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Wednesday, December 23, 2015

OS DISCURSOS DO BARBEIRO EMÍLIO BUCHADA

Antigo Hotel Familiar - Hoje no local funciona a Agência Bancária do Banco  Bradesco centro.








José Rodrigues da Silva


Vindo não sei de onde chegou a esta cidade um barbeiro de Nome Emílio Vieira Brandão. Falando mansinho e fazendo camaradagem com todo mundo, especialmente com os colegas de classe, conseguiu emprego e foi logo popularizando-se. Como era de estatura baixa e barrigudo pegou logo o apelido de Buchada. Não se zangava com quem o tratava assim, mas colocava a mão no ombro da pessoa e dizia: "Olhe, amigo, eu não fui batizado por esse nome, por  favor me chame de Emílio Brandão, faça-me o obséquio"!

Quando já fazia um ano da permanência de Buchada nesta cidade, chegou a época da campanha eleitoral para prefeito e vereadores. Naquele tempo não havia a exigência da fidelidade partidária e qualquer um, desde que fosse eleitor, podia ser candidato por qualquer partido. Emílio saiu candidato a vereador pelo PTB. Esse partido tinha como um dos líderes neste município o pintor de automóveis conhecido por José Brechó. Foi Brechó quem introduziu Emílio no PTB com a finalidade de, por seu intermédio, conseguir os votos dos barbeiros. Naquele tempo havia liberdade de expressão. Tanto nas praças públicas como nas rádios ou por escrito, os candidatos podiam fazer o que quisessem, sem amolação de ninguém.

Como falar do governo é tema rico, os políticos da oposição tiravam-lhe o couro e ficava por isso mesmo. Buchada como candidato, para poder conseguir o apoio da massa, tinha que fazer uso da palavra. Mas, como fazê-lo, se nunca tinha falado em público. No primeiro comício Buchada tomou um "carraspana", temperou a garganta, fez pose de orador e começou assim: "Eu sou candidato da pobreza, especialmente dos meus colegas barbeiros. Se os senhores votarem neu, quando chegar à veriança irei comprar uma cadeira de barbeiro para cortar cabelos e barbas de graça para o povo. Não vai ficar ninguém cabeludo nesta cidade, porque eu aliso todos".

Com este discurso, Buchada conseguiu de logo um grupo de gaiatos para bater palmas e acompanhá-lo durante a campanha. A partir dai, Buchada passou a ser a atração da campanha política. Quando ouvia-se dizer, Buchada vai falar hoje no comício, todo mundo ia ouvir o seu disparatado discurso. Pensando já ter-se tornado um orador famoso, Buchada abriu um comício com a seguinte oração: "Meus senhores e minhas senhoras, vote neu que sou pobre, por aí vem muitos candidatos ricos que não merecem o voto de vocês. Os ricos tem tudo, tem televisão, tem rádio e dorme em colchão de mola. Enquanto isso, eu durmo mais minha veia numa cama de pau duro lá na ponta da rua onde o vento encosta o lixo". Era sempre assim o linguajar do candidato. Mal abria a boca, a multidão estava rindo e os moleques gritando:

Viva Buchada! Viva Buchada!

Quando lhe perguntava como ia a campanha, ele respondia: "Vou ter mais votos para vereador de Garanhuns do que Getúlio Vargas teve para presidente da República. Também eu sou melhor do que Getúlio. Eu sou a salvação do PTB no Brasil, e o Pai da Pobreza".

Quando estava prestes a terminar o prazo para propaganda eleitoral, o delegado de polícia mandou um ultimato: O último dia para realização dos comícios será amanhã, até a meia noite. A partir daquela hora não quero mais um alto falante nas ruas.

Como existiam muitos partidos, cada qual que corressse primeiro para conseguir o local de encerramento na Avenida Santo Antônio. O PTB escolheu a parte superior do bar O Colunata. Às 19 horas do dia do encerramento, os carros de propaganda estavam com seus aparelhos de som ligados e a multidão dançava a famosa Vassourinha. Naquele tempo fazia gosto votar. O povo escolhia livremente os seus candidatos. Às 20 horas, dava-se início a grande concentração. O povo estava ansioso para ouvir Buchada falar. Entretanto, havia recomendação para que os oradores alongassem os discursos para tomar o tempo, a fim de que naquele dia Buchada não fizesse uso da palavra. Afinal de contas, estava na principal avenida, onde, comumente juntam-se os intelectuais da cidade e por certo, o humilde orador iria ferir-lhe os ouvidos atentos as regras de gramática. Quem deu início à concentração foi, o também, candidato José Brechó, que em matéria de orador não ficava muito longe de Buchada. Lá pelas onze, os estudantes gritavam em voz alta:

Buchada! Buchada! Buchada!...

Com esse vozerio o barbeiro mais se empolgava e aguardava ansioso o momento de falar. Foi justamente às 24 horas que o locutor informou: "Vai falar o candidato da pobreza, Emílio Buchada, palmas para ele.

De microfone à mão, com o dedo polegar da mão direita enfiando na algibeira do cós da calça e os cabelos caindo por cima dos olhos, Buchada começou: "Meus amigos e minhas amigas, aqui neste palanque junto com meus correligionários e em cima das autoridades, eu me sinto forte como fosse um elefante". Foi aí, que um estudante gritou do meio da multidão que delirante aplaudia. "Onde está a tromba do elefante Buchada"?

Ele botou a mão em cima de certa parte do corpo e gritou: "A tromba está aqui fio da puta".

Imediatamente tomaram o microfone da mão de Buchada e deram por encerrado o comício.Na apuração eleitoral, Buchada teve 17 votos, e talvez por isto meses depois morreu.
Fonte: Jornal O Monitor- novembro/1980.

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