Saturday, April 4, 2015

RUBER VAN DER LINDEN E O TENENTE MANDÚ.

Professor Ruber van der Linden e alunos do Colégio XV de Novembro,
década de 40.

Ruber van der Linden foi uma das maiores culturas de Garanhuns.
Engenheiro Eletricista, Jornalista, Pintor e Poeta de enorme talento. A sua mais importante tarefa foi a de gerente do Serviço de Água e Luz de Garanhuns. A mais importante obra foi a construção do Parque que hoje tem o seu nome. Mas apesar de extremamente culto, foi também um homem de temperamento forte.

Em pé da esquerda para direita: Antonio Vicente, Moisés (Chefe da Estação Ferroviária),
Manoel Souto, Tenente Mandú, Roboão (Oficial de Justiça).
Sentados: Santino José de Oliveira, Dr. Osório Souto e José Rocha.


O Tenente Mandú não tinha cultura nem profissão definida. Não era de Garanhuns, e quando aqui chegou foi trabalhar nos armazéns de Pinto Alves, sendo demitido, por haver praticado crime de lesão corporal num colega de trabalho.


Desempregado foi convidado por comerciantes desta praça, para fazer cobrança de conta alheia, ganhando uma porcentagem da conta recebida. Quando o devedor não pagava, o Tenente dizia:
- Pague a minha comissão, e o resto pague quando puder.


Era boêmio por natureza. Usava um terno branco com sapatos pretos caprichosamente engraxados. Não se apartava de um cravo vermelho na lapela do paletó. Não se separava de um bolsa preta, onde conduzia documentos e dinheiro recebido. Nos dias santos e feriados, juntava-se com os violinistas Manoel do Sargento, Euclides Pernambuco, Albino Gueiros, Pedro Pixumba, Manoel Bacha e Luiz Montanha. Acompanhava-se, também com Lupita, excelente cantor, e Libório Fogueteiro.

Agamenon Magalhães foi Governador de Pernambuco entre 1937/1945 - Interventor, e entre 1951/1952 sendo eleito  e falecendo durante o mandato.

Os lugares procurados para farras eram o café de Antônio Mitia, e casas na periferia da cidade. Mandú era um exímio tomador de cervejas, desde que fossem pagas pelos colegas de farras. Ele nunca pagou para ninguém.

Tenente Mandú residia na Rua de São Vicente, era solteiro, mas tinha em sua companhia uma senhora, que dizia ser sua filha. Um certo dia, o Tenente foi surpreendido pela incômoda visita de um soldado de polícia, que lhe entregara uma intimação para comparecer à presença do delegado.
- Intimado por que perguntava a si mesmo?

O motivo do chamamento, prendia-se ao fato de, no dia anterior, o Tenente Mandú ter ido ao escritório do Dr. Ruber reclamar um aumento exagerado na conta de luz. Fato este, do qual não estava lembrado.

- Bom dia Dr. Ruber!

- Quero falar com o senhor sobre a conta da luz da minha casa, que está exagerada.

Dr. Ruber levantou a cabeça olhou para o Tenente e como se ninguém houvesse falado, baixou as vistas e continuou escrevendo. Duas horas mais tarde, não obtendo a atenção do gerente tornou a chamar:

Dr. Ruber, quero falar com o senhor sobre a conta de luz. A resposta foi a mesma, o silêncio sepulcral do gerente.

O Tenente Mandú já desesperado bateu com a mão em cima do balcão do escritório e fazendo gestos ameaçadores, disse:

- Tem nada não, Dr. Ruber, logo acertaremos as contas.

Isto bastou para que no dia seguinte o Dr. Ruber fosse ao Palácio do Governo pedir garantia de vida ao Governador Agamenon Magalhães sob a alegação de que estava sendo ameaçado pelo Tenente Mandú.

Ciente do acontecimento, Agamenon, homem seco como as terras esturricadas de Serra Talhada ordenou ao Delegado encaminhar o intimado à presença do Governador, previnindo, que se não fosse seria preso a qualquer momento. Pensando que teria sido chamado pelo Governador para assumir um cargo importante, o Tenente vestiu o costumeiro terno branco, caprichosamente engomado, colocou um cravo vermelho na lapela do paletó; e, no trem das oito horas seguiu em direção ao Palácio das Princesas, solicitando ordem para falar com o Governador.

- Bons dias, Senhor Governador, aqui estou, a convite de V. Excelência.

Agamenon levantou a cabeça e com os olhos arregalados óculos na ponta do nariz, perguntou:

- Quem é você de onde vem?

- Venho de Garanhuns, eu sou o Tenente Mandú.

- Já sei, você é o cabra safado, sem vergonha que ameaçou de morte o meu amigo Ruber van der Linden; seu vagabundo. Não sei onde estou, que não lhe mando para o Brasil Novo. Lá você vai comer bacalhau com água de sal para o resto da vida.

- Mas Doutor...

- Doutor o que, safado velho. Você ameaça de morte o meu empregado, e ainda quer se desculpar, seu bandido.
A cara feia de Agamenon fez uma pausa e perguntou:

- Você já almoçou, safado velho?

- Não senhor, nada comi até agora.

Esperava almoçar com V. Excelência, mas, pelo andar da carroagem, a coisa está feia.
Agamenon tocou novamente a campainha e ordenou ao oficial:

- Leve esse safado a um hotel, e dê-lhe comida.

Traga-o depois que eu quero manda-lo para o Brasil Novo para ele comer bacalhau com água de sal e aprender tratar bem os meus amigos. O Tenente Mandu disse a si mesmo:

- Nunca mais voltarei a Garanhuns para tomar cerveja com meus amigos. O China Gordo vai mandar matar-me. A culpa é do Dr. Ruber van der Linden.

As cinco horas da tarde daquele dia macabro, o Governador olhou para mim e perguntou:

- Você tem o dinheiro da passagem de volta para Garanhuns?

- Tenho não, Doutor, mas se V. Excelência deixar eu vou até a pé.

- O Governador, ordenou dê uma passagem a esse velho safado, e concluiu.

- Saia por aquele porta imediatamente.

Feliz da vida, Mandú como se tivesse saído em direção ao céu abriu a porta de duas bandas, e quando ia saindo, ouviu a voz de Agamenon que dizia:

- Volte aqui, safado velho.

- Morri de medo, e quando entrei novamente no gabinete, o interventor repetiu:

- Se ameaçar, novamente o Dr. Ruber, mando você para o Brasil Novo e lá você vai comer bacalhau com água de sal pelo resto da vida.

Sai vendendo azeite ás canada em direção a minha Terra para beber cervejas com meus amigos; e, nunca mais olhei para Ruber van der Linden.

No comments:

Post a Comment