terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A GRANDE FEIRA DE GARANHUNS CEM ANOS ATRÁS



Por Serapião Cavalcanti Albuquerque


A grande feira de Garanhuns(foto) era realizada às sextas-feiras e sábados. Era uma tradição do município, e os seus filhos zelavam pela continuação dessa maravilhosa feira livre, apresentando variadíssimos aspectos, com os desafios de cantadores, debaixo das árvores, o que mais agradava aos veranistas de Maceió e Recife, como um espetáculo original.

Desde a quinta-feira começavam os feirantes armar as suas barracas de madeira e toldas. As primeiras tinham até prateleiras e divisões de cortinas, servindo para exposição de fazendas, roupas feitas, bijuterias, louças e artefatos de couro. Encontravam-se desde roupas feitas, bijuterias, louças e artefatos de couro de farinha com pólvora, a fazenda mais em uso no sertão, de caroás, ou mesmo de linho branco, verdadeiro, inglês procedente do Pará, até casimira grossa trazida por embarcadiço do Recife. Ferragens e louças.

As roupas de vaqueiro: gibão, calças, peito, luvas, chapéus e sapatos próprios para a caatinga espinhenta. Muitas rendeiras trabalhando e vendendo.

As toldas eram feitas com armação simples de madeira, em cruz, e cobertas com encerados grossos, pintados em várias cores, o que dava um cunho original à feira. Estas serviam para a venda de carnes do sertão, de carneiro, de bode, de porco e de caças; doces regionais, refrescos, requeijões, queijos de mochila, de coalho e de manteiga; mel de uruçu e garrafas de manteiga de gado.

As toldas ficavam de um lado e as barracas de madeira do outro, em fila, desde o começo até o fim da Avenida Santo Antônio. Encontrava-se também mungunzá e canjica; pamonhas e cuscuz; rapaduras e batidas. A feira era dividida em vários setores distintos: o de farinha, do feijão, do milho, do arroz; das rapaduras e queijos; o das massas: goma, massa puba, massa de mandioca, fubás e milho ralado para xerém, para cuscuz, para mingaus, e ainda o setor de frutas, o mais sortido.

E não poderíamos esquecer as várias espécies de beijus e tapiocas; dos pés-de-moleque, cuscuz de milho branco banhados no leite de côco, que enfeitavam as calçadas da Farmácia Morais até a Casa do Coelho. As pamonhas alfinins alvíssimas, de que tanto as crianças gostavam e serviam também para enfeitar os móveis dos quartos de noivos ingênuos, nas noites de núpcias...

A feira de cavalos tinha um cunho especial. Era realizada junto ao Pau-da-mentira, na Praça Jardim. Coisa muito divertida. Ali se podia ouvir as maiores mentiras do mundo, embora inofensivas. Ouviam-se os mais interessantes provérbios da filosofia matuta e os protestos dos compradores de animais tidos como valentões, desmascarando os vendedores sabidos, cujas mentiras eram maiores que os rabos dos cavalos que vendiam.

Havia especialistas em vendas, como também animais com cores estranhas, com ferros desconhecidos na redondeza e com cabrestos sobressalentes... Era gente de fora.

Até repentistas contratados para distrair o freguês se via então. Junto à árvore injustamente caluniada(pau-da-mentira) havia de tudo: Dez para embrulhar um, e até um que embrulhava dez. Às vezes saía acolá um fuzuê dos diabos, ou uma grande mangação.
Junto às capoeiras de galinhas, patos e perus, se aboletavam os mendigos, porque era ponto certo das "Senhoras Donas", ou ficavam nas calçadas do Paço Municipal. Eles representavam um quadro de profunda tristeza e de piedade, principalmente os cegos. Pois, como um costume sertanejo, eles pediam esmola cantando, em rimas magoadas, com versos muitas vezes improvisados, com auxílio do guia, com informações precisas sobre o freguês. O guia soprava o tipo, a idade, o sexo, a cor da roupa e até a profissão. Os cegos sobressaíam nos cantochões plangentes, tendo as suas cantorias um ritmo triste e acentuado:

Meu irmão, me dê uma esmola,
que lhe peço por amor,
E pela luz dos seus olhos
Que a minha já se acabou.

Enquanto um outro cego, mais adiante, cantava:

Perdi a luz dos meus olhos,
Perdi todo o cabedá...
Deus lhe livre desta sina,
Já que eu não posso livrá.

Mais alguns passos, podia-se ouvir a resignação de um cego nas suas lamúrias:

Eu peço é por caridade,
Cristão, filho de Maria,
Se eu tivesse a minha vista,
Trabalhava e não pedia.

As louvações eram então caprichadas.
Tinha também os versos tristes do ceguinho do Mundaú:

Nossa Senhora lhe pague,
Jesus lhe queira valer
Da tentação do Maldito
Quando for pra vós morrer.

Alguns, conhecendo bem a alma sertaneja, colocavam à frente, em banquinhos pintados de novo, um registro de Santo da sua devoção. E Serapião como bom sertanejo, comparecia sempre, ganhando às vezes uma sextilha ou martelo dos mendigos cantadores. Guardou na memória estes versos de sabor amargo, mas que revelam a gratidão de um cego, soprado pelo guia:

Seu moço, Seu Sacristão,
Que Deus dê o dobro
Que me tá dando.
Não tou vendo. O coração
Que tá dizendo,
E tá desejando,
Senhor Serapião.
Muitos outros que faziam
grandes lamúrias
Meu irmão, me dê uma esmola,
Pro bem da sua famía.
No Reino da Glória Eterna
lhe pague a Virge Maria.

E finaliza Serapião a recordação da grande feira da sua terra: ali era sentida, funda, no coração da gente sertaneja, esta verdade: Cantiga de cego é sempre penosa.

(Serapião Cavalcanti Albuquerque, trabalhou por mais de dez anos como Sacristão da Matriz de Santo Antônio, no início do século passado, presenciando também a Hecatombe de Garanhuns em 1917).

Nenhum comentário:

Postar um comentário