quinta-feira, 11 de setembro de 2014

LEMBRANÇAS DE GARANHUNS E OUTRAS MAIS: PAPAGAIO DE ESTIMAÇÃO


Neide de Oliveira Tavares nasceu em Garanhuns/PE em 14 de Abril de 1944. Professora de História formada pela Universidade de Pernambuco e ex-aluna do Colégio Presbiteriano Quinze de Novembro. Artista Plástica nas horas vagas, tem se dedicado a pintar e a escrever. Este livro é uma coletânea de crônicas que Neide de Oliveira Tavares escreveu durante sete anos, para o Jornal "A Gazeta" e "O Monitor". 
Odorico partiu. Bateu asas, foi talvez para bem longe e a sua gaiola ficou vazia. Odorico é o papagaio, que chegou à nossa casa há uns doze ou treze anos, presente do vizinho Enildo Figueiredo à minha mãe. Odorico não tinha ainda as penas, tão novinho, quando aqui chegou. Dei-lhe o nome de “Odorico Paraguaçu”, por conta da novela “O bem amado”, que estava passando na Globo pela segunda vez, e cujo prefeito Odorico, interpretado por Paulo Gracindo, era um personagem bastante pitoresco. E assim ficou, e de Odorico pra lá e pra cá, começamos a chama-lo “Dodô” também,  num diminutivo carinhoso. Quando novinho, muito manso, aprendeu a dizer Odoriquinho, e outras vezes, chamava: “ô doidinho!”, porque nos ouvia brincar com ele assim.


Odorico nos acompanhou em nossas andanças durante todos esses anos  em que viveu. Às vezes para a praia, em outras para o sítio e em outras ainda, para o Recife. Odorico era um viajador. Certa ocasião viajava conosco uma amiga, e sempre que ela tentava conversar, Odorico tomava-lhe a palavra, fazendo uma algazarra tão grande, imitando o tom da sua voz. Não deixou a nossa companheira conversar durante toda a viagem. Ele tinha dessas coisas. Gostava de assobiar quando as nossas filhas começavam a tocar piano, numa alegria contagiante e barulhenta. Com muita paciência, ensinamos a assobiar o Hino Nacional, como também, o “atirei o pau no gato”, que ele findava com um longo assobio. Enfim, enchia a casa com seus cantos e gritos. Quando tentava beliscar alguém e minha mãe reclamava, ele ficava de costas para ela, olhando para a parede, como se entendesse tudo e não quisesse ouvir reclamações. Muitas vezes nos surpreendia.

Depois, com as mudanças na vossa vida, Odorico foi ficando mais agressivo. Bicava quem dele se aproximasse, principalmente se fosse homem. Certa vez fugiu e passou cinco dias fora de casa. Foi encontrado lá perto do Pau Pombo. Passou dias triste e desconfiado, deixando até de falar. Ultimamente, estava voltando a tagarelar. Na hora de dormir, gritava “mãe, mãe”, num instante de se acolher, até que viesse uma pessoa da casa e o colocasse em lugar seguro.

Não sei, desconfio que Odorico saiu por aí, para conhecer Garanhuns. Talvez com as minhas crônicas enaltecendo as ruas da cidade, eu tenha despertado nele o desejo de passear. Deve ter saído à procura daquelas ruas.

Mas coitadinho! Não sabe voltar! Precisa da ajuda de alguém que o tenha encontrado. Precisa conhecer as ruas que fazem o itinerário da volta.

Por isso peço: se alguém o tiver encontrado, ajude-o. Ajude-o a completar o seu roteiro, mostrando-lhe o difícil caminho da volta. Aí então Odorico, prometo: prometo que sairemos com você num passeio, juntos, percorrendo as ruas de Garanhuns...(Fonte da Pesquisa: Livro "Lembranças de Garanhuns e outras mais", de Neide de Oliveira Tavares).

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