III BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DO AGRESTE

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Memórias de Garanhuns (16): Ranúsia Alves Rodrigues

Ranúsia Alves Rodrigues.
Ranúsia Alves Rodrigues (1945-1973), nasceu em Garanhuns e mais tarde migrou para Recife, a fim de cursar Enfermagem, na Universidade, passou a se envolver com o movimento estudantil, integrando o Diretório Acadêmico.

Em seguida, se filiou ao PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário).

Adotou os pseudônimos de "Olívia", "Florinda" e "Nuce", para atuar na clandestinidade. Nesse período, engravidou. Teve uma filha, de nome Vanúsia. Os pais de Ranúsia não eram de acordo com as aventuras políticas da filha.

Assim, mesmo sabendo que seria arriscado a filha cuidar de uma criança em paralelo com a vida de militante, não quiseram assumir a neta, que então foi submetida aos cuidados de Almerinda de Aquino, uma empregada da família.

No ano de 1968, quando participava do 30º Congresso da UNE, Ranúsia foi detida pelos militares em Ibiúna(SP). Contudo logo liberada. Nem por isso deixando de continuar sendo ferrenha combatente da ditadura.

Anos se passaram e a garanhuense cada vez mais viria a envolver-se de corpo e alma a favor da resistência.

Foi, portanto, no ano de 1973, que Ranúsia levaria a pior, na Praça Sentinela, Jacarepaguá(RJ). Foi assassinada com rajadas de tiro, sem nenhuma piedade. De acordo com o livro "Dos Filhos Deste Solo", Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio relatam a cena: "Chovia na noite de 27 de outubro de 1973, um sábado. Alguns poucos casais escondiam-se da chuva junto do muro do Colégio de Jacarepaguá, no Rio. Por volta das 22 horas, um homem desceu de um Opala e avisou: 'Afastem-se porque a barra vai pesar'.

Continuam: "Não ouvimos um gemido, só tiros, o estrondo e a correria dos carros". Vindos de todas as ruas que levam à praça, oito ou nove carros foram chegando, cercando um fusca vermelho de placas AA-6960 e despejando tiros. Depois jogaram um bomba dentro do carro. No final, havia uma mulher morta (Ranúsia) com quatro tiros no rosto e peito e três homens carbonizados".
Fonte:Livro Direito à memória e à verdade: Luta, Substantivo Feminino; mulheres torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura.

Por Ana Wládia Silva de Lima - 17 de dezembro de 2016 

Em 13 de dezembro de 2016, o Reitor da UFPE Anísio Brasileiro reconhece Ranúsia Alves Rodrigues como aluna do curso de graduação em Enfermagem da UFPE de 1966 a 1968, essa reivindicação feita através do atual Diretório Acadêmico de Enfermagem que leva o nome de Ranúsia Alves -DARA - em suas pautas durante a ocupação de 40 dias do departamento de Enfermagem da UFPE mobilização contra a PEC 55. Ranúsia Alves foi rematriculada na UFPE e passa a ser reconhecida como ex aluna. Um feito histórico que contou com a participação de amigos e colegas de turma e do DA da época de Ranúsia, além de sua sobrinha representando os seus familiares. Hoje a chamada por ela é assim respondida. Ranusia Alves? PRESENTE!

No livro Dos filhos deste solo, Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio assim registraram o episódio:

Chovia na noite de 27 de outubro de 1973, um sábado. Alguns poucos casais escondiam-se da chuva junto do muro do Colégio de Jacarepaguá, no Rio. Por volta das 22 horas, um homem desceu de um Opala e avisou: “Afastem-se porque a barra vai pesar”. O repórter de Veja (7/11/1973) localizou alguém que testemunhou o significado desse aviso: “Não ouvimos um gemido, só os tiros, o estrondo e a correria dos carros”. [...] Vindos de todas as ruas que levam à praça, oito ou nove carros foram chegando, cercando um fusca vermelho de placa AA 6960 e despejando tiros. Depois jogaram uma bomba dentro do carro. No final, havia uma mulher morta com quatro tiros no rosto e peito e três homens carbonizados. 

Essa mulher era Ranúsia Alves Rodrigues, pernambucana de Garanhuns e estudante de Enfermagem da Universidade Federal de Pernambuco. Já havia sido presa uma vez, em Ibiúna (SP), em 1968, quando participava do 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE). Em consequência disso, foi expulsa da universidade pelo Decreto 477, no ano seguinte. 

Vivendo na clandestinidade como militante do PCBR, Ranúsia teve uma filha, chamada Vanúsia. Em outubro de 1972, passou a atuar no Rio de Janeiro. Documentos dos órgãos de segurança do regime militar sustentavam que, em 25 de fevereiro de 1973, ela teria participado da execução do delegado Octávio Gonçalves Moreira Júnior, do DOI-Codi/SP, em Copacabana.

Sua foto e seu nome tinham sido divulgados, erroneamente, como uma das pessoas mortas na chamada Chacina de Quintino, em 29 de março de 1972, no lugar de Maria Regina Lobo Leite de Figueiredo.

Apesar de os quatro militantes estarem perfeitamente identificados, os órgãos de segurança omitiram as mortes de Ramires e Vitorino e enterraram todos sem identificação, como indigentes, no cemitério Ricardo de Albuquerque, no Rio de Janeiro. Em 2 de abril de 1979, seus restos mortais foram transferidos para o ossuário geral e, por volta de 1980 ou 1981, para uma vala clandestina com cerca de 2 mil outras ossadas.

No arquivo do Dops/RJ, foi encontrado um documento do I Exército, de 29 de outubro de 1973, que narra o cerco aos quatro militantes desde o dia 8 do mesmo mês, culminando com a prisão de Ranúsia na manhã do dia 27. O documento inclui o interrogatório e as declarações da militante no DOI-Codi/RJ.

O relatório fala, ainda, de farta documentação encontrada com ela, e menciona a morte dos quatro militantes, dando-lhes os nomes completos. A versão divulgada pelo Dops é que os militantes do PCBR perceberam a presença de “elementos suspeitos” e tentaram fugir, acionando suas armas. Como o carro teria começado a pegar fogo, não foi possível retirar as pessoas que estavam dentro. Laudo e fotos da perícia no local mostram Ranúsia morta perto do carro, tendo, ao fundo, um Volkswagen incendiado, onde estavam carbonizados Ramires, Vitorino e Almir.

No entanto, a investigação sobre o caso realizada pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) considerou que a versão oficial não se sustentava após o exame das provas anexadas ao processo.

[1] As informações dessa descrição foram retiradas do livro: “Luta: Substantivo Feminino”. Nós do Violeta Parra temos o Livro em PDF, se houver interesse basta pedir-nos.

[2] Em 1967, o grupo hegemônico no PCB consumou a expulsão de dirigentes contestadores da linha que vinha sendo adotada pelo partido. Entre eles, os futuros fundadores do PCBR, como Mário Alves (assassinado sob torturas, em janeiro de 1970, no Quartel do Exército, na rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro), Apolônio de Carvalho, Jacob Gorender e Jover Telles. A proposta geral dos dissidentes consistia em repudiar alianças com setores da burguesia brasileira e estabelecer um governo popular revolucionário. Para tanto, o PCBR considerava estratégica a luta armada. A tática geral, entretanto, procurava um equilíbrio entre o militarismo e o pacifismo característico do PCB, o que provocou fortes tensões internas e a saída de militantes. A pressão desses setores e o acirramento da repressão obrigaram o PCBR a reforçar a execução de operações para a obtenção de fundos. Em junho de 1970, a linha do partido foi reorientada para uma prática idêntica a dos grupos que constituíram a chamada “Frente Armada”, entrando na rotina de realizar ações apenas para angariar recursos. Em dezembro de 1972 e outubro de 1973, no Rio de Janeiro, membros do 3o Comitê Central foram chacinados pelos órgãos de repressão. (Informações retiradas do livro: “Luta, Substantivo Feminino”)


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