sexta-feira, 3 de outubro de 2014

GARANHUNS POESIA

ESPECIAL PARA A HISTÓRIA DE GARANHUNS
(Nelson Fernandes – Garanhuns - Fevereiro de 1959)


Garanhuns década de 60.

Na vasta região inculta, adusta,
Em meio às serranias do Nordeste,
A bela Garanhuns desponta augusta!
Oásis que nasceu em pleno Agreste.

Sua beleza rica, encantadora,
Já pintaram em cores os estetas;
Sua magia viva, sedutora,
Já cantaram, também, grandes poetas.

Talvez enfeitiçado ou delirante,
Fui tentado a cantá-la e no entanto
Como os outros também pequei sonhando...
Não resisti ao seu enorme encanto.

O belo quadro com que me deparo,
Quero esboça-lo, mas não tenho rima
Para traçar este modelo raro
Que a natureza fez a obra-prima!

Se pego a palheta, falta a tinta
Que dá mais colorido e mais relevo,
E a inspiração parece extinta
Para exaltar-lhe o requisitado enlevo!

Quisera que o mundo fantasista,
Por um momento apenas, eu vivesse!...
E na orgia do soberbo artista,
Um turbilhão de ideias eu tivesse!

Embalde firo a lira como meus dedos!...
Os sons procuro, qual louco maestro,
Que conhece da música os segredos...
Porém, na hora exata foge o estro!

Ó musa! Vem a mim neste momento,
Suprema inspiradora e mãe do verso!
Acende o facho! Dá-me alento!
Quero roubar mais luz ao universo!

Quero beber na fonte cristalina
Da imaginação a pura linfa...
E através da embriaguez divina,
Cantar iluminado pela ninfa!

Foi um dia... vagando nos espaços,
 Tonto de luz, o gênio da bondade
Deixou cair dos seus potentes braços
Um pedaço do céu, como cidade.

Pois, quando nas colinas verdejantes
O astro rei levanta a fronte acesa,
Seus raios formam chuva de brilhantes
Vem banhar-lhe o corpo de princesa!


Nas tardes invernosas de agosto,
As nuvens vêm descendo lá do céu,
Para beijar-lhe ternamente o rosto...
Formando tino e rendoso véu.

A neblina caindo sobre o monte,
Vai serenando levemente o fralda...
E a luz crepuscular, com o horizonte,
Formam no céu dourado uma grinalda!

Depois, ao envolver-lhe a noite escura,
Fica sonhando até novo arrebol...
Noiva feliz de perenal ventura,
Por ter um dia despontado o sol!

Mais tarde vem a luz e sobre ela
Estende o seu lençol bordado a prata
E dorme Garanhuns, Serrana bela,
Ao som de maviosa serenata!

Assim, vive a cidade embalada
Na harmonia que no seio abriga.
E para o sonho ideal morada,
Como parnaso foi, na Grécia Antiga

E as deusas emigrando do Oriente,
Novo Éden fundaram nesta terra;
Por isso a poesia está presente
Desde as campinas aos grotões da serra.


Foi cantando esta grande ostentação,
Que fez cair no divinal pecado
Não tendo suportado a tentação
Um pobre peregrino d’outro Estado,

Que aqui chegando como mais um filho
Foi acolhido neste novo teto.
Hoje não sabe se está preso ao brilho
Ou se cativo ao seu grande afeto

Esse filho sou eu, que nesta Casa,
A chama dos meus versos vi nascer!
É esta inspiração que me abrasa
Neste momento, um dia vi crescer!

Para dizer tudo que sinto agora
No devaneio que esta terra inspira...
Mesmo que sendo uma voz de fora,
Ao tom saudoso de modesta lira.

Se meu poema não revela tudo
Que representas com real beleza,
Perdoa, Garanhuns, só quis, contudo,
No meu delírio decantar riqueza!

Se aqui viver ao decorrer dos anos,
Cantarei sempre porque tu existes
Serás meus derradeiros desenganos...
O meu consolo para os dias tristes...


E ao terminar a minha pobre vida,
Sentindo o frio do feral inverno,
Que tu sejas a última guarida,
Para que eu viva neste sonho eterno!


NELSON FERNANDES DO NASCIMENTO

Natural do Estado do Ceará, este mimoso poeta para aqui foi removido como funcionário dos Correios e Telégrafos. Amante da cultura e das letras, completou o curso secundário no Colégio Diocesano de Garanhuns, e, não se limitando a isso, matriculou-se na Faculdade de Direito de Caruaru, para onde conseguiu transferência. Ali reuniu grande parte das produções em versos e, impresso na Tipografia Tavares Editora, publicou um livro, Aurora da Redenção, que, não obstante apelos dos colegas dali, em mais uma demonstração de amor à cidade que cantou, preferiu fazer o lançamento na sede do Grêmio Cultural Ruber van der Linden, aqui, em 11 de outubro de 1963. Nelson Fernandes do Nascimento é aqui elemento de grande destaque no meio cultural, principalmente como sócio do Grêmio Cultural Ruber van der Linden, onde sempre empolgou com sócios e visitantes, declamando  poemas tanto de sua autoria como de outros poetas.

Fonte: Livro "História de Garanhuns" de Alfredo Leite Cavalcanti.


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