quarta-feira, 14 de outubro de 2015

GEOLOGIA DE GARANHUNS - PROFESSOR JOÃO DE DEUS DE OLIVEIRA DIAS

Morro da Boa Vista.
Serra dos Garanhuns é, provavelmente, uma ramificação isolada da Cordilheira da Borborema que foi, em épocas remotas, interceptada pela erosão geológica ou pelo diastrofismo da crôsta. Ela tem a aparência das barreiras cenozoicas pliocênicas do litoral pernambucano, devido aos capeamentos de argilas vermelhas e amarelas, com leitos de caolim, que assentam sobre um "substractum" arenito, ferruginoso, grosseiro, pertencente ao  Terciário Superior.

A presença, porém, de um arenito silicioso, leucocrático, dominante, e de camadas argilosas e conglomeráticas, em  sedimentos profundos da receita serra, a classifica melhor como barreira cretácea, mesozoica, secundária, que repousa sobre um profundo horizonte de gnaisse algonquiano.

Este ramo interceptado da Cordilheira se dirige na direção Norte-Sul para Garanhuns, fletindo para Bom Conselho e Águas Belas, indo até a Serra Comunati, que limita pela margem esquerda o vale do rio Panema.

Pela margem direita, a Serra do Buique tem como seu prolongamento natural a Serra de Santa Maria, que se aproxima da  peneplanície de Jatoba de Tacaratu, onde, em Petrolândia, se verifica em grés silicioso finamente granulado, remanescente, que aflora nas serras da margem esquerda do São Francisco, em vastos trechos da planície e, notadamente, na cachoeira de  Itaparica, formando uma zona de contato com o granito porfiroide arqueano, que reveste o leito do grande rio nacional, "O mais brasileiro dos rios", na expressão de Euclides da Cunha, e  se entronca no maciço central denominado complexo brasileiro, por Jonh Casper Branner.

O ramo da Cordilheira, por conseguinte, de que fazem  parte as serras dos Garanhuns, do Bom Conselho, das Águas Belas e do Buique, tudo indica pertencer à Borborema, dada a sua estrutura idêntica: sendimentos de argila cretácea sobre estratos de gnaisse algonquiano - argilas coloridas com as tonalidades do rôxo-terra e amarelo-ocre, superpostas ao arenito e ao gnaisse melanocrático de gran-fina, às vezes com duas micas - a biotita e a muscovita, com ocorrência de anfibolito e feldspatoides como o espodumênio.

A Serra de Tacaratú, porém, e a Serra Negra da Floresta do Navio são ramificações prováveis da Chapada do Araripe, cuja borda, no dizer de Luiz Flôres de Morais Rêgo, procedida de testemunhas isoladas, desenha vasto hemiciclo que acompanha, grosseiramente, a curvatura do São Francisco, para se  aproximar da margem na altura da Cachoeira de Paulo Afonso.

O divisor d'água segue-se, mais ou menos, fazendo com que diminua, progressivamente, a largura do vale do grande rio. Entre o planalto e a margem medeiam caatingas as mais típicas, cortadas por uma rede hidrográfica intermitente.

A estrutura destas últimas serras é diferente, pois apresenta sedimentos profundos de argila cretácea repousando sobre um horizonte muito espesso de arenito leucocrático, silicioso ou  calcáreo, com intercalações de camadas argilosas e conglomerados de mistura, que encerram no seu âmago fósseis de vegetais e animais silicificados e carbonificados, segundo afirmam Avelino Inácio de Oliveira e Othon Henry Leonardos.

Intercalados no arenito, ou logo abaixo, ocorrem estratos de calcáreo antigo, amorfo, pertencente à Série Bambui.

Orville Derby designou ao andar superior de arenito Série Bahia; entretanto, Luciano Jacques de Morais denominou-o Série Jatobá e Luiz Flôres de Morais Rêgo, Série Tacaratú, em virtude da semelhança com a serra do mesmo nome, pertencente a Pernambuco.

A Serra dos Garanhuns encontra-se, por conseguinte, no seu andar superior de gnaisse, ligada à Cordilheira da Borborema, do período algonquiano, proterozoico, e no inferior granítico porfiroide, do período arqueano, ao complexo fundamental a que pertencem as mais antigas formações geológicas do globo terrestre, segundo o eminente geólogo americano Charles Frederick Hartt, ao enquadrar o planalto central brasileiro, do qual faz parte integrante dita Cordilheira, no sistema das Montanhas Rochosas (Rocky Mountains) dos Estados Unidos da América do Norte e do Canadá, e às formações granitoide-gnaissicas da Escandinávia.

Muitos outros geólogos ilustres corroboraram esta classificação de hartt.

A distribuição profusa, disse Luiz Flôres de Morais Rêgo, o metamorfismo granitizante generalizado e mais a semelhança com as formações exóticas apoiam, fortemente, o conceito unânime da idade arqueana para o complexo fundamental, como para as formações congêneres da América do Norte e da Escandinávia. Desde pouco abaixo de Pilão Arcado, o complexo arqueano domina em todo o vale do São Francisco, apenas recoberto no eixo pelas camadas muito recentes. Os gnaisses porfiroides constituem a rocha regional, só muito localmente substituidos por estruturas eroditas da Séria Minas ou pelo andar superior do Arqueozoico.

Orville Derby, em estudos posteriores, chegou também à mesma conclusão de Hartt, no tocante às serras da Mantiqueira e da Canastra.

Ruber van der Linden também esposou a mesma opinião, quando escreveu que "A Serra dos Garanhuns", escádea  minúscula da grande Cordilheira da Borborema, acreditamos pertencer à Série Laurentina, a mais antiga do solo brasileiro, coexistindo, talvez, nas cercanias, vestígios positivos de depósitos huronianos.

Animam-nos este pensar, não documentos paleontológicos, que seriam pouco discutíveis, mas, tão somente observações geognósticas: a comparação dos seus minerais com os descritos por Derby e Hartt, ao  determinaram a idade do maciço da Mantiqueira e da Canastra.

É a Serra dos Garanhuns uma emersão de gnaisse, granitoide na base, surmontada por grezes ou arenitos.

Nos vales, onde a erosão das chuvas desnudaram as camadas de sedimento, são vistos afloramentos de gnaisse, pegmatito e sienito, e nas escarpas da Gruta D'água se observam estratos de grezes compactos, brancos e amarelos. O granito que em parte parece se ter decomposto in situ, acreditamos ser a origem dêsses nódulos da argila branca, finíssima, que aclaram os taludes.

Tudo isso está certo quanto à primitiva efusão de granito gnáissico róseo das camadas mais profundas; quanto à emersão dos estratos superiores de gnaisse profiroide e melanocrático, eles são classificados modernamente, na Série Algomaniana, do Período Algonquiano.

A Séria Algomaniana, dizem Avelino Inácio de Oliveira e Othon Henry Leonardos, é caracterizado por um gnaisse róseo, muito semelhante aos granitos laurentianos. Supõe-se que o magma granítico foi introduzido durante um período de extensa orogenia, chamado de revolução algomaniana, em resultado da qual os sistemas anteriores foram fortemente dobrados. Após êsse diastrofismo, seguiu-se longo período de erosão que peneplainou as primitivas cordilheiras.

Não obstante um século de estudos sistemáticos do Arqueozoico, na América do Norte, até hoje persistem, alí, as mais sérias dúvidas sobre várias séries arqueanas, e bem assim sobre a origem de muitas rochas englobadas no complexo fundamental.

As mesmas indecisões existem nos trabalhos sobre a Arqueozoico escandinávia.
Fonte da Pesquisa: Livro "A Terra dos Garanhuns" do Professor João de Deus de Oliveira Dias - Janeiro de 1954.

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