The 3 Week Diet

Monday, April 25, 2016

TIPOS POPULARES DE GARANHUNS - ESTEVÃO RICO

Por José Francisco de Souza - In Memoriam


Pobre homem de seu tempo que no dealbar de  uma madrugada qualquer, amanheceu aqui. A subsistência lhe impunha um trabalho rude. Parecia um predestinado para isso. Carregava pesados fardos de mercadorias destinadas aos pequenos comerciantes. Recebia em paga por esse trabalho ingente alguns centavos, que juntos não davam para saciar a fome. Seu estômago reclamava algo mais das migalhas que recebia. Vivia bloqueada pela fome, parecia ser este o seu destino. De compleição física robusta, aparentando boa saúde e predisposto a suportar o peso da sua existência, como geralmente acontece aos indivíduos perseguidos pela tirania estúpida do viver.

Moreno claro, cabelos grossos e abundantes. Andava sempre descalço. Seus pés nasceram para calçar as pedras rudes dos calçamentos e a areia escaldante dos caminhos cruzados da vida. De fisionomia sóbria. Sem conjunto de caracteres especiais. Congestionado consigo mesmo e muito mal humorado. Não irradiava um vislumbre de simpatia em qualquer ambiente. Rixento e  brigão. Falava sozinho, gesticulando nervosamente como se estivesse em oposição ao seu próprio eu. Jamais fora encontrado com outra pessoa. Carregava às costas pesados fardos. Jornaleiro arrojado e brutal, destituído de qualquer possibilidade de um salário condigno. Seu aspecto geral era de um sertanejo bronco egresso das regiões calcinadas pelas secas. Quando  falava a sua voz cavernosa enchia o espaço como um trovão. Carregado de maletas ou outro peso qualquer. Não andava, corria na ânsia louca de chegar primeiro na  parada da vida. Era um homem digno de confiança.
Como se fora uma máquina enfrentava os rigores de um sol causticante de verão com o estoicismo e a renúncia dos miseráveis.

Chamava-se Estevão, não sabemos porque o apelidaram de "Estevão  Rico". Constratando com muita gente que pratica toda sorte de imoralidade para conquistar a alcunha de "rico" - Estevão ao contrário ficava furioso capaz de cometer violências quando se lhe chamavam de "Estevão Rico"... Não era dado ao capitalismo..

Certa vez, num dia de sol causticante, debaixo de um pesado volume, seu corpo suava por todos os seus poros e alguém gritava: "Estevão Rico". Ele não teve dúvida, num gesto selvagem, jogou o fardo ao chão e correu atrás do indivíduo. Era assim não  admitia que lhe chama-se de rico.

Ser rico ou chamá-lo de "rico" era a maior ofensa que  lhe poderiam fazer. Revoltava-se contra a todos de  um modo selvagem. Chamava nomes feios, escandalizava os "santos pintados" da hipocrisia social. O baixo calão conturbava o meio, a pornografia jorrava em abundância. Essa explosão de ódio se definiu. Também o chamavam de ... "Estebí"... "Estevão Rico Estibí"... Misericórdia, ele se transfigurava e quase possesso desafiava gregos e troianos. Ameaçava,  praguejava os céus a terra e o mar. Depois da tempestade vinha a bonança, e continuava executando a árdua tarefa na conquista do pão amargo de cada dia. Cumpria fielmente a determinação laboriosa dos Evangelho. Ganhava o pão com o suor de seu rosto. Trabalhava como um touro e era pobre como um pária. Mas,  de uma honestidade que impunha respeito.

De procedência ignorada, filho espúrio de uma geração de anônimos. Jamais sentira o conforto de um amigo qualquer. A revolta era o seu estado natural. Negaram-lhe tudo. Talvez, por isso, molestava-se, quando a canalha da rua lhe chamava de "Estevão Rico". Na sua ignorância o adjetivo "rico" era pejorativo. Um escárnio à sua dignidade de homem sem classe e sem destino. De homem livre dos preconceitos de uma sociedade em franca decomposição moral. Um dia, porém, "Estevão Rico" amanheceu de bom humor, acontecera algo de novo em sua vida. Como iluminado pela esperança de encontrar uma companheira. Dera a  seguinte notícia a um desconhecido que passava: "Oie home eu hoje recebi uma mulherzinha que me mandaram, pra morá eu". "O diabo é que comprei uma melancia e dixe pra muiezinha fique aí que já venho". Quando vortei a muiezinha tinha ido imbora e levou a melancia". "Tu já visse que coisa". Então o indivíduo maldosamente indagara, qual das duas você sentiu mais falta: da mulher ou da melancia? "Quem eu? Eu senti mais falta da melancia, pra que diabo serve muié"? Muié é bicho que só serve para atanazar o home"...

Não sabemos se "Estevão Rico" ainda pertence a esse mundo, ou se já está vivendo em outra dimensão da vida. Verdade é que não mais aparecera pelas nossas ruas. Figura impressionante, tipo grosseiro e mal humorado, pobre que não queria que lhe chamassem de "rico" e tinha um conceito interessante das pessoas e das coisas para ele: "Uma mulher valia menos do que uma melancia".
Fonte: Jornal "O Monitor".

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