domingo, 12 de julho de 2015

LITERATURA DE CORDEL- FILHOS FORASTEIROS


José de Souza Zumba (Zé Gonçalo)
São João - PE
Contatos: (87) 98134-1208

Papai quando era pequeno
Já pensava em se casar
Pois trabalhava suado
Durante o dia alugado
Na Fazenda Carcará

E quando chegava então
Na casa do fazendeiro
Pegava sua enxada
Que já estava afiada
E trabalhava o dia inteiro

Às vezes sem um chapéu
Prá se amparar do sol quente
De noite estava cansado
Não reclamava o enfado
Era assim diariamente

Depois de dezoito anos
Namorou uma donzela
Então foi fazendo planos
Só depois de quantro anos
Papai se casou com ela

Então mamãe era bela
E papai lhe queria bem
Mamãe lhe dava um abraço
papai esquecia o cansaço
Da lida que todos têm

Depois de dois ou três meses
Mamãe esperava um bebê
papai preocupado
Pois o dinheiro do alugado
Não dava nem prá comer

Quando o menino nasceu
Papai não tinha dinheiro
Com ajuda de alguém
Tudo ali ficava bem
Pra que fazer desespero

Então papai me amava
Por eu ser o filho primeiro
Papai me dava beijinho
Mamãe me dava carinho
A todo instante o tempo inteiro

Por ali  foram nascendo
mais menino e mais menina
Olhe, a família crescia
E papai sempre dizia
Será que eu tô numa mina

Depois a mina faliu
E papai já tava enfadado
Os meninos já crescidos
E papai bem agradecido
Por vê-los todos ao seu lado

Eu vou lhe dizer os nomes
Dos filhos do meu pai
Pode achar que é brincadeira
Mais a história é verdadeira
Quer saber perguntes a pai

O primeiro filho  foi
O poeta de cordel
O segundo foi vaqueiro
O qual ganhou muito dinheiro
E um montão de troféu

O terceiro foi caboclo
Cabra da rede rasgada
Esse foi para o sertão
Lá brigou com um leão
Do qual lhe arrancou a queixada

Nós temos também irmãs
O nome de uma é Galega
Outra se chama Sofia
Tem outra que é Maria
E a outra se chama Nega

Tem uma que o nome dela
Parece que é Maricota
E a outra se chama Rita
Que apesar de ser bonita
Só quer se mostrar de bota

Eu sei que foram bastante
Os filhos de mamãe bela
Aquela mulher distinta
De filhos foi quase trinta
Que papai cuidou com ela

Eu por ser filho também
Da família mais querida
Agradeço ao meu papai
Por ele ser um bom pai
Na longa estrada da vida

Cada filho de papai
Se debandou pelo mundo
Uns foram para Goiás
Outros prá Minas Gerais
E têm outros em Passo Fundo

Temos também outra irmã
Essa é Pernambucana
Um dia vaijou para a Bahia
Lá se casou com um vigia
Naquela terra  bacana

Só sei que ficou papai
Com mamãe no casarão
Hoje procuram uma carta e não tem
E quando o carteiro vem
Nem olha para o portão

A lágrima cai dos seus olhos
Aumentando o seu desgosto
Com saudade dos seus filhos
Da face foge o seu brilho
Desfalecendo seu rosto

Tanto que os pais amam os filhos
E os filhos não amam os pais
Quando os filhos vão embora
Procurando uma melhora
Dão adeus prá nunca mais

Para saber das notícias
Às vezes de algum parente
Ligamos o celular
Eles desligam de lá
Não querem saber da gente

Têm muitos que saem de casa
E quando chegam à cidade
Só querem saber dos nobres
Não querem saber dos pobres
Que vivem em dificuldade

Isso é realidade
Não é de minha invenção
O que eu conto é um fato
O que tem de filho ingrato
É de cortar o coração

Essa foi a história
De mamãe e de papai
E dos filhos forasteiros
Que por amor ao dinheiro
Se esqueceram do amor de mãe e pai.

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