segunda-feira, 28 de março de 2016

TIPOS POPULARES DE GARANHUNS - MARIA ROQUE


Rua Dr. José Mariano (antiga Rua do Recife).


















Por José Francisco de Souza - in memoriam


Dormia ao relento como todos que passam anonimamente pela vida sem sentir o seu calor. Palmilhava a estrada do mundo levada pelo sopro da crueldade humana. Ignorava tudo a seu respeito. Não tinha família, nem parentes, vivia dentro da solidão de si mesma. Sem pão, sem amigos e sem lar. Sua idade ninguém sabia - todos ignoram a idade da miséria. Chama-se Maria Roque. Seu porte era meio ridículo. Usava cabelos cortados a nazareno o que não seria adorno de beleza e sim de loucura".

As coisas não lhe faziam muito sentido. Entre elas o seu corpo apenas ocupava um espaço sem alcançar objetivos outros. Há muitas pessoas assim... Perambulava pelas ruas sem finalidade e sem destino. Comia restos de alimentos que os outros jogavam no lixo. Repetia-se o mesmo desprezo que os caldaremos nutriam por Jesus. Tratavam-na como ainda hoje se faz com os porcos e vira-latas. Talvez, por isso, guardava certa distância. Não confiava nas pessoas. Tocava gaita de boca. Realejo como se chamava naquele tempo. Improvisava música diferente. Usava esse instrumento de  dia e de noite. Seu corpo murcho rodava em torno de si mesmo. Tocava e dançava de maneira estranha como se não pudesse parar mais. Vencida pelo cansaço e som de sua gaita de boca se repetia no ar. "Meu chapéu de palha fina, meu chapéu de palha fina, meu chapéu de palha fina..."

Nesse estado, a sua fisionomia era de uma ternura ímpar dos seus olhos tristes desprendia-se uma lágrima - pérola mortiça que deslizava pelo seu rosto enrugado. E confundia-se com a espuma de saliva de sua boca desdentada e murcha. Seu corpo transpirava úmido de suor como se estivesse em transe. Muitas noites ela espantava o silêncio. E as ruas desertas em que a luz trêmula dos velhos lampiões pernoitava morta de cansaço. O acendedor desses lampiões era o velho Mendonça - testemunha discreta - dos segredos da nossa cidade adormecida - nos braços da volúpia. Certa vez alguém lhe perguntara: 
- Maria Roque você não dorme... Não tem sono?: " Só posso dormir quando desvendar o mistério da noite. Tenho de vigiar a lua. É meu destino"... Isso começou com a presença da primeira lua, no céu. Tenho que vigiar até a última rainha da noite.

Vocês pensam que a Lua, não tem que dar conta de tudo que tem feito correndo, como uma doída dentro das nuvens? "Pois tem".

A lua tem que dar conta do que tem feito correndo no meio das nuvens como uma doida... Eis uma imagem  digna de qualquer poeta digno desse nome. Um pensamento voltado para as coisas do Infinito. Para a amplidão dos céus, para o azul suspenso. Maria Roque, velha, alquebrada de tanto vencer a distância de nossas ruas. A tocar de dia e de noite a sua gaita de boca. Esquecida de todos. Vivia duas grandezas infinitamente oposta: a grandeza de sua miséria e a do firmamento onde "a lua vive correndo no meio das nuvens como uma doída e tem de pagar por isso".

Um dia que já vai muito longe, Maria Roque, fora encontrada morta. A viela suja, existente, na parte posterior do antigo "Centro Proletário", servira-lhe de dormitório. Naquela manhã brumosa o frio do nosso inverno era rigoroso. Seu corpo inerte, ainda quente, fora brutalmente jogado, por três homens carrancudos, dentro de uma caixão, esquife de terceira classe. Era um resto imprestável de amargura que baixou à terra de uma flor, sem um adeus - sem uma lágrima.
Fonte: Jornal "O Monitor" de 11 de outubro de 1980 - ano 50 nº 182.

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