The 3 Week Diet

Tuesday, April 5, 2016

OS PÁSSAROS

Por Dumariê Vasconcelos

Foi no Colégio 15 de Novembro, aos treze anos de idade, que comecei a amar os pássaros. Quem despertou em mim tão amável sentimento foi a professora Maria Isabel Marinho. Dona Bebé como nós seus alunos, a  chamávamos carinhosamente.

Lembro-me bem; corria o ano de 1933. Certa manhã. Dona Bebé abriu um livro e leu em voz alta, para toda da classe ouvir, uma poesia chamada "O Pássaro Cativo" de Luís Pistarini. O versos começavam mais ou menos assim: "Armas num galho de árvore e um alçapão e dentro em breve avezita descuidada cai na escuridão". O poeta descreve em rimas, as providências do carcereiro: dá ao pássaro uma gaiola dourada água fresca e alpiste. Só não dá mesmo o que o pássaro tanto deseja - a liberdade. Fala o poeta ainda, em linguagem pungente, das lamentações do pássaro. Mas a poesia se acaba e a ave continua presa.

Sempre fui um inocorrigível  sentimental. E hoje, após tantos anos, confesso sem pejo que esta poesia me fez verter furtivas lágrimas. A partir dessa época, passei a amar e respeitar os pássaros. Por isto, inúmeras vezes, aqui no Recife, tenho repelido jovens malvados que atiram, aparecem para beliscar os frutos das minha caramboleiras. Ah, quantas aves já encontrei mortas no meu quintal! Jamais matei passarinho, jamais armei alçapão, jamais prendi pássaro em gaiola. Gosto das aves como Deus as criou: chilreando nas ramagens ou cortando o azul dos céus nesse "tatalar suavíssimo de espingarda nos passarinhos que nos fala o poeta Arthur Maia.

Mas a vida tem as suas oscilações. Li num cemitério um epitáfio em latim que significa mais ou menos isto: "A VIDA MUDA SEM A GENTE QUERER". Eis uma verdade cristalina. Filha minha de 10 anos, a quem muito amo, recebeu de presente uma gaiola com um casal de canários. Insisti para que ela soltasse as aves. Ela argumentou que a doadora dos pássaros era a sua melhor amiga, e que não lhe ficaria bem fazer tamanha descortesia a essa moça. Fui forçado a me convencer. Todas as manhãs minha filha parte para o colégio, e eu fico na penitência de lavar a gaiola, colocar a gaiola, colocar alpiste, maxixe, alface e água fresca para os canários.

Recentemente num domingo, alguns rapazes e moças nos visitaram. Agradaram-se dos pássaros. Uma jovem colegial me perguntou se os passarinhos tinham nomes.  Respondia-lhe que o canário se chamava Sidney Magal e a Canária era Vanderleia. Todos riram muito. Aí uma moça bonitinha achou que eu era um "cara legal", um coroa prafrentex" pois, comumente, gente da minha idade não prestigia a "jovem guarda". Só gosta de "velharia", de cantores como Orlando Silva e Francisco Alves.

Por isso, ela me dava os parabéns porque sou um "homem atualizado" admirador dos cantores novos. Mas eu a decepcionei logo. Disse-lhe que, além de Orlando Silva e Chico Alves, eu também gostava de Augusto Calheiros e Carlos Galhardo. Surpresa com a minha declaração a moça me perguntou: "Se é assim, por que motivo o senhor botou nos pássaros os nomes de Sidney Magal e Vanderléia?"
Imediatamente respondi-lhe: - Porque eles não cantam nada!
Fonte: Jornal "O Monitor" de 15 de novembro de 1980 - Ano 50 Nº 196.

Nosso Blog tem um apoio Cultural de:



No comments:

Post a Comment