sexta-feira, 8 de abril de 2016

TIPOS POPULARES DE GARANHUNS - AGOSTINHO

Centro de Garanhuns ano de 1965 -  Avenida Santo Antonio
Créditos da Foto: Cora Valença.


















Por José Francisco de Souza - In Memoriam
.
O tipo popular que falaremos hoje era um tipo mirrado do murcho, se soubesse ler poderia ter vivido, adorando narcisamente, a sua própria imagem nas figuras de Gibi. Chama-se Agostinho. Nascera, no antigo Distrito de Garanhuns, hoje cidade de Brejão. Dizia-se mochileiro no duro. A idade não alterou muito sua fisionomia, nem a sua compleição física. Cara de  menino, corpo de menino. Na realidade não era nem uma coisa nem outra, a sua idade era de um velho. Periodicamente aparecia por aqui. Descalço, camisa de algodão por fora das calças como os turistas de hoje. Trazia sempre, na sua cabeça de boneco de gerigonça, três mochilas uma sobre as outras, como se fora um turbante. Tomava boa carraspana. Embriagado quase não falava, grunia. Miava como um gato.

Nesse estado dizia: "hoje tomei uma branda e séria. "Fitando as pessoas com aqueles olhinhos miúdos, pérolas mortiças, encravadas no seu rostinho sardento perguntava: você, oi, oi, oi, você me conhece". Essa pergunta tinha sentido oposto ele é que no estado em que se achava não conhecia ninguém - estava inocente, havia tomado uma branda e séria.
Aperreado pelos moleques de gravata (símbolo de importância na época de Agostinho), ficava agressivo e a pornografia dominava o espaço. Enchia os ouvidos da "Praça Santo Antônio". Contudo, não era dado a essa linguagem. Apenas reagia contra o ambiente popular cuja irreverência sádica, ainda hoje domina.

Certa vez, depois de tomar uma cana doida, Agostinho, resolveu ir para casa. Pé no mato e pé no caminho, a estrada larga da perdição, ficara estreita pelo sacrifício de manter o equilíbrio do corpo. Anestesiado pelo álcool, não pôde mais conduzir-se... Deitou-se ou melhor espichou-se no meio da estrada poeirenta. As três mochilas uma após outra caídas no chão parecia reticência de pano. Ali permanecera até ao cair da noite... E não mais acordou, Agostinho, morrera de bêbado. Na vida não chegou a ser nem homem nem menino, vivera mirrado como uma flor na estufa.

Vítima da crueldade, do motejo público, porque a natureza lhe fora ingrata. Negou-lhe até o direito de crescer como as árvores que vegetam. Fora desprezível arbusto humano, ridícula figura de Gibí. A sua cabeça de boneco implantada no seu corpinho mirrado viveu verticalmente o destino cruel. Mas um dia, o seu corpo fora encontrado morto em posição horizontal. Seus olhinhos, espelho de sua alma, fitava a imensidão do infinito céu, como que espantados com a beleza cintilante das estrelas.
Fonte: Jornal "O Monitor" de 15 de novembro de 1980 - Ano 50 - Nº 196 -


Nenhum comentário:

Postar um comentário