The 3 Week Diet

Monday, February 1, 2016

FOTO FALSA DO PADRE CICERO QUE ENGANOU SEUS ROMEIROS POR MAIS DE UM SÉCULO



A foto era do pequeno Antônio Fernandes de Melo Costa, filho do poderoso coronel Manoel Fernandes da Costa, que viria a ser um dos grandes amigos do padre Cícero em Juazeiro do Norte.


Por Lira Neto


De acordo com o que está disposto nos livros de batismos da Cúria do Crato, o menino Cícero Romão Batista nasceu naquela cidade cearense no dia 24 de março de 1844. A documentação dos cartórios e das sacristias pode ser mais objetiva do que a narrativa mítica. Mas não é menos sugestiva de significados nem deixa de ser alvo de controvérsias.

Há quem aponte, mesmo aí, na letra firme do escrivão, a sombra de uma armadilha histórica: Cícero teria nascido no dia anterior, 23, e posteriormente alterado o próprio batistério para vincular sua origem à data litúrgica da Anunciação. Não há provas, contudo, que corroborem essa acusação específica de mitomania. O que se sabe ao certo é que o filho de dona Quinô e do pequeno comerciante Joaquim Romão Batista nasceu um caboclinho de longas orelhas de abano e, de fato, cabelos aloirados e um surpreendente par de olhos azuis — características que ajudaram a associar sua imagem ao Cristo caucasiano das gravuras de origem medieval, mas que na verdade foram herdadas dos antepassados portugueses da família, tanto do lado materno quanto do paterno.

O pai, Joaquim Romão, era o primogênito de um oficial da cavalaria que lutara ao lado das tropas brasileiras nas guerras dos tempos da Independência. A mãe, dona Quinô, trazia por sua vez a história de batalhas familiares marcadas por suplícios quase bíblicos.

Suas seis irmãs, as tias de Cícero — Totonha, Donana, Azia, Teresinha, Tudinha e Vicência —, todas teriam sido defloradas pelo mesmo homem, o coronel José Francisco Pereira Maia, o Mainha, juiz de paz, delegado de polícia e deputado provincial pelo Crato. Só ela, Quinô, teria resistido aos assédios sistemáticos do coronel, um garanhão que se gabava de ter colocado no mundo 82 rebentos, polígamo assumido desde que fora traído pela primeira esposa, uma mulher com fama de adúltera e nome de santa: Clara Angélica do Espírito Santo.

Por trás do balcão da lojinha da família, o pai de Cícero tirava o sustento da casa com a venda de artigos os mais variados, que iam de fechaduras de latão a chapéus para senhoras, de parafusos de ferro a gravatas de seda. Com o dinheiro que pingava no caixa, Joaquim Romão  sempre cuidou de proporcionar boa educação ao único varão que o destino lhe concedeu, Cícero, o filho do meio entre as irmãs Maria Angélica, dois anos mais velha, e a caçula Angélica Vicência, cinco anos mais nova.

Toda verdade sobre a foto é contada neste livro.

A tradição oral dá conta de um menino Cícero que construía casinhas de barro para as brincadeiras das irmãs, evitava as típicas estripulias da infância e não se juntava aos demais moleques da rua. Mas que gostava de subir em árvores e de pegar passarinhos, especialmente canários e patativas. Afora isso, vivia enfurnado em uma tenda que armava no quintal de casa, onde ficava sozinho durante horas, silencioso e ensimesmado, como se estivesse a rezar e a conversar com os anjos da guarda. A história da infância de Cícero, tema de inúmeros folhetos de cordel espalhados pelas feiras do sertão, foi sendo construída assim, por meio de relatos posteriores que buscavam abonar o mito e adivinhar indícios de uma hipotética predestinação.

Em um velho folheto cuja autoria se perdeu nos desvãos do tempo, A vida e os antigos sermões do padre Cícero Romão Batista, o garoto é idealizado em um desses instantes de devoção prematura:

Décadas mais tarde, em Juazeiro do Norte, os futuros romeiros disputariam avidamente uma singela fotografia de Cícero aos quatro anos de idade. Milhares de cópias daquela imagem que se tornou célebre seriam espalhadas no sertão, apregoadas pelos vendedores de santinhos como uma relíquia sagrada. Nela, vê-se uma criança bochechuda que se equilibra em pé numa cadeira de palhinha, o cabelo partido ao meio, sapatinhos de verniz, roupa enfeitada com pregas e babados. Seria essa a primeira imagem de Cícero de que se tem notícia, por isso apreciada com afeição especial pelos devotos. A foto, porém, é flagrantemente falsa.

Quando Cícero completou quatro anos de idade, em 1848, a máquina fotográfica havia sido apresentada ao mundo apenas onze anos antes, na Europa, pelo inventor francês Louis Jacques-Mandé Daguerre. No Ceará, ainda não existia quem houvesse visto um desses maravilhosos “daguerreótipos”, que faziam retratos como em um passe de mágica.

Mesmo no Rio de Janeiro, então a capital do país, a fotografia ainda era uma espantosa novidade restrita aos membros da corte de d. Pedro II. O menino da foto não podia ser Cícero. Na verdade, era o pequeno Antônio Fernandes de Melo Costa, filho do poderoso coronel Manoel Fernandes da Costa, que viria a ser um dos grandes amigos do padre Cícero em Juazeiro do Norte. O instantâneo(foto) foi feito já no século XX. Quando, em 1945, homem-feito e residente em Maceió, Antônio Fernandes viajou ao Ceará para visitar o túmulo do pai em Juazeiro, surpreendeu-se ao ver sua foto de criança nas mãos dos romeiros, transformada em objeto de culto.

Lira Neto e o autor do livro "Padre Cícero, Poder, Fé e Guerra no Sertão". Nasceu em Fortaleza (CE) em 1963. Jornalista e escritor, ganhou o prêmio Jabuti em 2007, na categoria melhor biografia, por O Inimigo do Rei: Uma biografia de José de Alencar, publicado pela editora Globo. É autor também de Maysa: Só numa multidão de amores (Globo, 2007) e Castello: A marcha para a ditadura (Contexto, 2004).

No comments:

Post a Comment