quarta-feira, 13 de abril de 2016

TIPOS POPULARES DE GARANHUNS - MARTIM

Praça Dom Pedro II - Créditos da Foto: Cora Valença.













Por José Francisco de Souza - In Memoriam

Era um sujeito de compleição forte, de cor bronzeada, caboclo gigantescamente pesado. Seu traje era diferente de todos os outros que tiveram o seu mesmo destino. Calça listada e bem ligada as pernas, contrastando com um pedaço de estopa velha que servia de paletó. Vários objetos imprestáveis lhe cobriam o corpo. Caneco velho, marmita, funil, peça de flandre, resto de lata velha cobria-lhe o peito cabeludo como armadura de guerreiro mediavel. Com o movimento de seu corpo batiam um no outro como se fossem sinetas tocando ao um só tempo. Parecia habitante de cavernas primitivas. Era, contudo um pobre vivente. Absolutamente inofensivo, não molestava ninguém, não tinha crises e nem era furioso.

A sua ideia fixa consistia no cuidado que devotava a todas as mulheres. Quando notava que uma senhora, uma jovem passava de sua casa para outra da vizinha. Ou mesmo para fazer compras gritava "seu mané, sá maria vai fugindo... Tenha cuidado nela. Não deixe ela fugir não. Eu ando por aqui é pra botar sentido nelas. As muié são danadas pra fugir. Deixe não seu Mané, deixe não. Mande elas pra casa. Lugar de Sá Maria e de toda muié é em casa coziando feijão e ensinando os meninos, os "fios" a fazê pelo siná - porque o cão anda solto pelas ruas.

Chamava-se Martim, conhecido por Martim "Doido". Não oferecia perigo nenhum. Não maltratava e nem investia contra ninguém, gostava muito das crianças. E até certo ponto, a sua maneira, colaborava com os pais de família... Porque Martim "doido" cuidava tanto das mulheres dos outros? Teria sido vítima de alguma outra Maria? Quem o sabe? Qualquer homem pode perder o juízo por uma Maria de seus sonhos. Esse cuidado era a desconfiança de todas as Marias. Era um fenômeno de transferência. Seu passado todos desconheciam. As filhas da vida em sua plenitude. Nisso havia qualquer coisa de mistico. As mulheres deveriam ficar em casa ensinando aos filhos a fazer o sinal da cruz porque o cão andava solto. Martim "doido" já deve ter ido conduzido pela morte essa niveladora de injustiça e preconceitos humanos. Os intelectuais não são necessariamente melhores do que o homem comum. Eles se equivocam muito. A sua cultura apenas torna sua neurose inteligente. Há muitos intelectuais que vivem nas fronteiras da loucura por uma Maria qualquer.
Fonte: Jornal “O Monitor” de 01 de novembro de 1980 – Ano 50 nº 185 – Fundado em MCMXXX.

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