quinta-feira, 1 de setembro de 2016

EM 28 DE AGOSTO DE 1941 ERA ASSASSINADO O CÔNEGO BENIGNO LIRA

Por Cláudio Gonçalves de Lima

ENTREVISTA COM JOSÉ BATISTA DOS SANTOS (ZUCA) TESTEMUNHA DOS FATOS 

Nas muitas pesquisas que realizei durante 16 anos sobre a Hecatombe de Garanhuns, umas das entrevistas que me marcou foi a que aconteceu com o Senhor José Batista dos Santos, seu Zuca, que apenas em 2015 eu viria a saber que se tratava do pai do meu amigo de trabalho, Cleves Rossini dos Santos, funcionário municipal há 34 anos e 25 anos trabalhando no Arquivo Municipal. 

Por meio de uma amiga tomei conhecimento que havia em Garanhuns uma senhora chamada Ismênia de Barros, que também depois fiquei sabendo que era uma testemunha ocular da Hecatombe de Garanhuns e avó de Cleves Rossini e que a mesma residia no Condomínio Úrsula Moraes. 

No dia 14 de junho de 2001 fui até o condomínio e encontrei dona Ismênia, naquela ocasião com 99 anos. 
Cleves Rossini 
Conversamos sobre a Hecatombe de Garanhuns, e fiquei sabendo que seus pais haviam morrido de bexiga, e o seu padrinho coronel Francisco Veloso da Silveira a criou por alguns meses, depois a entregando para ser criada por Aurélia Rosa Brasileiro. Entre lembranças e informações preciosas para o meu trabalho, perguntei sobre o Cônego Benigno, dona Ismênia me falou que ele havia criado o Colégio dos Meninos e era uma pessoa muito caridosa, mas foi nesse momento que para minha surpresa o senhor José Batista dos Santos me revelou que morava próximo ao Cônego Lira em Brejo da Madre de Deus, e no dia 28 de agosto de 1941 esteve com os seus pais no Sítio Barra do Faria, após o assassinato do Cônego. 
O que me impressionou no depoimento do Seu Zuca foram os detalhes das informações que pesquisando posteriormente em jornais, correspondem aos fatos e vão além do que foram noticiados nos periódicos da época.

Depoimento do senhor José Batista dos Santos (Zuca) - 14 de junho de 2001. 

Era quinta-feira, dia 28 de agosto de 1941, quando o Cônego Lira foi assassinado, eu tinha nove anos na época e morava no sítio Tabocas perto da sua fazenda, a Barra do Faria, hoje atual Santa Fé, na cidade de Brejo da Madre de Deus. O Cônego tinha um coração muito bondoso, era muito carinhoso com as crianças, sempre que a gente estava na catequese, ele nos dava frutas e ajudava  a quem precisava, uns vinte dias antes da sua morte, chegou na sua fazenda um senhor chamado Leopoldino com esposa e dois filhos, estava desamparado e pediu um lugar para morar, pois estava passando muitas dificuldades. O Cônego que sempre ajudava os mais pobres lhe deu uma casinha de taipa e trabalho para sustentar a família. Com um dos filhos adoentado a mulher desse morador, todos os dias pedia ao Cônego medicamentos e alimentos para as crianças. Cônego Lira ajudava no que podia. 
Cônego Benigno Lira
No dia 28 de agosto pela manhã, essa mulher foi a casa do Cônego para pedir mais remédios para colocar nas perebas do filho, e reclamou que os remédios que o Cônego Lira tinha lhe dado não faziam efeito. Cônego Lira disse que tinha apenas aquele medicamento, mas a mulher continuou insistindo, foi então que o Cônego ficou irritado e  disse que ela fosse embora, porque ele não era feiticeiro. Essas palavras eu ouvi da empregada do Cônego contando no velório. A Mulher aborrecida retirou-se e foi para casa, quando o marido chegou do roçado, ela fez intriga, dizendo que o Cônego havia agredido ela. O esposo afiou uma faca e saiu para tomar uma satisfação com o Cônego Lira, dizendo que ele nunca mais bateria em mulher. Endiabrado se dirigiu a casa do Cônego, encontrando ele na porta, houve uma discussão e sem que o Cônego esperasse o Leopoldino deu uma facada no Cônego, que tentou escapar fugindo para dentro de casa, mas o Leopoldino alcançou o Cônego e deu mais 12 punhaladas, que faleceu na sala.  O Leopoldino saiu correndo e o administrador da fazenda José Rosa se atracou com ele, mas foi ferido de leve no braço, o assassino subiu o muro usando de um pé de goiaba, ferindo a mão, um corte profundo, mesmo ferido correu pelo Rio Taboca, saindo duas léguas num povoado. Seu Danda e José Danda, selaram um cavalo e perto do Sítio Catulé em Mandaçaia pegaram o sujeito. Amarraram o cabra em cima do cavalo e trouxeram para a fazenda do Cônego. Na fazenda estavam Durquinha e Zequinha que tiraram a roupa do Cônego e o colocaram na cama, quando eu cheguei com meus pais, eu vi o sangue que pingava do colchão no chão.

O Leopoldino ficou num quarto todo amarrado. Na fazenda tinha muitos curiosos, fiéis, trabalhadores e amigos do Cônego, um senhor chamado Erasmo Campos, que era conhecido por Erasmo Gordo, família de Wilson Campos, deu um murro na cara do criminoso, mas as pessoas o seguraram, ele dizia que o Leopoldino era para ser morto ali mesmo. Depois chegaram ao local um bispo e alguns padres. Depois fiquei sabendo que a polícia chegou e levou o criminoso para Brejo.

No velório as pessoas dizia que o Cônego morreu chamando o Leopoldino de ingrato por tudo que ele tinha feito por sua família. 

O Cônego deixou o Sítio Curtume e um cavalinho branco, que depois foram arrendados pelo senhor Antônio Moreira. Eu me lembro do Cônego passando no cavalinho branco e dizendo pra gente ir a missa. 

No outro dia a nossa família e muitas pessoas foram se despedir do Cônego Lira, que foi levado para ser enterrado no Recife. 

Sempre me lembro dele...

José Batista dos Santos, nasceu em 01 de agosto de 1931, residiu durante muitos no Sítio Tabocas, no município de Brejo da Madre de Deus. Em 1993 veio para Garanhuns, falecendo em 26 de setembro de 2010. 

Entrevista concedida ao Professor Cláudio Gonçalves.

Fonte: http://hecatombedegaranhunscmc.blogspot.com/

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