Tuesday, August 25, 2015

SOBRAÇANDO CADERNOS

Brejo das Flores - Desenho de Marcilio Reinaux.


Marcilio Reinaux


A primeira escola de Garanhuns foi instalada pelos idos de 1820, tendo como professor o advogado Estevão Soares Leitão de Albuquerque, funcionando particularmente. Seguiu-se, cincoenta e tantos anos. Depois a partir de 1878, uma escola que se tornaria importante. A do professor Manoel Clemente da Costa Santos, esta para apenas o sexo masculino. Em 1884 Garanhuns ganhava o concurso de uma professora importante, bem instruída que marcaria papel decisivo na formação cultural de gerações inteiras da cidade no final do século passado e começo deste. Ela veio de Quipapá. Chamava-se Liliosa Silvina de Oliveira e Silva, casada com o Capitão Napoleão Marques Galvão.
Professora Elisa Coelho.

Foi uma mestra excepcional muito dedicada ao magistério, despertando em muitas alunas a vocação para o ensino. Caso bem conhecido em Garanhuns e que continuaria a linha dos ensinamentos da professora Liliosa Silvina, foi o rápido aprendizado pela menina Elisa Coelho. Esta viria a se tornar uma espécie de "patrimônio" da instrução de Garanhuns, pelo muito que fez, lecionando quarenta anos seguidos. Ainda aos 83 anos, pouco antes de falecer, ensinava com dedicação.


Escritor Luis Jardim.
O professor Arthur Brasiliense Maia foi assim, uma espécie de "Nova Fase" do ensino e da instrução na Cidade nas primeiras décadas deste século. Figura importantíssima na responsanilidade da formação de tantos que pelas suas mãos passaram, como foi o caso de Luís Jardim.

Arthur Brasiliense Maia nasceu em 1882, em Gameleira, filho de José Maia e de dona Filomena Tavares de Miranda Maia. Por ela estabelecia-se o vínculo de parentesco com Luis Jardim. Chegou em Garanhuns em 1891, frequentando a Escola Pública Municipal, dirigida pelo professor Manoel Clemente da Costa santos. De inteligência incomum, logo cultivou os estudos e aprendeu rapidamente. Lançou-se como poeta, tornando-se, tempos depois um dos mais respeitados poetas da região. Waldimir Maia Leite, jornalista e garanhuense, lembra sempre em suas crônicas que Arthur Maia é o "Príncipe dos Poetas de Garanhuns". Dele escrevemos candente biografia, publicada em capítulos pelo Jornal "O MONITOR", onde  ressaltamos a vida e obra de um dos homens mais cultos que Garanhuns já conheceu. Estudando durante o dia com o professor Clemente, à noite, Arthur Maia estudava com o professor Dr. Eduardo de Aquino Fonseca, no Externato Aquino. Preparava-se assim duplamente com muita profundidade.
Professor Arthur Maia.

Arthur Maia foi um dos amantes da arte de representar. Essa sua inclinação, contudo não chegou a motivar Luis Jardim que sempre teve outras inclinações, a princípio para a pena do desenho e posteriormente para a pena da Literatura. Arthur Maia criou várias sociedades de arte cênica e de coreografia. Como poeta colaborou na imprensa local em revistas e almanaques, assinando sempre com o pseudônimo de "Lírio do Vale", escondendo-se assim na sua modéstia. Praticamente criado em Garanhuns, amou a Terra de Simôa Gomes e de  Luis Jardim. Fincou as estacas de sua tenda. Esticou as cordas e amarras da sua vida e criou raízes no solo da Terra das Colinas Verdejantes. A maior de todas as poesias, ou poemas, que melhor retratam a imagem de Garanhuns, é de autoria de Arthur Maia. Chama-se "Saudade" (de Garanhuns). Mesmo sem ser poeta, ou declamador, não poucas vezes ainda vivendo em Garanhuns, ou já distante da sua Terra, Luis Jardim, lia e repetia aquele poema de Arthur Maia, seu preferido. Sentia não ser fácil recompor aquilo que estava perdido no tempo. Por viva que seja a memória - sabia Luis Jardim - nem sempre se alcança o verdadeiro sentido das reações a fatos e a sentimentos já mortos. Com o poema "saudade" ali a reativar a memória, essa visão retrospectiva ficava docemente mais fácil, telúrica, tranquila, saudosista em si mesma, por isso triste. 

Diz o poema:



Arthur Brasiliense Maia


Saudade! Brejo das Flores
Quilombo, Várzea, Jardim
Magano dos meus amores,
de olhar fito sempre em mim!

Saudade! Minha alma em pranto
as dores que, em vão chorei,
és a alma triste do canto
que na infância soletrei.

Mundaú, belo e florido
Cego, Araçá, Taquari,
gruta d'agua onde o gemido
triste ouvi do juriti.

Saudade, minha saudade...
Oh! Não me abandones, não!
encenas a imensidade
do meu pobre coração!

Os meus passeios à tarde
pelos sítios, pelo mato,
nessa hora em que o sol não arde,
e doce canta o regato.

Saudade, por que me deixas
sozinho, a chorar em vão?
Sê testemunha das queixas
do meu pobre coração!

Saudade todo esse belo
idolatrado rincão
Saudade, Pau Amarelo!
saudade, meu coração!

Saudade! Esperança morta.
Doce ilusão que morreu
A dor que nos bate à porta
Gemendo: "Alerta sou eu"!

Saudade!... Os restos queridos
De minha Mãe, que aí estão,
No cemitério escondidos,
Sem que eu saiba eles quais são.

Ah! Quantas saudades! Quantas
Nem eu mesma sei dizer...
Saudade!... Serra das Antas...

Por do Sol... tarde a morrer".

Fonte da Pesquisa: Livro "Luis Jardim As Múltiplas Faces do Talento" de Marcilio Reinaux - Garanhuns, fevereiro de 1991.

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