segunda-feira, 23 de maio de 2016

EU E O MAGANO EM GARANHUNS

Alto do Magano em Garanhuns.
Foto: Hilton Marques
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por Dumuriê Vasconcelos

Não sou homem de engodo. Sei que poderei ser acoimado de louco ou visionário, mas com seriedade vos  digo: eu ouvi o Magano falar. E a voz do morro me pareceu mesclada de melancolia e recriminação. Dúvidas? Pois eu vos lembro que Bilac ouvia estrelas. Por que não posso eu ouvir outeiro? Vezes sem conta, na mocidade, eu percorri os caminhos vários que se espalham por  Garanhuns. E nessas andanças avistei, como diria outro poeta - o Deolindo Tavares, "paisagens e perspectivas multiformes". Do alto do Monte Sinai com enlevo vi, repetidas vezes, o casario da cidade a se espalhar por vales e colinas. No aprazível sítio de Zuza Gregório tomei banho de açude e chupei caju. No Castainho encontrei as célebres negras. Belas algumas, desgraciosas outras; todas na dura lida de fazer farinha. No sítio de Melo percorri o cafezal do meu tio Bernardino. Ah! os antigos cafezais de Garanhuns! Em 1936, nosso município foi o campeão brasileiro na produção de cafés finos. Como prêmio, ganhou um avião para o Aéreo Clube local, mas os políticos da época não se interessaram em recebê-lo. Depois veio e derrocada. O Governo Federal jogou café no mar. Os preços baixos provocaram a erradicação do rubiácea em nossa terra.
Cristo do Magano.
Compareci à festa de Santa Quitéria, nas Frexeiras, atraído mais por pendor religioso. Ouví o canto das acauãs no sítio Jussara. Fui a Santo Antônio do Tará ver a casa onde nasceu meu pai. Conhecí um vergel florido chamado Brejo das Flores e vi a nascente do Mundaú - ingrato rio que deixa o berço natal e vai irrigar estranhas terras. 

Na Gruta d'Água não encontrei o jacaré falado. Lendas do meu tempo! O jacaré da Gruta d'Água que nunca existiu. O carro-de-boi encantado que gemia pelas ruas em noite alta, em procura do dono, e que o velho Alfredo Leite descobriu ser o trem-de-ferro resfolegando, nas manobras da rotunda. O lobisomem da Boa Vista que assustava a população nas caladas da noite, e que mais era do que o poeta Gumercindo atrás de amores.

No ano de 1937, num domingo, entre surpreso e risonho, vi a feira de Itacatu se acabar. Os matutos fugiram apavorados quando os soldados do Tiro de Guerra 45, de Garanhuns entraram na vila armados de fuzis, cantando hinos, em exercício militar de rotina. Eu era um desses soldados. Testemunhei o esforço de Deusdedit Maia, Presidente do Tiro, para convencer o povo de Itacatu de que não se tratava de revolução. Andei, pois, pelos mais variados lugares de minha terra natal. De repente descobri que nunca estivera no Magano. A ingratidão se desfez em junho de 1979.  Subí o Magano em tarde invernosa e cinzenta. Fazia muito frio mas não havia chuva. No cimo do monte um forte vento açoitou-me o rosto. Assanhou-me os cabelos. O nevoeiro impediu que eu visse o pôr-do-sol famoso. Vi, porém, o abrigo e o Cristo erigidos por Celso Galvão, Prefeito que certa vez ameaçou prender os desportistas da cidade, caso eles insistissem em realizar um jogo de futebol entre Caruaru e Garanhuns. Coisas da Ditadura... 

Estava eu embevecido com estas lembranças antigas, quando me pareceu ouvir angustiosa voz que me pareceu que me perguntava: "Por que tardaste tanto" Era, certamente, o desencanto do Magano. O morro havia esperado tanto tempo pelo menino que fui; eis que lhe aparece um velho de cabelos grisalhos. Emocionado fiquei.
Fonte: Jornal "O Monitor"  de 13 de setembro de 1980 - Ano 50 nº 184.

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