quinta-feira, 16 de outubro de 2014

HERMÍNIA LINS

Hotel e Hospedaria Mota  de Vicente Dantas Filho - Garanhuns

Pinto Ferreira

Minha avó materna, Hermínia Lins, chamada familiarmente pelas netas pelo nome carinhoso de Mãe Nina, nasceu em março de 1875, na cidade de Palmares, filha caçula do velho Antônio Cesário da Silva Brasileiro. Sua mãe faleceu quando ela tinha 10 anos e assim foi praticamente criada, na sua segunda infância pela sua irmã Leopoldina, a quem venerava como uma mãe.

Aos 17 anos casou-se, no mês de abril de 1892, na cidade de Palmares, com Leopoldino Lins, de cujo consórcio houve três filhas, e nenhum filho: Maria Ernestina, Maria Adélia, Maria Regina. Ao contrário das famílias numerosas de então, o casal teve poucos filhos, contradizendo assim o tipo comum e generalizado das grandes e numerosas famílias da velha sociedade patriarcal. O casamento se realizou na cidade de Palmares, que então possuia rica e florescente vida local.

Hermínia Lins era possuidora de extraordinária beleza, e algumas pessoas ainda hoje vivas (1967), e que a conheceram na Colônia, como Armando Vasconcelos, que depois foi meu bedel como aluno na Faculdade de Direito, não se cansava de repetir que era a moça mais bonita que conheceu.

Dela bem me lembro na minha infância. Possuia um gênio autoritário, meio imperialista, com grande poder de atração sobre as pessoas e um especial sentimento de ajuda em favor dos semelhantes. Toda a vida da família se concentrava por assim  dizer em derredor de seu foco de atração solar: marido, genros, filhos, netos, parentes e amigos.

Estácio Coimbra, que duas vezes foi o governador de Pernambuco, tinha-lhe uma atenção especial, e um pedido seu era uma ordem. Quando Vice-Presidente da República, vindo ao Recife, foi uma feita homenageado pelo casal no solar da Av. João de Barros.

Lembro-me bem dela na última fase de sua vida, já pelos 50 anos de idade. Era um mulher morena, de olhos castanhos, as linhas do rosto denunciando a grande beleza de sua juventude. Era de uma dedicação extrema para com os netos, e mesmo displicente em repremir as suas faltas. Cumulava a todos os netos de presentes, e quando viajava para o sul, trazia as malas carregadas de presentes, que distribuia sem regatear e a mancheias pelos seus netos. Todos gostavam dela.

No solar da Av. João de Barros dominava como uma rainha. Sempre havia o que fazer no grande sítio, com suas fruteiras, seu viveiro, seus parentes, a mesa grande para o almoço e para o jantar posta para umas 20 pessoas, a quem meu avô servia como patriarca.

Os dois netos dedicava uma atenção especial: a meu irmão mais velho José e à minha prima Maria Ernestina, a quem criou desde o seu nascimento. Os pais desta, depois da morte da sua primogênita, deram-na para criar, a fim de consolá-la da dor imensa e profunda da morte de sua  primeira filha, Sinhá, ocorrido em 1911. Dizem que minha avó ficou um ano alheio ao mundo, desconsolado e triste, sentada numa soleira, distante das coisas.

A morte desta sua filha primogênita, Sinhá, ocorreu em 12 de março  de 1911, aos 18 anos. Recém-casada, com um jovem e brilhante juiz, Cunha Melo, que depois foi Ministro do Supremo Tribunal Federal, viajou para o Amazonas, onde o marido servia como juiz federal. De lá voltou doente, e faleceu na Casa-Grande da Av. João de Barros, de bexiga, com um filho no ventre, quase prestes a nascer. A ciência médica de então, o dr. Gouveia de Barros à frente, especialista famoso e ainda hoje com nome, apesar de todo o seu empenho e dedicação, não pôde salvá-la. A moléstia, lenta e dolorosa, a aniquilou, deixando inconsoláveis o marido e os pais. Foi uma ano doloroso, este de 1911.

Minha avó era profundamente religiosa. No solar da Av. João de Barros, havia um quarto especialmente dedicado aos Santos, o santuário, alguns deste depois guardados por minha mãe. Eça de Queiroz relembra que a mitologia Católica criou cerca de 3.000 Santos. Alguns deste mereciam um culto especial: São José, santo Antônio, sem contar o Menino-Deus e Nossa Senhora.

Por vezes minha avó era madrinha de certas solenidades religiosas, em Boa Viagem, onde costumava veranear durante as férias. Excedia-se então no cálido sentimento religioso de culto dos Santos e na fraternal caridade pata com os pobres.

Tinha assim o seu mundo: nele dominava como uma rainha de beleza e de bondade. (Foi mantida a grafia da época).

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