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Friday, May 20, 2016

TIPOS POPULARES DE GARANHUNS: POETA NOGUEIRA

Antiga Rua do Alecrim ou Rua da Palha.
por José Francisco de Souza

Quando despontávamos para a vida ele já estava se inclinando para dimensão, ou como diria o magnifico, Cassiano Ricardo: "Com o luar na cabeça  que é o sinal de noite no coração". Morava na antiga rua da "palha", ou do "alecrim". Nas antigas imediações em que se encontravam atualmente os Colégios "Santa Sofia e XV de Novembro". Um aglomerado  de casinhas de palha, onde a miséria respirava o ar trescalante das “canelinhas selvagens”. Veredas sinuosas e variadas ligavam os seus moradores com muitos pitorescos recantos de nossa cidade. O  velho e tradicional “pau-pombo” cuja água conduzida por caravana de jumentos lerdos e preguiçosos. O chamado “Cuscuzeiro” de Paulo Tenório e “seu Zuza” com as inesgotáveis cacimbas do saudosa “Neco Fernandes”. E com ornamento da beleza desse labor, não faltava moças bonitas, carregadeiras do precioso líquido, saudáveis e alegres sem preconceitos como todas as filhas do povo. Colos ofegantes a comprimir os seios virgens que pareciam “dois assassinos presos nos grilhões das rendas”. Lata d’água na cabeça lá vai Maria, nesta comovente paisagem humana viveu: ANTÔNIO NOGUEIRA – ou seja o poeta Nogueira. Homem de estatura baixa. Vasta cabeleira branca,  bigode frisado, esbelto e de porte respeitável. Parecia muito com o autor do  “ATENEU”. Andava sempre bem arrumadinho. Roupa de brim e camisa da mesma fazenda e gravata preta.
Bairro de Heliópolis no início do século passado.

Repentista  e como tal seus versos giravam em torno das sextilhas. Só aos sábados  aparecia pelo comércio. As feiras livres eram muito movimentadas. A rua Santo Antônio era o ponto de sua concentração. Como todo poeta não lhe atraiam as especulações. Não possuía mentalidade de cambista. Vivia de sua arte. Para sua musa. Poeta e nada mais. Assim não comprava nada na feira. Apenas, vendia musa na feira. Trocava suas glosas por alguns niqueis. Quando lhe davam um mote de repente chegava. Possuía uma maneira especial de tratar as pessoas. “Oh meu patrão, meu coronel”... Certa vez, dia de feira, ele estava na mercearia de um velho português conhecido por “seu Praça”, e  um sujeito lhe disse: - “pegue do copo e faça uma glosa para mim”. Tomando a atitude do glosador, Nogueira parou – olhou e copo e não saiu nada. A sua musa vadia estava longe. Então, o matuto lhe disse “o senhor não sabe improvisar, não é poeta”, eu vou embora e foi se inclinando para apanhar o níquel de cima do balcão. Ao que Nogueira num gesto genial lhe respondeu: “espere um pouco, meu patrão, meu coronel, deixe a musa chegar”. “O verso é como a correnteza  que forçou a água turva”.
Construção do Grande Hotel em 1955.
Créditos da foto: Blog do Iba Mendes.
Quanta sabedoria nessa resposta... Realmente o verdadeiro poeta tem ser fluente, espontâneo  como a água corrente. Resposta digna de um verdadeiro eleito das musas. Somente os turvos e bajuladores fazem versos de encomenda. Nogueira não podia plagiar porque era analfabeto. Conquistou à mortalidade, sem as pompas acadêmicas. A sua roupagem era simples como legado imortal à sua geração, a harmonia do seu mundo íntimo. Na sua simplicidade viveu em busca da bondade, que supunha existir no azul alcandorado. A sua cabeça cheia de lendas era como um violino mágico a tocar. A sua musa vadia lhe ensinara a morrer como sempre vivera, sorrindo.
Fonte: Jornal “O Monitor” de 18 de outubro de 1980 – Ano 50 nº 183.

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