sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

TERRAS DA MOCHILA EM GARANHUNS - O BERÇO DA FAMÍLIA MOCHILEIRA



 "Estes mochileiros, são ligados por laços familiares desde a fundação de Garanhuns, pela mameluca Simôa Gomes de Azevedo. Ei-los: Azevedos, Soutos, Vaz da Costa, Gueiros, Brancos, Jardins, Ferreiras, Rodrigues, Herculanos, Neves, Dantas, Vilelas, Burgos, Moraes, Rocha, Godois, Carvalhos, Machados, Teles, Furtados, Vanderleis, Cesários, Vandeiras, Correias, Dias, Maltas, Barbosas, Araujos, Pais, Pais de Liras, Noronhas, Macedos, Melos, Medeiros, Barros, Teixeiras, Batistas e Barretos. Eis ai o Império sem imperador da grande família mochileira". Trecho de um pronunciamento do Jornalista Ulisses Peixoto Pinto Filho(foto) de saudosa memória, na Câmara Municipal de Garanhuns, em 29/08/1986 em comemoração ao Centenário de Nascimento do Sr. Antônio da Silva Souto Filho (Soutinho).




Por David Gueiros Vieira


Bem perto de Garanhuns, a uns 20 quilômetros, ao longo da estrada asfaltada Garanhuns-Brejão, fica a propriedade chamada mochila. Hoje a mesma se encontra dividida em pequenas fazendas, onde ainda se plantam café, verduras e outros produtos agrícolas. Foi ali onde se estabeleceram Micael de Amorim Souto e Maria Paes Cabral, em 1717. Há mais de 70 anos eu estivera na Mochila, visitando parentes, mas era por demais criança para compreender do que se tratava.


Por essa razão, e com a finalidade de melhor descrever a Mochila, neste trabalho, empreendi uma viagem até lá, tendo como cicerones Tito Paes Cavalcanti – mochileiro da gema, nascido e criado naquelas terras – e o juiz Francisco de Carvalho Silva Gueiros, de Garanhuns, também conhecedor do lugar. Fomos levados até aquela propriedade no automóvel de Daniel de Amorim Gueiros, filho de Ebenezer Furtado Gueiros.


Antiga casa de Micael de Amorim Souto, Mochila, Outubro de 1993.

Constatei que as antigas terras do Saco e da Mochila estão localizadas entre duas montanhas – designadas localmente como Mochila de Baixo e Mochila de Cima. As terras mais férteis dessa antiga propriedade estão localizadas no vale entre essas duas elevações. Esse vale começa em um vasto caldeirão, em forma de “U”, no centro do qual há uma fonte d’água, saindo da encosta da montanha.


Vista da Mochila de Cima do Caldeirão - outubro de 2003

Essa fonte é a nascente de um riacho, chamado, evidentemente, Riacho da Mochila. Ao passo que esse filão de água escoa vale a baixo, vai sendo alimentado por várias outras fontes, e mudando de nome ao longo do seu percurso, passando a ser chamado Riacho da Laje, depois Riacho do Saco e, vários quilômetros mais adiante passa a ser denominado Riacho do Torado. Esse filão é permanente, não faltando água durante todo o ano, nem mesmo nos períodos de seca. Vários pequenos açudes foram construídos, ao longo do seu curso, para irrigação, de modo que o vale é fértil o ano todo, com água em abundância.


Linha divisória entre a Mochila (esquerdo) e o Saco (direita) - 1999

Os primeiros desses açudes, ainda dentro do mencionado caldeirão em forma de “U”, são grandes tanques para criação de peixe. Não é de admirar que o velho Micael de Amorim Soutro tenha se esforçado tanto para adquirir toda essa propriedade para si mesmo. Tanta fartura de água é coisa rara no Nordeste, mesmo nesta região da Serra da Borborema.


Eraldo Gueiros  Leite  na época  Governador de Pernambuco com David Gueiros, em frente
ao hotel, em Nova Iorque em 1972.

O vale da mochila vai se alargando e formando como que um grande leque, em direção da cidade de Brejão, passando a ser denominado mais adiante como Baixa da Lama, área esta já fora do perímetro da propriedade original. Do alto da confluência das mencionadas montanhas – Mochila de Cima e Mochila de Baixo – pode-se vislumbrar todo o vale,muito verde e de aparência muito agradável, que vai até aonde os olhos alcançam.


Grande Mochileiro José Inácio Rodrigues o "Zé do Povo" de saudosa memória.  Radialista
e Prefeito de Garanhuns entre 1983 e 1988.

"Nasceste entre belas colinas, ludicamente, vive a cidade colossal Boa Vista, Magano altaneiro! São José, o Majestoso Arraial, onde Euclides e Pipe Dourado, Anteviram nossa aurora boreal. Cidade dos meus ancestrais. Berço e casulo dos mochileiros! Garanhuns, mãe dos meus filhos, Terra dos Meus sonhos primeiros" - José Inácio Rodrigues.

O mencionado caldeirão, formado naquele lugar, onde nasce o Riacho da Mochila, fica imediatamente abaixo daquele ponto de observação, nas profundezas de um despenhadeiro de quase duas centenas de metros.
Seguindo uma estrada de terra batida, acompanhando o riacho por vários quilômetros, bem mais adiante encontramos a linha divisória entre o Saco e a Mochila. A propriedade toda, quando comprada em 1717, tinha o nome de “Saci”. Porém, tendo em meta evitar problemas de terras com seu sócio, Micael Souto mandou desbastar e “salgar” uma grande faixa de mais de cem metros de largura, desde a Mochila de Cima até a Mochila de Baixo. Essa faixa, totalmente estéril, serviu como indelével linha divisória dentre as duas propriedades. Não sei que tipo de “sal” foi esse utilizado por Micael, pois quase trezentos anos mais tarde essa faixa de terra ainda é estéril, não crescendo nela “nem capim nem mato”, assim fui informado.


Foto do dia 4 de agosto de 2003. O Economista Rubens Vaz da Costa recebeu a medalha Luiz Souto Dourado,
outorgada, pela Câmara Municipal de Garanhuns. Este cidadão ilustre de Garanhuns (distrito de Miracica)  alcançou, no cenário nacional, 
os mais importantes cargos que um garanhuense já conseguiu. Ex-aluno do Colégio Diocesano de Garanhuns, Rubens
Vaz da Costa, no centro da foto, foi Presidente do Banco do Nordeste, Banco Nacional da Habitação, Superintendente
da Sudene, Secretário no Governo de São Paulo. Foto tirada na noite da homenagem da Câmara d Municipal de
Garanhuns, foi especialmente feita para retratar três Mochileiros juntos, ficando  à esquerda do homenageado o
Sr. Márcio Quirino e a direita o Presidente da Academia de Letras de Garanhuns, João Marques dos Santos.
Foto: Jornal "O Século" agosto/2003.

A parte das terras a montante do riacho foi a que Micael Souto escolheu para si, dando-lhe o nome de Mochila, diferenciando-a assim do restante da outra propriedade, ainda hoje denominada Saco. Sem dúvida uma indicação de que ele pelo menos tinha um bom senso de humor.

A dimensão original das terras assim me informou Tito Cavalcanti, era de quatro mil quadras: duas mil do Saco e duas mil da Mochila. “Quadra” é uma medida antiga, equivalente a 12.500 m². Assim, cada propriedade tinha 25 quilômetros quadrados.


Neste livro, o professor David Gueiros Vieira traça a história da família Gueiros, desde suas raízes coloniais
até o presente momento, mostrando como esta família participou de alguns eventos cruciais da história do
Brasil. De  bárbaros colonizadores, transformaram-se em evangelizadores e profissionais liberais, tendo
suas atividades se expandindo por todo o Brasil e por outros países.

Visitamos um pequeno cemitério, localizado no vale, mas este parece ter sido de uma só família de portugueses, pois há nele apenas dois grandes mausoléus, com placas de mármore, indicando o nome das pessoas ali enterradas, com data e local de nascimento, que em ambos os casos era Portugal. 

Fomos em busca do cemitério dos antigos mochileiros, na Baixa da Lama, tendo descoberto que o mesmo fora derrubado para dar lugar a uma torre de eletricidade da Companhia Hidrelétrica de São Francisco – CHESF. Informaram-me ainda que um “político” de Brejão mandara apanhar todas as ossadas desenterradas pela CHESF, dando-lhes descanso final no cemitério daquela cidade. Ninguém sabia informar o nome do tão consciencioso e amável político. Sem dúvida alguém de ascendência mochileira.
(Fonte da Pesquisa: Livro "A História da Família Gueiros", de David Gueiros  Vieira - julho de 2008).

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