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Wednesday, May 4, 2016

TIPOS POPULARES DE GARANHUNS - JUSTINO

Por José Francisco de Souza - In Memoriam

A sua vida era uma agonia dolorosa. Conhecemo-lo já no ocaso da  existência. Era um velho, desdentado e feio. Bebia muito e constantemente. Aqui nascera e vivera carregando a cruz do seu calvário sem ter encontrado um Cirineu. Dizia-se membro de certa família de cor, cuja árvore genealógica gerou os negroides mais cabotinos do seu tempo. Chama-se Justino. Ou seja negro Justino. Possuía uma memória admirável. Sabia e contava a vida de muita gente metida a importante. O que fazia sem o menor respeito humano. Sempre muito irreverente. Quando surgia nos meios das nossas velhas ruas, certos granfinos suavam por todos os poros. Conhecendo como ninguém, a origem duvidosa desses farrapos de  orgulho, Justino desfiava as contas do rosário da vida de cada um deles.

Não entremos no mérito da questão. Mas - todo mundo gosta de indagar a procedência e a conduta dos seus semelhantes. Assim, a cada passo, indagava-se do negro velho. "Justino você conhece o comerciante fulano e o Dr. Sicrano"? "Ora se conheço" - aquilo chegou aqui com uma espingarda velha sem cano". E uma cachorra magra chamada "piranha" e uma carga de  menino remelento". E hoje são metidos a bestas. Pensam que são donos do mundo. Garanto que já se esqueceram quando viviam comendo cascão de xerém (esturricado) em panela de barro... "Esse mundo é assim mesmo, Deus só dá toucinho a quem não tem cambito". Bêbado como sempre vivia, chegou no meio da calçada, da casa de um desses novos ricos jogou a mochila de molambo fora e quase pelado - deitou-se. O sol a pino e escaldante de verão. O suor em bagas inundava-lhe a fronte. Exalava álcool por todos os poros. Ocasião em que a dona da casa, tentando livrar-se do intruso, joga-lhe um balde cheio de água. "Vá embora seu bêbado e imoral". "Oi e isso é comigo sá dona..." Com quem será então? "Pois bem, escute: vou refrescar um pouco a sua memória..." - "A senhora porque não vai jogar no seu pai que é um bêbado de gabinete: Está ouvindo. Escute aqui a senhora não tem culpa disso não. "Esse ano eu carreguei quase cinco latas de mel de uruçu para seu pai fazer cachimbo". Agora calcule a senhora - quantas canadas de aguardente ele comprou. "Olhe não fique com raiva de mim não". "Seu pai diz a todo mundo que é filho do Maranhão. "Mas é mentira, ele nasceu aqui em Garanhuns. "Eu me lembro no dia que ele nasceu: "foi sol por lua". "Ele ainda é meu parente". "Eu como pobre e preto e muito feio, nunca tive bondade com ninguém, nem orgulho. "A minha vida é beber, cair, gemer, chorar e  querer bem". Depois desses esclarecimentos a nova rica ficou triste.
E Justino, dormiu até ao anoitecer. Quando acordou foi para o lado do cemitério, onde costumeiramente, pernoitava. Não tinha casa. Morava na cidade dos mortos. As catacumbas eram sua cama. Reclinava a cabeça tonta de  álcool - no silêncio tumular dos finados. Dizia sempre que os defuntos não buliam com ninguém. Só tinha medo da vida. Dos vivos. Dos mortos não. Naquele tempo contava-se muitas histórias e muitas lendas sobre o silêncio dos cemitérios. Sagas dos mal assombrados". Do carro encantado, de fantasma. E se dizia que o fogo - fátuo era atrás da outra, a pedir perdão para se salvar. Todavia, Justino, via tudo isso por um prisma diferente. Uma vez estava tão bêbado que caíra de cima de uma catacumba e ficou deitado na areia do  cemitério resmungando esses versos:

"Um velho caduco
caiu do banco fez puco
Lá na casa de sarau
onde o gato faz miau
e o fole
vuco, vuco".

E assim morreu o preto Justino. A sua morte não foi chorada por ninguém, causara até alívio aos cabotinos de sua época. Não sabemos se os versos acima eram  de sua autoridade. Pode não ter sido poeta, nem menestrel.

Contudo, teve a sua filosofia própria que foi a norma de sua vida e morreu: Bebendo, gemendo, chorando e querendo bem".
Fonte: Jornal "O Monitor" de 23 de agosto de 1980 - Ano 50 nº 181.

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