quinta-feira, 31 de março de 2016

Garanhuns: "Seu Thompson"

Sr. William Thompson.
Por Alceu Euthymio de Azevedo


Desde o Monte Sinai ao topo da Boa Vista e desta aos confins da rua da Areia, não havia quem não conhecesse, no meu tempo de rapazola estudante, numa das mais risonhas cidades do interior pernambucano, a figura agradável e extremamente humana do "seu" Thompson. Quando comecei a  tomar conhecimento das coisas, gravando-as de forma indelével no mais recôndito do coração, já ele trazia consigo esse prestígio pessoal conquistado à troco da abnegação, bondade e amor ao ensino da juventude brasileira, ali representada por centenas de jovens dos mais afastados recantos da calcinada terra nordestina.

O "seu" Thompson daquele tempo era uma personalidade vigorosa, amante do direito e da verdade e para quem o saber constituía a forma mais bela de se fazer cultura para servir ao Brasil. Americano do Norte por nascimento, quis que a nossa Pátria fosse escolhida para dele receber ensinamentos e exemplos que ficaram gravados na memória de quantos cursaram o "XV de Novembro" de tradições gloriosas e imperecíveis.

Bela a vida do "seu" Thompson... As madrugadas e os crepúsculos surprediam-no de machado em punho a rachar lenha para conservar bem aceso o fogo responsável pela alimentação de  famintos estudantes internos. E muito cedo ainda, lá estava ele a bater com uns pauzinhos numa espécie de campanha, cujo sons maviosos eram um refrigério para os nossos músculos cansados de tanto repousar... Era o anjo bom, a mão amiga, o carinho evangélico a minorar os males alheios. Para os que necessitavam apenas duma palavra amiga, ele ia muito além: - dava um pedaço do seu coração.

Nunca em minha existência de bons anos vividos, encontrei quem a ele se igualasse em retidão, justiça e admirável compreensão do dever e da honra. As aulas que ministrava eram ouvidas com religioso silêncio. Na época de provas parciais então, era quando mais se fazia sentir o peso de sua consciência limpa como a advertir o incauto aluno... Costumava dizer sempre: - “Quem sabe, sabe: quem não sabe, não sabe”. De fato, com ele, só se sabendo bem para passar nos exames finais. Essa sua máxima criou raízes e andou frutificando durante todo o seu tempo de professor e diretor do meu colégio de infância. E, coisa interessante, - ninguém jamais se aventurou a pleitear um pontinho a mais na nota...

Em mais de 40 anos de serviço em prol da instrução e do progresso do Brasil, o “seu” Thompson se constituiu numa espécie de árvore simbólica cujos galhos esguios e viçosos, envoltos na roupagem verde a natureza fértil e amiga, serviu para abrigar o viajor sedento pela seiva do saber. Foram muitos, demasiadamente muitos, os que beneficiaram à sombra acolhedora daquela árvores frondosa e simpaticamente erguida no mais profundo dos nossos corações.

Há cerca de uns 2 anos passados, com a experiência que aconselha e a saudade que maltrata, visitei a formosa Garanhuns de minha juventude. E numa bela manhã primaveril, quando o céu era lindo e a terra mais cheirosa, fui à casa do “seu” Thompson, o verdadeiro bom “seu” Thompson, que ali deixara havia já muitos anos. Alquebrado pela idade e extenuado pelo trabalho excessivo, o meu velho professor ainda era aquela mesma criatura meiga, afável e sincera.

E ao reparar a sua habitação modesta e o  traje modesto ainda, confrangeu-se-me grandemente o coração. E ao voltar-me para dizer-lhe que ele havia dado ao meu povo o melhor de sua alma, de sua inteligência e de sua incomensurável  bondade, ele arregalando bem os olhos por  traz dos seus simpáticos óculos, obtemperou: -  “Fiz apenas a minha obrigação; cumpri tão somente o meu dever”.

O “seu” Thompson, para muitos, assim como para mim, será eterno na minha lembrança como um exemplo, o mais grandioso dos exemplos de bondade cristã, neste conturbado e materializado mundo de hoje.

Que Deus permita viver e andar, segundo os passos do “seu” Thompson.
Fonte: Transcrito da revista “A BOLA”, do Rio de Janeiro, edição de setembro de 1949. O autor desta crônica, é ex-aluno do Colégio XV de Novembro e figura das mais simpáticas do seu tempo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário