Thursday, February 26, 2015

DANÇAVA A PAPOULA NEGRA DE PRESTES. OS PATRIOTAS URRAVAM

Ronildo Maia Leite nasceu em Garanhuns a  30 de outubro de 1930. Estreou no jornalismo aos 13 de anos de idade, em Garanhuns, sua cidade natal, no extinto "Garanhuns Jornal". Em 1951, ingressou no Jornal Pequeno, do Recife, de onde saiu, em 1955, para o Diario de Pernambuco. Formado pela primeira turma de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco.
Faleceu em 05 de julho de 2009.

Crônica de Ronildo Maia leite  - 20.05.1990


Mais do que uma vocação, o jornalismo está em mim como se uma fatalidade fosse. Igualmente fatais deveriam ser também prováveis posições à esquerda que me acompanham desde a juventude, por sinal em nada promissora.

Nascemos, também eu e o Waldimir, num casarão de alpendre e jardim, parede-meia, quase, com uma tipografia. À luz do mundo rebentamos, pois, em cima de caixetas de tipo. Embrulhados em cueiros de papel jornal, se da imagem não estou abusando.

Aos dez, na tinta já se melavam os magros dedos. Aos doze, edição extra do “Garanhuns Diário” anunciando o fim da guerra. Artigos de um quase horror aos integralistas e de um amor de grave paixão pelos Aliados. Foi quando o outro Maia Leite me levou a Natalício Alencar, um sargento comunista baseado no 21º Batalhão de Caçadores, guardião avançado da democracia do Agreste. Foi a minha desgraça. Aos quinze, sem bulhufas entender, li o “ABC do comunismo”, de Bukarim. Fiquei viciado.

Para mim, a tipografia virou sala, cozinha e quarto, um vasto salão de homens anarquistas. Era um magote só, de comunistas e maçons, aquele jornalzinho pretensioso. Todos da mesma família Silva Rego, desde o coronel Bimbe Tororó ao jornalista Dario Rego, safadão dos dois lados, pois além de esquerdista, era raparigueiro e maçon de capa e espada.

Na oficina, um operário negro, corpulento, muito alto, largo beiço vermelho quase a pendurar-se no queixo, coxas roliças, traseira arrebitada como somente deveria ser a bunda das mulatas. Um cão, esse negro, diriam os seminaristas enrustidos e de Lucifer o apelidariam as noviças. Discutia Marx como gente branca, mas tinha posições ainda hoje inconciliáveis para o partido. Absolutamente comunista e rigorosamente pederasta.

No dia em que os alemães perderam a guerra, o negão desmunhecou, tão mulher e tão linda, que a Internacional cantou aos requebros. Depois, vestiu um blusão de crepe azul-calcinha, varou a madrugada de festa dançando e fazendo amor com os democratas. Arrasou, a papoula negra de Prestes. Os patriotas urravam.

Deixa de dar ou desce. Ele desceu. E com tal desprezo e tédio  e desencanto que nem pro sargento Alencar ele espiava mais. Ao verde, em vez de vermelho, quis entregar talento e denguice. Azar. Nessa época, também os integralistas estavam expulsando os seus, pois ninguém é de ferro. Antes de morrer, faz pouco tempo, tentou ingressar num movimento feminista. Azar de novo. A líder, mulherão alourada, se apaixonou pela mulata grandona que trouxera de Garanhuns como alcoviteira de comícios.
Morreu, o negão, há quem afirme, dando vivas a Hitler e a Marx, na grande indefinição entre céu e inferno.
(Fonte da Pesquisa: Leite, Ronildo Maia
Livro "A Guerrilheira Perfumada" - Crônicas do amor diário/
Ronildo Maia Leite/Recife. 1990)

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