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Tuesday, February 16, 2016

CANGACEIRO "BEIJA-FLOR" GANHOU 15 CONTOS PARA TIRAR MARIA BONITA DO SEU MARIDO

Acendendo o cachimbo, "Beija-Flor" afirma que seguiria Lampião, se ele voltasse.

ENTREVISTA CONCEDIDA PELO CANGACEIRO  ANTENOR JOSÉ DE LIMA, "BEIJA-FLOR" AO REPÓRTER GUARACY OLIVEIRA DA REVISTA "O CRUZEIRO", EM 18 DE AGOSTO DE 1962. FOI MANTIDA A GRAFIA DA ÉPOCA.


Por Guaracy Oliveira


"Maria Bonita, casada, vivia com seu marido, um sapateiro que, por sinal, está vivo e mora no Mato Grosso. Se o senhor quiser, êle pode confirmar tudo. Lampião é que gostava muito dela. E Ritinha, a outra mulher de Lampião, sabia de tudo. Um dia, êle me chamou e disse: "Pegue o burrro e vá buscar Maria Bonita. Diga que fui eu que mandei". Quando me aproximei da casa dela, percebi que havia uns "macacos" por perto. Mas continuei. Olhei pela janela e ela estava sentada sozinha, na sala. Fiz um sinal, ela veio. De repente, seu marido apareceu e  perguntou o que era aquilo. Maria Bonita respondeu: "Vou morar com Lampião. Você não é homem pra mim não". Em seguida, montou no burro e fomos embora.

"Quando chegamos de volta" - continua -, "Lampião ficou tão satisfeito que até sorriu. E meu deu, como prêmio, quinze contos de réis. Era muito dinheiro. Maria Bonita melhorou a vida da gente. Cinco horas da manhã, estava todo mundo de pé. A gente comia do bom e do melhor".

"Beija-Flor" se entusiasma com Maria Bonita:

"Foi a mulher mais bonita que Deus já botou no mundo. Tinha o pé grande como diabo. Calçava botinas feitas sob medida e tinha mais pontaria que qualquer um de nós. Ninguém se metia com ela, porque sabia que ia morrer. Brigava de faca, de punhal e de fuzil. Não tinha quem pudesse com ela".

Nas noites de lua, os bandidos sentavam no chão, bebiam cachaça, Lampião tocava sanfona e Maria Bonita acompanhava no  bandolim. Os cangaceiros cantavam modas. Canções que falavam de sua vida aventurosa e cheia de perigos. Também falavam de amor.

Os últimos dias de Lampião e Maria Bonita são contadas pelo bandoleiro aposentado:

"Foi em Angico. Eram quatro horas da manhã quando a casa foi cercada por mais de mil "macacos": um alvoroço da peste! Maria Bonita correu para a porta e levou uma rajada de tiros na barriga. Gritou: "Acorde, Lampião! Estamos cercados!" Lampião pegou a arma, abriu a janela e, quando meteu a cara, levou um tiro na bôca. Foi Jacinto Moreira César, seu antigo cangaceiro, quem atirou. Eu vi. Depois, o Tenente Bezerra acabou de matá-lo. Quando vimos que tudo estava perdido, eu, "Corisco", "Cascavel", "Ventania", "Gasolina", "Relâmpago" e outros fugimos pelo oitão. Fui para São Paulo, depois Mato Grosso e há dois anos estou em Brasília.

Lampião sabia que estava perto de morrer e mata seu próprio filho:

"Lampião sabia que estava perto de morrer" - acrescenta. - "Uma tarde, chamou seus "cabras" de maior confiança e mandou matar seu filhinho de menos de um mês de idade. Não queria deixar nenhum descendente no Mundo - era o que dizia. Fomos todos, um de cada vez ao berço do menino e ninguém teve coragem de matá-lo. O "bichinho" sacudia as pernas e os braços. Cheguei a levantar o punhal, mas, na hora de sangrá-lo, êle sorriu para mim. Lampião irado, ordenou a Maria Bonita que executasse o filho. Ela respondeu: "Você que o fêz, você que o mate!" E Lampião, sem pestanejar, foi  ao berço, jogou o menino para o alto e espetou-o no punhal. Deu o punhal para a gente lamber: "Vejam como é doce..." Ninguém aprovou isso, mas o filho era dêle..."

Esta é a história de "Beija-Flor". Um bandido que, aos setenta anos de idade, ainda não conheceu o arrependimento pelos crimes bárbaros que cometeu. Duas vêzes conseguiu fugir da cadeia. E sorri quando relembra o seu passado de sangue e de maldades.

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