terça-feira, 12 de janeiro de 2016

ENTREVISTA HISTÓRICA: A "COLUNA LOUCA" E A REVOLUÇÃO DE 30 EM GARANHUNS

NELSON PAES DE MACEDO ENTREVISTA JAYME LUNA, (DE SAUDOSAS MEMÓRIAS)  UM DOS INTEGRANTES DA "COLUNA MÁRIO LYRA" OU COMO FICOU CONHECIDA COMO "COLUNA LOUCA".


Mário Sarmento Lyra, foi prefeito de Garanhuns  entre 1930 à 1934.

Jayme Luna foi um dos componentes da "Coluna Mário Lyra", a famosa "Coluna Louca". Hoje, um dos seus remanescentes, razão por que fazendo história, será nosso entrevistado.

Nelson Paes - Jayme, você considera o Movimento Militar de 1930, a última revolução romântica do Brasil?

Jayme Luna - Não, a Revolução de 30 foi uma consequência das revoluções de 22 e 24.

Nelson Paes - A Revolução eclodiu no dia 3 de outubro; nós perguntamos, se muito antes, você e os seus companheiros encontravam-se psicologicamente preparados para aderir ao movimento?

Jayme Luna - Poucos. Valeu mais o entusiasmo e vibração próprios dos jovens.

Nelson Paes - Saindo o Tiro de Guerra 45, uma unidade aquartelada em Garanhuns, sob o comando de um sargento, como passou para o comando de Mário Lyra, que era civil?

Jaime Luna - O Tiro de Guerra 45 era uma sociedade civico-militar e os ensinamentos militares eram ministrados por um sargento, o qual obrigatoriamente pertencia a um Quadro denominado Quadro de Instrutores (QI).

Nelson Paes - O Sargento aderiu? Se aderiu, porque não ficou no comando?

Jayme Luna - Aderiu. Não ficou no comando da tropa porque Mário Lyra foi  o Chefe da Revolução em Garanhuns, além disso, já havia recebido do  General Juarez Távora, ainda na fase preparatória para a eclosão do Movimento, num dos seus encontros, as honras de Capitão.

Nelson Paes - Quando foi instalado o governo municipal revolucionário de Garanhuns e quem assumiu  a prefeitura?

Jayme Luna - Em 6 de outubro de 1930 assumiu a Prefeitura o Sr. Fausto Lemos. Nesse sentido dirigiu Mário Lyra ofício ao Dr. Jônas Costa, Juiz de Direito da Comarca.

Nelson Paes - E como se deu a invasão ao Estado de Alagoas? O deslocamento foi imediato e qual o meio de transporte?

Jayme Luna - Deixamos Garanhuns no dia 9 de outubro, utilizando como transporte caminhões e carros de passeio, requesitados a particulares.

Nelson Paes - Qual foi o local da partida?

Jayme Luna - Depois de feita a explicação aos componentes do Tiro de Guerra 45, presente, que deviamos entrar em  território alagoano, com José Gaspar da Silva, dizendo em voz alta "quem não for covarde dê uma passo à frente" e os atiradores formando pelotões. Fizemos ligeiro desfile pelas ruas centrais, falando na praça Dom Moura Ivo Júnior e Uzzae Canuto. Após essa ligeira pausa, dirigimo-nos ao bairro de Heliópolis, já acompanhados de muita gente. Tomamos os caminhões e automóveis e partimos para atingir a Usina Serra Grande e São José da Lage, ao anoitecer. Nas localidades onde passava a Coluna, Mário Lyra, designava autoridades revolucionárias. Isso ocorreu a 9 de outubro.

Nelson Paes: De quantos homens era o efetivo da tropa?

Jayme Luna - 200 homens, mais ou menos até entrarmos em Maceió.

Nelson Paes - Havia entusiasmo no seio da Coluna?

Jayme Luna - Muito entusiasmo entre quase todos. Um ou outro é que "chiava".

Nelson Paes - Quando invadiram Maceió?

Jayme Luna - Após passar a Coluna por algumas cidades alagoanas, entramos, em Maceió na tarde de 11 de outubro de 1930, sob os aplausos do povo nas ruas que nos ovacionava entusiasticamente  dando vivas à revolução.

Nelson Paes - Houve reação do Governo de Alagoas?

Jayme Luna - Nenhuma reação encontramos. Soubemos que algumas horas antes da nossa chegada, forte contigente da polícia alagoana se encontrava entrincheirado no Tabuleiro dos Martins, periferia de Maceió, mas em virtude de ter o governador deixado o Palácio, o  referido contigente retirou-se imediatamente.

Nelson Paes - É verdade que Mário Lyra transmitiu para o governador um telegrama estratégico, o qual ocasionou a  fuga daquele governante? Lembra-se dos termos do telegrama? Qual a procedência?

Jayme Luna - Não sei se houve telegrama. Mas, da Usina Serra Grande, Mário Lyra falou pelo rádio daquela empresa para Maceió e afirmou que a Coluna marchava em direção daquela capital.

Nelson Paes: E as forças que partiram do Recife para Maceió?

Jayme Luna - Estas só chegaram no dia 13 de outubro, pelas 10 horas da manhã antecipando-se a "Coluna Mário Lyra" em quase dois dias.

Nelson Paes - Como surgiu o nome de "Coluna Louca" e qual a razão?

Jayme Luna - Ao saber, O General Juarez Távora, da façanha da "Coluna Mário Lyra" ao entrar em Maceió com componentes do Tiro de Guerra e outras pessoas que aderiram à causa, achou que havia sido uma loucura e então cognominou-a de COLUNA LOUCA.

Nelson Paes - Qual a média de idade daquele contigente revolucionário?

Jayme Luna - 23 a 24 anos no máximo.

Nelson Paes - Seguiu mais gente de Garanhuns?

Jayme Luna - Houve outras remessas de jovens do Tiro de Guerra 45 quase uma semana, a qual viajou no trem da antiga Great Western, mas grande parte regressou logo a Garanhuns.

Nelson Paes - Quando partiram para a Bahia?

Jayme Luna - Demoramos em Maceió o indispensável para a organização da Coluna com o aumento do efetivo com gente de Alagoas; distribuição de fardamento, calçados, etc. Viajamos no "Comendador Peixoto" em Penedo pelo Rio São Francisco. O navio levava atrelado, dois batelões grandes, sendo um de cada lado, rio acima, mas ao  anoitecer já se avistava as luzes  de Propriá, engalhou em um banco-de-areia. Só às 5 horas da manhã do dia 26 de outubro é que continuamos a viagem utilizando os batelões a vela. Aguardamos um pouco e então tomamos um trem que nos conduziu a Aracaju, onde ficamos aquartelados na Escola Normal Ruy Barbosa.

Nelson Paes - E a outra etapa da viagem?

Jayme Luna - Passamos dois dias em Aracaju e a 28 de outubro, às 18 horas embarcamos num trem de carga, chegando no dia seguinte às 22 horas a Salvador.

Nelson Paes - A viagem tão demorada ofereceu alguma anormalidade?

Jayme Luna - O trem parou inopinadamente à certa altura da viagem. É que um homem a cavalo fazia sinais para o maquinista da composição. Só depois soubemos que o homem veio avisar que ali bem próximo estava dando-se um combate.

Nelson Paes - Ficaram em Salvador por muito tempo?

Jayme Luna - Alguns dias, depois quando Mário Lyra recebeu ordens para deslocar a Coluna até Jequié afim de dar combate aos "jagunços" do chefe sertanejo Horácio Matos. Pouco depois, soube-se que o Cel. Horácio de Matos havia se rendido.

Nelson Paes - Poderia e nisso acreditamos na sua prodigiosa memória, citar nomes de componentes da "Coluna Louca"?

Jayme Luna - Mário Sarmento Pereira de Lyra, advogado Sátiro Ivo Júnior, médico Eurico Pontes de Lyra, 1º Sargento do Exército Amancio Nunes da Silva, sargentos do Destacamento de Garanhuns, Veríssimo e João Ramalho dos Santos, Sargento Instrutor da  Escola Correcional de Menores Epaminondas; soldado corneteiro da mesma.  Escola, cujo nome ignoro, mas tratava-se de um policial militar; Josaphat Pereira, Osmário Sarmento de Pontes, Antonio Sarmento Pontes (Antonio Lyra), Aloisio Gomes Cabral, Antero Wanderley, Lourival Wanderlei (Lourinho), Pedro Firmino, Napoleão Leitão, Jorge Martins, José Belarmino dos Santos (José Belarmino), Jorge de Oliveira Santos (Jorge Preto) Antônio Ramalho dos Santos, Loutival Jatobá, Manoel Vieira dos Anjos, Carlos Tenório Vila Nova, Acácio Luna, Milton Maciel, Adalberto Aragão, Antônio Alves Vilela, Francisco Ferreira Costa (Tico Marinheiro), Laiete Rezende, Isnard Souza, Abel Pantaleão, Arlindo Marques, Julio Costa, Waldemiro Café, José Mota da Silva Rosa, Tirso Ivo, Israel Lyra,  Agenor Morais,  Tiago Veloso, Dermeval Matos dentista Mário Matos, João Leite Cavalcani (Jota Leite), José Paulo de Miranda, Aristóteles Valença,  Francisco de Assis Pessoa, Euclides Mendes, Leopoldo  Leite Cavalcanti, Luiz Pereira Júnior, Hemetério Correia, Carlos Ribeiro da Silva (Carlos Bomba), José Ferreira de Melo (José Carroceria), Olímpio Noronha, João Brasil (João Pirão), Luiz Montanha, Antônio Correia de Melo (Antônio Duque), Hermílio Costa, Renato Lins, José Gaspar da Silva, Julio Cordeiro Wnaderley (Julio Beira Branca), Alfredo Barbosa de Queiroz, Gerson de Souza Lima, Siloé Passos, Artur de Chico Vitor, Milton Vieira, José Torres, Antonio Pereira, João Etisio Pedrosa, Vicente Pinheiro, Oscar Leite Cavalcanti, João Ferreira Caldas (João de Francino), Maurício Amorim, Ozéas Rodrigues da Rocha, José Veríssimo (Douto), José Monte (Zeca Monte), Sebastião Quintino, José Roque, Walter de Melo Morel (Filhinho da Mamãe), Antonio Bastos Carneiro (Carneiro), Josá Matias, Orlando Campos e Outros.

Nelson Paes - Mesmo de longe você tinha notícias de Garanhuns?

Jayme Luna - Em Salvador encontramos Alvaro Brasileiro Tenório, o qual embora tenha trabalhado muito pela revolução, não nos acompanhou na Coluna Mário Lyra, engajou-se com Pedro Frias, João Teles, Nicéas Filho e Cardozinho, sobrinho de Dom Moura, na Coluna Coronel Juracy Magalhães. Pois bem. Alvaro Tenório nos deu notícias das festas passeatas e comícios que eram promovidos por Josemyr Correia e Reinaldo Lins, este intelectual palmarense passando temporada em Garanhuns. Também José Coelho Rodrigues, prestou relevantes serviços a revolução.

Nelson Paes - Quando se deu o regresso a Garanhuns?

Jayme Luna - Embarcamos em Salvador pelo navio "João Alfredo" do Loyd no dia de 10 de novembro e desembarcamos no Recife no dia 12. Do porto rumamos para o centro da cidade e ficamos alojados no Quartel das Cinco Pontas, de  onde saímos no dia 15 de novembro de regresso a Garanhuns, viajamos em trem especial da Great Western. Em Glicério, hoje, Paquevira, uma Comissão composta de pessoas da melhor representação social de nossa terra foi  ao nosso encontro para os cumprimentos em nome da cidade. À chegada do trem tivemos calorosa recepção por parte da população, principalmente dos nosso famíliares.

Nelson Paes - E o que diz você quanto ao comportamento de Mário Lyra como chefe da revolução de 30 em Garanhuns?

Jayme Luna - Mário Lyra teve um excelente comportamento. Sóbrio, probo, inteligente, não permitindo hostilidades aos políticos derrotados. Foi um homem de bem.

Nelson Paes - Quando um radialista faz uma entrevista no final, entrega o microfone ao entrevistado para as considerações finais. Nós estamos entregando a Jayme Luna, uma pena, desculpe uma caneta esferográfica (como tudo mudou); que você diga o que nós não soubemos perguntar, o que faltou nesta entrevista.

Jayme Luna -  Acredito que tudo ou quase tudo foi perguntado no que concerne a participação de Garanhuns através de sua mocidade na revolução de 1930 na qual teve tão destacada atuação. A revolução nos trouxe muitas coisas boas; as legislações trabalhistas e sociais, o voto secreto com extensão às mulheres, etc, mas mesmo assim ainda deixou algo a desejar.
Fonte: Jornal "O Monitor" de 11 de outubro de 1980.

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