Thursday, March 12, 2015

COLCHAS DE RETALHO


Foto do Acervo de Givaldo dos Santos (Negô Pai).

Nelson Paes Macêdo  - 28/08/1976


Leitor amigo esta "colcha", não foi feita para agasalhar o teu corpo. Ela é uma confecção modesta, onde usamos os mais variados retalhos da vida, uns simples, outros coloridos, na tentativa de cobrir de lembranças e de saudade a tua alma, nesta talvez noite ou dia em que através  destes "retalhos", estás coberto com o despertar de coisas há muito tempo arquivadas na tua memória, ou guardadas no almoxarifado da tua vida.

Garanhuns - Década de 20
- Seu César, usava boné. Olhava nas lentes grossas dos seus óculos alguma coisa lá longe, no horizonte muito distante.

- Raul Pantaleão, sentado, na mesma posição da estátua de Buda, permanecia longas horas esperando que alguém viesse comprar um ataúde da sua casa funerária.

Garanhuns - Década de 20

- Paulo, (filho de Raul), ao seu lado, nada satisfeito: "Não morre ninguém... tá é ruim pra pai ganhar dinheiro... logo hoje, que eu queria ir ao cinema".

- O velho Barreto era o melhor sapateiro de Garanhuns, dava vida nova aos sapatos velhos.

Elpídio Branco - 1962.
- Zé Amorim achava que não. Ele, também era sapateiro e dizia que trabalhava com mais perfeição.

- A barbearia de seu Belarmino estava sempre repleta de fregueses, ou outras pessoas, que ao chegarem faziam a clássica pergunta: "Quais são as novidades?".

- O Café Glória, com suas quarenta mesinhas redondas, de mármore, todos os dias com uma roupagem nova, uma toalha de cor diferente da anterior, e um jarro com flores naturais. Era o ponto de encontro da cidade.

- No Café Central, reuniam-se os correligionários do finado PSD. O Ex-deputado Elpídio Branco estava lá mastigando seu charuto.
Arco do Triunfo.

- Os udenistas(UDN) dos lenços brancos do Brigadeiro Eduardo Gomes, conversavam na calçada do "IRIS".

- Seu Santino era o porteiro do Cinema Glória. Vestido de branco, gravatinha borboleta, as mãos cruzadas em cima da barriga volumosa. Não gostava de conversar. Os olhos quase fechados, ele parecia uma estátua em homenagem ao sono, porém, sem alguém badernava, bagunçava ou anarquizava no salão de projeção, ele acendia a luz, localizava o "decente", e o "cortava" por seis meses.

- Os burros da Serra Branca, carregavam quatro ancoretas cheias do precioso líquido, que é a água mineral daquela fonte.
Burrico distribuidor da
Água Serra Branca.

- Os jumentos que faziam o mesmo trabalho, transportando a água da Vila Maria, carregavam quatro latas de querosene, cheias daquela boa água, que eram entregues nas casas que  davam preferência a "da Vila de seu Thomás Maia".

- Professor Miguel, na sua escola da rua das Correntes, tinha na parede uma palmatória fantasma que amedrontava os seus alunos. Mês de Janeiro - Festa da Boa Vista. Procissão de São sebastião. À frente, logo atrás do padre, professor Miguel. Os olhos quase fechados; mão postas, passo cadenciado.

- Na escola de Dona Nanoca o efe era fê, o gê era guê; o eme era mê; o ene era nê; o ele era lê, tudo como no baião de Luiz Gonzaga. Os seus alunos cantando numa só voz: "Paulina mastigava pimenta".

Parque Euclides Dourado

- A voz grave do Ivo de Souza, anunciando: "Pernambuco falando para o Nordeste".

- Hemetério discutindo e explicando porque o Santa Cruz, perdeu o campeonato.

- Zé Catão aproveitando o carnaval, para exteriorizar as suas críticas maliciosas.


- Zacarias "Navalha-fidalga", era um barbeiro que morava lá na Boa Vista, onde tinha o seu salão. Partidário do Integralismo. Usava roupa branca e chapéu de palhinha. Quando encontrava Manoel Cordeiro "Mestre Yo Yô", levantava o braço direito, fazia a saudação pliniana, e com a voz sibilando nos "esses", vai a nossa Pátria, Mestre?

- Quarta-feira de Trevas. A feira grande da  Boa Vista.
Ivo de Souza - Foto do Acervo de João Quirino dos Santos

- A fofoca política na Farmácia Osvaldo Cruz, de seu Durval e Péricles Santos.

- O passeio aos domingos no Parque dos Eucaliptos.

- "Seu Piano" toda noite ia conversar com Chico Vitor. Ouvia calado aquelas estórias sensacionais, de capitães de navios de caçadas e malassombro. Só se limitava a dizer: "É verdade... é verdade".

- Dona Joaninha, a mulher de Chico Vitor, era intrigada de Dona Chiquinha de Joaquim Amaro. Moravam na Rua Dom José. As suas casas ficavam em frente uma da outra. De manhã, Dona Joaninha abria a janela, avistava Dona Chiquinha, se benzia e explodia: "Diabo te carregue Chica Pinote". Dona Chiquinha fechava a janela. Aquilo era um ritual tão certo, como a mudança da guarda do palácio do rei da Inglaterra.

- A feira de animais. Cavalos e burros à sombra do "Pau da Mentira", lá no começo da Rua Jatobá.

- O Arco do Triunfo (ao lado do antigo Bradesco), mandado construir em homenagem a vitória dos aliados na primeira grande guerra.

- Seu Thomás Maia entrava no cinema, perguntava se estava na hora dos calunguinhas. Assistia o desenho animado e ia embora.
Thomás Maia

- Garibaldi que tinha o nome de herói dos dois mundos. Não lhe chamavam com a  pronúncia certa. Era o "Guaribado". Tocava trombone na banda de música, e, dizia que sem ele a banda não tinha harmonia.

- O primeiro aparelho de televisão na vitrine de Ferreira Costa. Não havia repetidora. O som era ruim a imagem quase não era vista. Mesmo assim, a calçada ficava cheia de curiosos telespectadores.
(Fonte da pesquisa: Jornal "O Monitor").

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