The 3 Week Diet

Sunday, July 26, 2015

FLAGRANTES DO ART DÉCO EM GARANHUNS


Edmilson Vieira é Artista Plástico, e
graduado em Design pela UFPE.
Por Edmilson Vieira  

Falar sobre o Art Déco, é celebrar um tema universal, com embrião na Paris dos anos 20. De perfil "dissidente", o Art Decó seguiu percurso mundo afora e, com graciosidade, alcançou o Nordeste do Brasil.

Trata-se de um estilo inconfundível, mas - pensando bem - por vezes passível de não ser identificado assim tão facilmente. Nesta região, o sol do equador realça a riqueza desse patrimônio, nos legado até a década de 50, quando se observam as manisfestações tardias da linguagem. O estilo, em Pernambuco, reinou nos anos 30 e 40, quando aqui chegou para "incomodar" as linhas neoclássicas e ecléticas de então.

Ao seu tempo, o Art Decó estimulou a criatividade recorrendo a diversos movimentos artísticos: uma multidão de influências e situações das quais se pode até nem ter ouvido falar - como o termo inglês 'streamline' -, tudo em prol do bom funcionamento das construções.

Edmilson Vieira, Fotógrafo Massillon
Falcão e Blogueiro Anchieta Gueiros,
em recente palestra no Instituto Histórico,
Geográfico e Cultural de Garanhuns.
IHGCG.
No que toca às alturas, o Art Decó sobrepõe cubos e quadrados aos edifícios, em posições fenomenalmente escolhidas, da mesma maneira que os maias e os astecas concebiam suas pirâmedes: bases largas e topos reduzidos... para encontrar o céu!

O Art Decó abarca, espontaneamente, arquitetura, cartazes, design de interiores, cinema, moda, decoração, automobilismo, mobiliário e  serralheria, disseminando-se pelo mundo com a ajuda publicitária dos cenários, automóveis e figurinos de Hollywood.

Garanhuns, no interior de Pernambuco - a 230 km do Recife, um pedaço art decó do Brasil, ainda mantém algo desse patrimônio. Em levantamento mais detalhado, o visitante encontra o vigor do estilo em residências, no antigo cinema, em prédios públicos e na rádio local, que podem vir a  se tornar objeto de estudo mais aprofundado. A cidade não chega rivalizar com o Rio de Janeiro, Goiânia ou Miami mas, medidas as distâncias e guardadas as  proporções, nenhum entusiasta do estilo deve ficar alheio ao patrimônio de padrão geométrico que aqui registra.

Exemplificar essa modernidade só reforça o que se apresenta.

Casa de 1936,  propriedade da família Tinoco.

A casa de 1936, nos subúrbios da cidade, é uma amostra de cubismo facetado e atrai olhares curiosos. É visível, nela, a influência do arquiteto norte-americano F. L. Wright. Encomendada ao projetista e construtor autodidata João Francisco dos santos, repousa entre cheios e vazios, equilibrados pela torre abarrotada de linhas escalonadas. O sistema de terraços, no piso superior, está em concordância com os quartos. Múltiplas janelas quebram a fronteira entre o interior da mansão e o jardim.

O design inovador apresenta curvas aerodinâmicas e planos ondulatórios que proporcionam relaxamento aos olhos cansados de um sem-fim de cubos. Observem as pilastras, sem capitel grego, que escondem os condutores disciplinadores das águas pluviais. Mas o que faz a difrença, nesta obra, é o interesse do atual proprietário em restaurar o imóvel, com possibilidades de deixá-lo com a aparência de antigamente, anos 30.

Rádio Jornal de Garanhuns, a primeira do interior, cujo slogan era:
"Pernambuco falando para o mundo".

Continuando nossa  exploração arquitetônica, a próxima parada é na rádio local, um cenário art déco idealizado por F. Pessoa de Queiroz, por curiosidade, sobrinho do ex-Presidente da República Epitácio Pessoa. Foi ele quem ousou construir a primeira rádio do interior do estado. Na  batida aerodinâmica das curvas da edificação, o autor também usou elementos tipo 'escotilha'. Destaca-se, na fachada, a efígie de um índio, atmosfera de influência marajoara. O  mundo da serralheria, o ferro industrializado, é distribuído harmoniosamente por toda a planta, através de desenhos geométricos. De interesse, no interior do prédio, ou mais precisamente, no auditório, encontram-se as paredes decoradas com elementos de pauta musical. Mas no lugar das notas de partitura, saltam aos olhos a flora nordestina esculpida em alto relevo e com traços econômicos, como na  estética de Victor Brecheret.

No centro da cidade, entre  uma bateria de prédios destoados, destaca-se a sede da Prefeitura, um verdadeiro palacete. Rítmica, é bloco sobre bloco, modelo inspirado na  tipologia das construções maias.

Na sede da Prefeitura de Garanhuns, a simetria ordena a composição.

As fachadas, de cor escura, são revestidas com reboco de pó-de-mica ou pó-de-pedra, para conferir autenticidade ao projeto. Sua arquitetura pode ser inscrita no universo art déco, com a  divisão clássica de base, corpo e coroamento escalonado. Os interiores apresentam escadaria em curva e paredes com os mesmos traços paralelos usados na fachada. A edificação foi inaugurada em 8 de junho de 1943, período em que o mundo amargava as tragédias da II Guerra Mundial.
Fonte: Revista Vivercidades nº 26 de 03/2009 - www.vivercidades.org.br

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