The 3 Week Diet

Wednesday, March 30, 2016

TIPOS POPULARES DE GARANHUNS - "PÔLA" OU "D. PAULA"


Centro de Garanhuns década de 60 -  Foto: Autor Desconhecido.
























Por José Francisco de Souza - In Memoriam

Dos tipos populares que desfilaram pelo nosso mundo mental, o de hoje é o  mais sintomático. Aqui chegara num dia de sol ardente de verão e permanecerá até os últimos dias de sua existência.

Era encontrada pelos recantos mais discretos da nossa cidade. Sua presença tornara-se objeto de curiosidade de  quase todas as pessoas. Não era portadora de inibição anormal. O mutismo era uma qualidade de protesto. Até certo ponto de autodomínio. Traço marcante de  sua personalidade. Pouco perambulava pelas ruas. Gostava de observar a beleza das praças públicas. As famílias mais importantes supriam as suas necessidades. Muitas forneciam um pouco de comida. Recebia de modo discreto o seu almoço. Nas horas de refeições a sua presença era certa. Isso em certas casas. Quando a impertinência dos pedintes de restinho de comida pelas portas, constantemente se aborrecia e colocava-se na defensiva de sua preferência.

Defendia o seu lugar ao sol e a reação certa do seu estômago faminto. Servia-se com certa correção. Parecia gente habituada à educação doméstica. De estrutura baixa, compleição robusta, rosto redondo, olhos pequenos e ligeiramente oblíquos, de cor bronzeada com predominância de sangue índio. Vestia roupas que lhe davam. Apresentava-se sempre de saia estampada e blusa escura. Raramente andava descalça. Sempre de chinelos ou sapatos bastantes usados. Ostentava invariavelmente umas argolas em forma de brincos.

Seu passo era miudo a arrítmico, as vezes acelerando conforme a lua. Amante do belo sexo e da beleza artificial. Pintava-se exageradamente, a tinta vermelha aumentava as maças do seu rosto como fazem os palhaços. Chamava-se "Pôla" ou "D. Paula" como era conhecida. Andava sempre só. Não gostava muito dos homens. Era um ser ímpar. Adorava as crianças. Todas as vezes que via meninas acompanhadas pelas mães. Pressurosamente se aproximava e pedia para beijar às suas faces macias e rosadas. Depois de beijá-las dizia "mas que coisa linda". Falava com certa correção. Pronunciava as palavras com certo cuidado. Tinha dicção regular. Dava a impressão de que havia frequentado escola quando menina e moça. Não mendigava pelas portas. Raramente pedia alguma coisa. Quando chegava à casa de qualquer família indagava com certa fidalguia - "Já almoçaram? Se ainda tiver café, poderia dar-me uma xícara por favor?".

As vezes necessitava de certa importância em dinheiro e a primeira pessoa que encontrava dizia: - "Pode arranjar-me cincoenta centavos por favor?" Então davam-lhe um cruzeiro ela não recebia-o dizendo: "Preciso apenas de cincoenta centavos: muito obrigada.

Era portanto, uma criatura capaz de representar um papel importante no drama que se desenrola na sombra da vida. Sua conduta revelava um comportamento psicológico recomendável. Certa vez aparecera pelas ruas andando com dificuldade. Ventre saliente e arredondado, estava muito doente. E fora por mãos piedosas levada ao Nosocômio local, onde se submetera a uma séria intervenção cirúrgica, sendo extraído um fibroma de que era portadora. Durante o tempo que passara no hospital, notava-se a sua falta em certas casas de famílias amigas. Restabelecendo-se, porém, voltara ao convívio antigo. Novamente a sua figura enchera as nossas ruas com a sua presença inconfundível. Tempos, depois, não fora vista em Garanhuns. Os recantos de sua predileção ficaram tristes e saudosos pela sua ausência.

Depois soubemos que "D. Paula" ou "Pôla" morrera - certamente, seu corpo, restos mortais de sua vida, fora em algum esquife de terceira, levado para o cemitério desta cidade, onde se encontra sepultado no meio dos outros pobres que tiveram o mesmo fim. Assim terminara a existência de mais um tipo popular, cuja presença, por muito tempo, marcara a sua passagem por este mundo de  resgates e provas.
Fonte: Jornal "O Monitor" de 25 de setembro de 1982 - Ano 52 Nº 298.

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