigos.

Estácio Coimbra, que duas vezes foi o governador de Pernambuco, tinha-lhe uma atenção especial, e um pedido seu era uma ordem. Quando Vice-Presidente da República, vindo ao Recife, foi uma feita homenageado pelo casal no solar da Av. João de Barros.

Lembro-me bem dela na última fase de sua vida, já pelos 50 anos de idade. Era um mulher morena, de olhos castanhos, as linhas do rosto denunciando a grande beleza de sua juventude. Era de uma dedicação extrema para com os netos, e mesmo displicente em repremir as suas faltas. Cumulava a todos os netos de presentes, e quando viajava para o sul, trazia as malas carregadas de presentes, que distribuia sem regatear e a mancheias pelos seus netos. Todos gostavam dela.

No solar da Av. João de Barros dominava como uma rainha. Sempre havia o que fazer no grande sítio, com suas fruteiras, seu viveiro, seus parentes, a mesa grande para o almoço e para o jantar posta para umas 20 pessoas, a quem meu avô servia como patriarca.

Os dois netos dedicava uma atenção especial: a meu irmão mais velho José e à minha prima Maria Ernestina, a quem criou desde o seu nascimento. Os pais desta, depois da morte da sua primogênita, deram-na para criar, a fim de consolá-la da dor imensa e profunda da morte de sua  primeira filha, Sinhá, ocorrido em 1911. Dizem que minha avó ficou um ano alheio ao mundo, desconsolado e triste, sentada numa soleira, distante das coisas.

A morte desta sua filha primogênita, Sinhá, ocorreu em 12 de março  de 1911, aos 18 anos. Recém-casada, com um jovem e brilhante juiz, Cunha Melo, que depois foi Ministro do Supremo Tribunal Federal, viajou para o Amazonas, onde o marido servia como juiz federal. De lá voltou doente, e faleceu na Casa-Grande da Av. João de Barros, de bexiga, com um filho no ventre, quase prestes a nascer. A ciência médica de então, o dr. Gouveia de Barros à frente, especialista famoso e ainda hoje com nome, apesar de todo o seu empenho e dedicação, não pôde salvá-la. A moléstia, lenta e dolorosa, a aniquilou, deixando inconsoláveis o marido e os pais. Foi uma ano doloroso, este de 1911.

Minha avó era profundamente religiosa. No solar da Av. João de Barros, havia um quarto especialmente dedicado aos Santos, o santuário, alguns deste depois guardados por minha mãe. Eça de Queiroz relembra que a mitologia Católica criou cerca de 3.000 Santos. Alguns deste mereciam um culto especial: São José, santo Antônio, sem contar o Menino-Deus e Nossa Senhora.

Por vezes minha avó era madrinha de certas solenidades religiosas, em Boa Viagem, onde costumava veranear durante as férias. Excedia-se então no cálido sentimento religioso de culto dos Santos e na fraternal caridade pata com os pobres.

Tinha assim o seu mundo: nele dominava como uma rainha de beleza e de bondade. (Foi mantida a grafia da época).