sexta-feira, 29 de abril de 2016

TIPOS POPULARES DE GARANHUNS - LUÍS

Estação Ferroviária de Garanhuns no início do século passado.




Por José Francisco de Souza

Passava o dia na casa comercial do velho Vicente do "Ponto". As vezes costumava passear pelas ruas. De preferência na Av. Santo Antônio. Naquele tempo não havia calçamento. A grama verde - tapete esmeraldino - servia de repasto aos animais. Sempre era encontrado conduzindo um cacete. Seu companheiro costuma dizer que servia para espantar as cobras terríveis inimigas do homem, desde o começo do  mundo. A cobra era a maior inimiga do gênero humano. Foi por causa da serpente que Adão e Eva perderam o paraíso. E concluía com ares de profeta: "nenhum homem poderá viver tranquilo enquanto existir uma cobra". Aqui viverá toda a sua existência atribulada. A sua conduta psicológica era índice de  seu desvio mental. Tipo de estatura mediana, moreno claro,  compleição robusta e chamava-se Luís. Luís "doido".

Pertencia a certa família conterrânea. Somente na hora do crepúsculo, na hora do Angelus, percorria às principais ruas da cidade. Não para contemplar as belezas de nossos ocasos purpurinos. Mas para espantar as  cobras. Não perdia tempo estava sempre pronto a cumprir o seu destino. E com toda força batia o cacete, na parede do chão e gritava: "Minha gente é hora das cobras... Tenha cuidado que essas cobras daqui são como os cágados - quando mordem a perna de um cristão  só largam - depois que o sino bate".

Tinha o hábito de chamar a todo indivíduo de Pardo. Todo cidadão branco, preto e de qualquer posição social para ele era simplesmente "Pardo". Certa vez, passava por perto de Luís "doido", uma dessas morenas do outro mundo, toda se requebrando, cujo "latifúndio dorsal" era verdadeira subversão da ordem plástica... Ao contemplar o vulto da dengosa filha de Eva disse para um sujeito metido a importante que na ocasião passava: "Ou pardo vai depressa chamar aquela "parda" para dançar comigo uma Pavana." Não sabemos se tal indivíduo atendeu a ordem do  insensato.

A verdade é que Pavana era uma dança antiga, popular na Itália, a qual mais tarde passou a dominar os salões da velha aristocrática pessoas, deitando com os ouvidos colados no chão. Uma delas indagou Luís "doido" o que é que você está vendo ou ouvindo aí? Ao que respondera Luís sim. Doido não. Você é que é doido de curiosidade seu "Pardo": "vagabundo que não tem coragem de descobrir nada".

"O que foi que você já descobriu na vida?  Nada. Agora eu me chamo Luís e estou descobrindo coisa muito importante, é a seguinte: "É que esse mundo está todo furado"... Por baixo de formigas, e por cima de ladrões: "Só há uma coisa difícil nessa minha descoberta é a distinção que existe entre ladrão e formiga. "Cá no meu mundo o ladrão rouba e se esconde nos buracos das formigas". E na doutrina de vocês  os ladrões roubam tudo mundo e não vão para a cadeia e nem tampam os buracos das formigas."Vocês já viram que coisa". E continuava gritando são horas das cobras: São horas das cobras...

Assim Luís "Doido" terminou a sua vida de grilheta da loucura. Viveu acorrentado ao peso de um determinismo cruel. Vítima de um desvio de ordem mental, sem estabelecimento adequado, passou a sua vida afugentando as cobras de sua imaginação. Depois de  morto não fora lembrado por ninguém, senão como simples vulto das pessoas. Foi uma triste e sombria paisagem humana.
Fonte: Jornal "O Monitor".

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