domingo, 9 de novembro de 2014

CAPITÃO PEDRO RODRIGUES DA SILVA

Foto tirada em Panelas no casamento do Capitão Pedro Rodrigues da Silva.
Presentes entre outros: Jonatas Costa, Juiz de Direito de Garanhuns; Bernardino
Guimarães; José Rodrigues (Batatinha); Abdias Branco, Manoel Paulo da Silva,
Leonildo Ferreira do Nascimento; Luzinete Rodrigues.

Quando a partir de 1945, me integrei na defesa dos interesses políticos da chamada Coligação Pernambucana, que reunia os partidários da União Democrática Nacional, sob a chefia do Senador Antônio de Novais Filho e do Partido Democrata Cristão,  propriedade e chefia do Mons. Arruda Câmara, sob a sigla “UDN – PDC – PL”, na condição de seu advogado e delegado partidário, junto ao TER E TSE, verifiquei muito de perto o que representava a figura e o trabalho realizado pelos delegados de polícia, nos municípios onde se achavam lotados. Apesar do voto secreto, das liberdades políticas sempre apregoadas, e não cumpridas, a polícia pelos seus representantes, constituía e ainda hoje constitui elemento ponderável no problema político.

Queremos dar o nosso testemunho, de que os anteriores a 1930, apesar de ligados diretamente às chefias políticas regionais, eram “anjos ingênuos”, diante dos seus continuadores na chamada República Nova, com especializações nos movimentos políticos de 38, 37 e 45.

Muitas representações políticas nasceram nas Delegacias de Polícia, muito deferentes do nosso tempo. Hoje, como ontem, ocorrem divergências e choques entre os militantes da polícia e um judiciário, não muito bem preparado para tais embates. Ao tempo de minha adolescência, os cargos de representação tanto no Ministério Público como da Judicatura, tinha não somente a necessária respeitabilidade, mas também e principalmente, o prestígio das chefias políticas e partidos.

Quero me referir neste capítulo, aos delegados que estiveram em Garanhuns, quando o Ministério Público era ocupado pelo meu pai, o advogado Alfredo da Silva Vieira e que muito perto estavam convivendo conosco.
Relembro entre outros, o Cap. José Avelino, o advogado Amaro Pereira Lopes, delegado regional, cuja sede era Garanhuns e o Cap. Pedro Rodrigues da Silva
O Cap. José Avelino, certa vez chegara a nossa casa, numa tarde de domingo, depois de ter eluciado um assassínio ocorrido nas matas de Brejão, no local chamado de “3 SS”, prendendo o seu autor e encontrando em seus bolsos a prova do delito:” as duas orelhas do morto”, que iam ser aprestadas ao mandante em terras de Bom Conselho de Papacaça, onde o criminoso seria devidamente guardado e iria receber o preço do “serviço” efetuado. As orelhas do morto eram o comprovante do “trabalho”. Dizia-se que o assassino que fora apresentado ao meu pai, dado a “serviços”, porém sempre “guardado” por influente figura política da região de Bom Conselho. Voltei a encontrar o Cap. José Avelino, já velho e reformado na cidade de Nazaré da Mata, onde fui defender interesses políticos da UDN, numa das eleições realizadas em Pernambuco.

O advogado Amaro Lopes Pereira, ligado diretamente à política de Souto Filho, foi designado Regional, cuja sede era Garanhuns. Realizou um trabalho efetivo durante a sua gestão nos vários municípios de sua jurisdição policial. Reencontrei-o advogando no Recife, com escritório na Rua do Imperador e reatamos a amizade mantida com o meu pai e a continuidade com os seus filhos, meninos do meu tempo, mais tarde o Prof. Amaranto Lopes Pereira, catedrático da Escola de Engenharia, e Amarílio Lopes Pereira, distinguido Oficial da Aeronáutica e figura destacada em nossos meios sociais, recentemente falecido.

O Cap. Pedro Rodrigues da Silva, ou simplesmente o Cap. Pedro Rodrigues, oficial da ativa da Polícia Militar de Pernambuco, foi durante muito tempo, o delegado de Garanhuns. Costumava dizer que em sua gestão, podia se dormir de portas abertas, pois os marginais, ladrões e gatunos se assustavam, só em saber que o mesmo era o delegado. De fato, ele saneava todo o município durante o seu tempo de Delegado.

Vinha a nossa casa frequentemente, não somente em função do ofício, mas muitas vezes em simples visitas de cortesia. Casado com a Sra. D. Emília Otília da Silva, residiu muito tempo na Praça D. Moura, onde a sua primeira mulher veio a falecer. Do seu consórcio com D. Otília, vários foram os seus filhos, entre eles, José Rodrigues da Silva, conhecido por “José Batatinha”, casado na família Dourado, com D. Maria do Carmo, carinhosamente chamada de Carminha, filha do Sr. Ernesto Dourado, comerciante e chefe da Estação da Great Western, em Garanhuns. Colega de farda e amigo incondicional do meu tio José Soares de Assunção (foram ambos sorteados, ao mesmo tempo e serviram no mesmo 21 BC), comerciante, líder integralista, deputado estadual pelo Partido de Representação popular ( designação da Ação Integralista Brasileira, nas eleições de 1945).

Deixando Garanhuns, o Cap. Pedro Rodrigues da Silva, continuava amigo fiel dos seus amigos das horas certas e incertas, tanto assim que durante a Revolução de 1930, fui encontra-lo na condição de ajudante de ordens do Governador Estácio Coimbra e foi o velho Capitão Pedro Rodrigues, quem sustentou militarmente a sua fuga e de um grupo de seus amigos, através das ruas do Recife, via Ponte Buarque de Macedo, afim de embarcar no rebocador que tinha o seu nome, para a cidade de Barreiros. Segundo entrevista do mestre Gilberto Freyre, à revista “Manchete”, edição de 11 de outubro de 1980, sob o título “Os tenentes eram uns meninões”, a sua fuga teria acontecido, da seguinte maneira:

“ O dia 3 de outubro de 1930, vivia os seus primeiro minutos quando Giberto Freyre foi chamado ao telefone, na redação de "A Província", em Recife, jornal do qual era diretor. Era do palácio do governo, situado poucos quarteirões adiante. “Venha urgente para cá. Agora mesmo pegamos no rádio que rebentou um movimento sério na Paraíba e no Rio Grande do Sul. Porto Alegre já foi tomada pelos revoltosos. Venha logo”. Na  época, aos 30 anos de idade, o futuro autor de Casa Grande de Senzala exercia, na capital pernambucana, a dupla função de diretor de A Província, diário que fora fundado dois anos antes, e de chefe de gabinete do presidente (governador) Estácio Coimbra. “Chefe de Gabinete é uma designação por demais pomposa para o cargo que eu ocupava junto ao Estácio. Na verdade, não passava de um assessor intelectual – digamos assim – sem qualquer vinculação política ou partidária com as correntes que então se enfrentavam em Pernambuco. Dentro das limitações da época, o jornal podia ser tido como independente, e nele eu tinha carta branca. Basta dizer que diariamente o jornal publicava três colunas assinadas por políticos das várias filiações partidárias. No mais, o jornal se propunha a inovar no que fosse possível, inclusive no pagamento de colaboradores, coisa até então desconhecida na imprensa pernambucana. Manuel Bandeira, Olívio Montenegro, José Américo, Barbosa Lima Sobrinho, José Lins do Rego (que então morava no Recife), Pontes de Miranda, entre outros, colaboravam na Província e recebiam para isso. Demos nova feição ao noticiário, modernizamos o feitio gráfico, enfim, procuramos tirar do jornal o mau caráter provinciano, trocando-o pelo bom caráter provinciano. Tal a independência do jornal, que vez por outra se permitia até fazer crítica ao governo.

Não poderia calcular Gilberto Freyre, que deixando a redação de A Província, naquela madrugada do dia 6 de outubro, e entrando no Palácio dos Guararapes, iria voltar a sua casa dois anos depois. Já na manhã do dia 4 , as tropas revolucionários, sob o comando do Capitão Pedro Juarez Távora, que desciam da paraíba, entravam e Recife e ameaçavam encurralar no palácio do Presidente Estácio Coimbra e seu grupo mais fiel. A solução era fugir. Dos Guararapes, o grupo palaciano deslocou-se através da ponte Buarque de Macedo e já sob uma chuva de balas, para a barra do Recife. Lá, embarcaram no rebocador Estácio de Coimbra (que dias depois seria rebatizado de Quatro de Outubro) e tomaram o rumo sul, na direção da cidadezinha de Tamandaré, onde aguardariam reforços federais. Mas como os reforços não chegaram, e as tropas de Juarez Távora prosseguissem em seu avanço, na mesma direção, o rebocador fez-se novamente no mar, na direção de Salvador, onde Estácio Coimbra tinha amigos, entre eles Góis Calmon, Pedro do Lago e Luís Viana. Mas na capital baiana a situação também se tornava cada vez mais insustentável – e foram os próprios amigos de Estácio  que lhe recomendaram o exílio. Foi no terceiro e último dia de sua estada em Salvador que Gilberto Freyre teve notícia de que a casa onde morava com seus pais e seu irmão Ulisses, uma heráldica e ampla mansão no bairro da Madalena, em Recife, havia sido totalmente saqueada pela turba revolucionária.
“ Levaram tudo. Até os móveis, até o piano. Só não levaram a totalidade dos meus livros porque a maioria deles se achava no “garçoniére” que eu e o Ulysses mantínhamos no centro de Recife. Foi um saque premeditado e organizado, com caminhões enfileirados à nossa porta para a remoção ordenada de nossos pertences”.

Decidindo-se pelo exílio, Estácio Coimbra e seu pequeno grupo embarcou no lle de France, um vapor misto da Chargers Reunies, que os levaria até Lisboa. Gilberto Freyre poderia perfeitamente ter ficado em Salvador, em casa de um dos seus amigos locais; ou até mesmo voltar a Recife. Mas preferiu acompanhar o amigo deposto.

Muito embora o seu nome não figure na entrevista do mestre Gilberto Freyre, a presença do ex-delegado de Garanhuns, na condição de ajudante de ordens, do Governador Estácio Coimbra e do seu respaldo militar na fuga para o rebocador Estácio Coimbra, me foi confirmada pelo seu filho José Batatinha, que me adiantou ainda o seu genitor, há vários anos atrás, também teria sido o guarda-costas militar do Governador Estácio Coimbra quando de sua primeira fuga, no movimento de 1911. É realmente uma interessante coincidência.
Antes, porém, de abandonar o Palácio, o Governador Estácio Coimbra, quis premiar o seu velho amigo e leal servidor, assinando ato de sua promoção de Capitão  para Major da Polícia Militar, ato que não chegou a ser publicado, nos dias tumultuosos de outubro de 1930, pois o mesmo fora impedido pelo Chefe Militar Revolucionário da Polícia Militar, o Cel. Antonio Muniz de Farias. Apesar do impedimento, o fato tornou-se conhecido e o “Diário de Garanhuns”, em sua edição de 5 de outubro de 1930 chegou a publicar a seguinte nota:

“PEDRO RODRIGUES DA SILVA”

“Hontem, pela manhã, circulou um boato de que havia sido promovido de major da força Pública de Estado o Sr. Capitão Pedro Rodrigues da Silva.
Figura por demais conhecida em nosso meio, onde exerceu com elevado zelo e critério o cargo de delegado durante muito tempo foi, prazenteiramente, recebida a alvissareira nova.
Ao distincto oficial que tem nesta terra seus filhos entre os quaes  contamos o Sr. José Rodrigues apresentamos as nossas felicitações”.
Atende-se para o fato de ser o “Diário de Garanhuns”, órgão revolucionário e na ocasião tinha como seu diretor o Tabelião Mário Lyra, chefe revolucionário de Garanhuns.

Anos mais tarde, já em pleno Estado Novo, na interventoria de Agamenon Magalhães, o Cap. Pedro Rodrigues, teve reconhecido o seu direito de promoção ao posto de Major, seguido de sua ida a reserva remunerada.

O boato do “Diário de Garanhuns”, se tornou assim realidade muito anos depois.

Encontro nos arquivos de Paulo Tavares Correia, médico, diretor da cadeia dos Hoteis Tavares Correia, uma história fotografada do Capitão Pedro Rodrigues, tirada no dia do seu segundo casamento com a Sra. Alice Santos, na cidade de Panelas. Presentes ao acontecimento vários dos seus amigos de Garanhuns, entre eles o Juiz de Direito Jonatas Costa, o médico Tavares Correia, o comerciante Bernardino Ferreira Guimarães, o comerciante Abdias Branco, os seus filhos  Luzinete e José Batatinha, e seu genro Manoel Paulo de Miranda, o construtor Leonildo Ferreira do Nascimento.

O Major Pedro Rodrigues da Silva, ex-delegado de Garanhuns, ex-ajudante de ordens do Governador Estácio Coimbra, oficial reformado da Polícia Militar de Pernambuco, marcou época em Garanhuns, quando exercitou o difícil cargo de Delegado de Polícia. Malandros, ladrões e “queijandos” não tinham vez em nossa centenária cidade, que ainda o relembra pelos seus feitos e suas virtudes, entre as quais se destacavam bravura pessoal, lealdade e ser amigo dos seus amigos.

O Major Pedro Rodrigues da Silva, com quem convivi muito perto, em Garanhuns e no Recife, já reformado costuma relembrar fatos ocorridos na sua condição de Delegado, destacando sempre o apoio que recebera nas suas medidas tomadas em defesa da comunidade, por parte das autoridades locais.
Falecendo no Recife, no dia 24 de dezembro de 1954, na rua das Graças, 256, deixou do seu segundo casamento com a senhora Alice Santos , dois ilustres filhos: o Juiz de Direito da Comarca da Capital, Rilton Rodrigues da Silva, fundador e ex-Presidente da Academia de Letras de Engenharia da Universidade Federal de Pernambuco, emérito professor de física nuclear, com título de doutorado e mestrado de Universidades europeias, ressaltando-se a carreira de Strassbourg, na Alemanha.
Terminava assim, a carreira de um certo e lembrado Capitão e depois Major, Pedro Rodrigues da Silva.

Fonte da Pesquisa: Livro "Garanhuns do Meu Tempo" de Alfredo Vieira - ano de 1981.



Nenhum comentário:

Postar um comentário