Thursday, July 30, 2015

O BARBEIRO



Marcílio Reinaux - Garanhuns/abril de 1980

Picando, tricotando
Cortando o cabelo,
Vai o barbeiro fazendo
O saber com pente e tesoura.
Na tijela a água, o pincel
Descabelado e a espuma
Encardida, derramando-se
Pela mesinha velha.

A tolda de trabalho,
Abrigando-lhe a vida e o 
Sol quente; Lá fora o
Vozerio da
Feira de Troca-Troca.
Cigarros mal cheirosos
Poluindo o espaço.
O menino cochilando ao som
Das batidas da tesoura com o
Pente. Espalhado fica, na
Cadeira torta. O cabelo
Vai caindo pelo chão, onde
Modorrento descança um cachorro.

Nos "caminhos de rato"",
da cabeça do menino, o espelho
dos tortuosos caminhos da
Vida do barbeiro. Velho,
Encurvando ao peso da tesouro,
somando-se ao peso dos anos vividos.
Calça carcomida, camisa desbotada.
Dos parcos fregueses, vai
Recebendo das míseras moedas,
Produzidas pela sua profissão,
Fazendo o apurado do dia.

Cusparadas pelo chão,
Inhaca na feira regorgitante.
Apetrechos ridículos e pobres
Compoem suas ferramentas:
A navalha cega, repousando
Na mesinha velha; pincel
Roído, pente desdentado,
Tesoura com trique-trique frouxo.
Tudo isso mescla a vida
Do barbeiro de feira.
No final do trabalho a
Clássica indagação:
"Que arco, tarco, 
ou que que mui?"

Fonte: Livro "Garanhuns a Enevoada Pérola Fugídia", de Marcílio Reinaux.

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