quarta-feira, 10 de junho de 2015

GARANHUNS - A FAMÍLIA DA HEROÍNA SIMÔA GOMES DE AZEVEDO

Fonte:  livro "A Terra dos Garanhuns".

Em dezembro de 1693 nascia Simôa Gomes de Azevedo, filha do Cabo Miguel Coelho Gomes com uma índia cariri (Unhanhú).

Este fato era  muito comum no Brasil daquelas épocas, como país primitivo, em começo de colonização, repetiu-se com freqência, de norte a sul, mormente quando na fase de povoamento dos sertões longínquos faltaram quase por completo mulheres de raça branca, encontrando os pioneiros embrutecidos nas selvícolas perfeita correspondência ao seu desejo matrimonial.
Miguel Coelho Gomes  pai de Simôa
Gomes de Azevedo.

A história não registrou o nome da indigena cariri, (Unhanhú), mãe de Simôa Gomes, embora conste da tradição o acontecimento social, pois é evidente que o fato se realizou à luz meridiana dos trópicos "na praia deserta do riacho Paratagi dos campos dos Unhanhú", onde Miguel Coelho Gomes fixou a sua residência, e tomou, mais tarde, o nome patronímico de "Brejo dos Coelhos".
Busto de Simôa Gomes de Azevedo.

O monte ao lado esquerdo do riacho afluente do rio Mundaú, tomou também, o nome de Monte do Miguel, e segundo Alfredo Leite Cavalcanti, pesquisador dos arquivos de Garanhuns, o local onde nasceu Simôa Gomes deve ter ficado no sopé do dito monte, hoje denominado Morro da Boa Vista.

No aprazível "Brejo do Coelho", atual "Brejo das Flores", ficou situado o primeiro curral de gado, núcleo provável daquela primeira fazenda de criação de Garanhuns, que se denominou "Garcia", em memória póstuma, talvez de Garcia d'Ávila, ou em homenagem provavelmente a Garcia Rodrigues Pais, filho do grande bandeirante Fernão Dias Pais Leme, o qual, de 1674 a 1681, varou os sertões de Minas e da Bahia, em procura das esmeraldas descobertas pelo pai e, deixando as cabeceiras do rio das Velhas, e tomou o rumo norte, atingindo do rio São Francisco, como fizeram antes os sertanistas Domingos Jorge Velho e Matias Cardoso de Almeida.

"Brejo das Flôres" antigo "Brejo dos Coelhos".
(Foto: livro "A Terra dos Garanhuns").

Simôa Gomes evoca um misto de lenda e de história, na paisagem histórica e social da Terra dos Garanhuns.

Descendente de velho tronco piratiningano de abencerragens bandeirantes, ela sendo  neta do Mestre de Campo Domingos Jorge Velho, digno êmulo de Fernão Dias Pais Lema e Matias Cardoso de Almeida.

Vista panorâmica do Morro do Miguel ou da Boa Vista. Segundo o pesquisador Alfredo
Leite Cavalcanti, teria sido o local onde nasceu Simôa Gomes, no sopé deste morro.
Hoje o Bairro da Boa Vista.
(Foto: livro "A Terra dos Garanhuns").

Herdeira, em linhagem direta, das características atávicas dos seus ancestrais: do gênio dos íncolas e caráter aventureiro dos sertanistas prêadores de índios, Simôa Gomes encarna o prototipo de mulher pioneira, aliando a coragem e a bravura as qualidades de jovem sonhadora e idealista. Unindo, paradoxalmente, à bondade do coração, a energia e a altivez. Inteligente, não obstante ser analfabeta e ignorante.

A criança brejeira, filha do Cabo Miguel Coelho Gomes, em conúbio com uma indígena cariri, "na praia deserta dos campos dos Unhanhú, transformou-se, do dia para a noite, na dama de alto porte, destemida e impávida, que cavalgava, varonilmente, fogosos corcéis(cavalos) de seu pai ou dos colonos de sua fazenda Garcia, de  pistolas nos coldres à cinta, à moda brasilica setecentista.

Casa velha de taipa onde morou  Agostinho Ferreira de Azevedo.
(Foto:  livro "A Terra dos Garanhuns").

E é este mesmo sentimento confuso, estuante em sua alma, que a suscita, ora a dominar os selvícolas de sua própria raça, como autêntica mameluca no começo da colonização; ora a liberar escravos pretos, mediante alvarás, como aquele de 1726, compulsado por Alfredo Leite Cavalcanti nos arquivos dos Cartórios de Garanhuns, sendo já viúva em plena florescência de sua vida; ora a doar parte do seu patrimônio à Irmandade das Almas, da sua Paróquia de Santo Antônio do Ararobá, num gesto acendrado de misticismo, em 15 de maio de 1756, ma muturidade.

Nascida no fim do século XVII, em dezembro de 1693, no desabrochar de sua adolescência, era já mãe de Valério Ferreira de Azevedo e Bertoleza Ferreira, filhos legítimos do Coronel Manuel Ferreira de Azevedo, a ela unido matrimonialmente, segundo consta do inventário dos seus bens, logo após o seu falecimento, em 1726, e da escritura de doação feita pela mesma, de parte da fazenda Garcia, em 1756.

A última notícia que se possui da pioneira é desta data, parecendo provável que não chegou a presenciar as núpcias do seu filho varão com Águeda Maria e, muito menos, estreitar ao colo os seus netos: Francisca, Antônio, Maria da Luz e Manuel Ferreira de Azevedo.

É justamente deste último, casado com sua prima legítima Maria de Jesus da Silva, que procede Luiz Ferreira de Azevedo, pró-homem de Garanhuns, grande patriarca com uma prole de dezoito filhos, troncos de inúmeras famílias antigas do município.

O primogênito Agostinho Ferreira de Azevedo, residiu na casa de taipa e telhas, que existiu na antiga Praça Rio Branco, segundo afirmou Sales Vila Nova. Simôa Gomes de Azevedo faleceu em 1763.
(Fonte da Pesquisa: Livro "A Terra dos Garanhuns", do professor João de Deus de Oliveira Dias, ano de 1954).

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