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Tuesday, August 11, 2015

FESTIVAL DE CINEMA DE TRIUNFO: "DESAFIOS E PERSPECTIVAS PARA OS CINEMAS DE RUA"

Seminário “Desafios e perspectivas para os Cinemas de Rua”
aconteceu durante  o Festival de Cinema de Triunfo e contou com a
 participação do secretário estadual Marcelino Granja.
Foto: 
Costa Neto/Secult-PE

Após uma semana de exibições e debates audiovisuais, o Festival de Cinema de Triunfo abriu espaço na programação de seu último dia de atividades, sábado (8), para um debate que mobilizou cineclubistas, realizadores e gestores públicos do estado. O seminário Desafios e perspectivas para os Cinemas de Rua agregou, ainda, pesquisadores e programadores de salas em funcionamento na capital e no interior.

A conversa, que também foi acompanhada pelo secretário estadual de cultura, Marcelino Granja, trouxe à luz a realidade, oportunidades e desafios de espaços como o Cinema Rio Branco (Arcoverde), Cine São José (Afogados da Ingazeira), Cinema da Fundação e Cinema São Luiz, ambos no Recife.

Há 20 anos, Evanildo Mariano é um dos três voluntários que persistem na lida diária para manter aberto e bem ocupado o Cine São José, fundado em 1942 sob o nome ‘Cine Pajeú’. Atualmente, o prédio do cinema pertence à Diocese de Afogados da Ingazeira e é gerido pelos voluntários graças a um termo de comodato. A sala é climatizada e tem 240 lugares. “Exibimos filmes todos os dias, sempre às 20h. Infelizmente, as salas que existiam em cidades vizinhas como Tabira, Sertânia e São José do Egito foram fechadas nos anos 1980, nosso desafio é manter isso vivo, cada vez mais integrado à rotina da cidade”, comentou.

Apresentando o Cine Rio Branco, atualmente sob gerência da Prefeitura de Arcoverde, o programador Glaudemylton Alves destacou que “apesar de promovermos eventos como a Semana do Cinema Pernambucano, hoje a sala sobrevive de cinema comercial”. O Rio Branco foi reformado e hoje, é acessível a pessoas com deficiência e possui 170 lugares. A sala está registrada na Ancine e é grande a integração com a secretaria estadual de assistência social, além de escolas e comunidades rurais da região, que levam, respectivamente, adolescentes em conflito com a lei, estudantes da rede pública e moradores dos distritos para acompanhar as sessões. Apesar disto, Glaudemylton compartilhou a infeliz notícia de que, hoje, a sala está fechada ao público por falta de filmes a serem exibidos. “Nosso desafio urgente é o da digitalização, porque estamos com cada vez mais dificuldade de conseguir filmes em 35mm com as distribuidoras”.

Luiz Joaquim, do Cinema da Fundação, foi taxativo em sua contribuição para o debate: “Não há outro caminho que não seja a atualização do parque de exposição”. Outro ponto interessante abordado pelo programador do moderno cinema, ligado ao Ministério da Educação e em pleno funcionamento na capital pernambucana, foi a escolha dos filmes. “Temos que avançar nesta relação com as distribuidoras porque elas querem programar as salas do Nordeste como fazem no Sul e no Sudeste, precisamos entender a personalidade de cada ambiente, cada cidade e região”, destacou.

Programador do Cinema São Luiz, Geraldo Pinho registrou o longo caminho pelo qual passou o hoje considerado templo do cinema pernambucano até ser tombado e comprado pelo Governo do Estado, em 2008. Atualmente, a sala “passa por intervenções necessárias à instalação do projetor digital e do sistema de som recentemente adquiridos”. Geraldo reforçou a necessidade da sala dialogar com a cidade, ser espaço de convivência, estar atenta ao seu entorno. E apontou, em sua fala, a estratégia da união entre os cinemas de rua: “O caminho é se unir, pensarmos em formato de rede e imaginarmos um circuito de programação que mantenha as especificidades de cada local, mas que atue em parceria e fortaleça até a negociação com as distribuidoras”.

Também convidada a participar do seminário, a arquiteta e pesquisadora Kate Saraiva apresentou na ocasião o resultado de um levantamento que fez sobre os espaços de exibição audiovisual do Recife, desde o início do século 20 até os dias atuais. O livro ‘Cinemas do Recife’ narra detalhes da existência e, infelizmente, do declínio de diversas salas que não resistiram ao desenvolvimento das grandes cadeias exibidoras e da proliferação de salas em shopping centers. Abordou também a mobilização social que existe hoje em defesa de salas que resistem, mas que ainda estão fechadas, como o Cine Olinda.

Contexto globalizado

Em sua fala à plateia, o professor de Cinema na Universidade Federal Fluminense (UFF), João Luiz Vieira, destacou a pertinência global do tema. “O mundo passa por uma franca alteração na forma como as pessoas vivenciam o cinema e é grande o clamor pela digitalização”, declarou.

O pesquisador, que também integra o Movimento CineRua (RJ), trouxe importantes questões para o debate e que, certamente, vão embasar novas discussões e a definição de estratégias a serem adotadas. Temas como a necessidade do programador “identificar os espectadores das salas e contribuir para que o cinema se firme como um espaço de convivência e sociabilidade”; o diálogo com o cineclubismo e a promoção da vivência cinematográfica como uma experiência coletiva; o cinema itinerante e a realização de sessões a céu aberto; a atualização da gestão e da relação com o mercado exibidor; além da adoção de políticas culturais permanentes, que estimulem “a relação do público com as salas, preservando a memória do cinema”.

Com as intervenções da plateia, surgiram novas questões. Como a levantada por Carla Osório, proprietária da distribuidora Livres Filmes: “Fico feliz com todo esse debate, especialmente porque vai ganhando força a necessidade de repensarmos a relação com as distribuidoras, que estão cada vez mais voltados para o ‘cinemão’. Portanto, é importante, sim, digitalizarmos as salas, mas não abrir mão dos projetores de 35mm, isso significaria a existência de salas modernas, mas que não poderiam exibir a grande maioria dos filmes pernambucanos realizados até aqui, por exemplo”.

Já André Vasconcelos, do Cineclube Caretas, preocupado com a sustentabilidade das salas, trouxe para o debate a possibilidade de ações articuladas com o trade turístico nas cidades e o desenvolvimento de práticas de economia e gestão criativas.

As perspectivas

Participando de todas as discussões, o secretário estadual de cultura Marcelino Granja fez questão de destacar, ao final, a alegria pela realização do seminário e tecer considerações acerca do planejamento estadual para o setor. “Este é um tema muito caro para a gestão, tanto que integra o rol de ajustes que precisam ser feitos na política cultural. Queremos pautar na política de desenvolvimento das cidades o eixo central da ocupação de seus espaços culturais, incluindo os cinemas. É uma luta política e ideológica, mas para a qual estamos atentos e empenhados em articular, cada vez mais, propostas de ampliação do acesso à cultura com aquelas que humanizam as nossas cidades”.

O jornalista e pesquisador André Dib, mediador do debate, encerrou as discussões destacando que “prevaleceu a ideia da atuação em rede e da formação de um conjunto de defensores dos cinemas de rua do estado”. Em breve, um documento produzido pelo coletivo será amplamente divulgado e será intensificada uma campanha pelo engajamento de signatários da causa, sejam cineastas, estudiosos, espectadores, gestores ou ativistas culturais.
Fonte: Secretaria de Cultura de Pernambuco
Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco - Fundarpe

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