sábado, 23 de agosto de 2014

MANOEL DANTAS DE BARROS



Nascido no dia 25 de dezembro de 1925, no         sítio Baixa de Lama, distrito de Brejão, na época  Município de Garanhuns. Filho de Soriano Alfredo de       Barros (Sinhô) e Maria Amélia de Barros (Maroca).  Casou-se aos 27 anos com Maria Selizete Barros, sua prima, no sítio Riacho Seco, no dia 05 de março de 1953. Seus filhos são Marlene, Armando, Fátima, Aparecida, Rosa Maria, Dirce, Arnaldo, Ana Maria, Perpétua, Júnior e Joana D'arc. Profissão: Agricultor, Sanfoneiro, carreiro, vaqueiro, motorista e poeta.

Sua biografia daria um romance. Estudou o primário completo e teve como professores: Fausto Augusto de Barros, Ranulfo Augusto de Barros e Jonas Dantas de Barros. Educou seus filhos amando a história de luta de seus pais, estórias que contava todas as noites para os seus filhos antes de dormir. Ex-funcionário da CHESF escreveu a maior parte das suas poesias depois de sua aposentadoria por invalidez, lutando bravamente contra uma grave problema cardíaco.

Transformou a poesia na sua bandeira contra a dor e a saudade, imortalizando-se em seus versos e músicas. Amava sua família, a poesia, a música nordestina e a política. Com ele seus filhos aprenderam a lutar pela vida, a amar Miguel Arraes de Alencar. Seu maior defeito: Votou em Jânio Quadros, razão dos bate-bocas sobre política com Arnaldo (Chico) e Ana Maria (Aninha).



A MINHA CASA PATERNA

Manoel Dantas de Barros

Velha casa dos meus pais
Dentro dela me criei
Nunca me esquecerei
Do que ficou para trás
Lembro de porta a portais
Dos batentes da cozinha
De caibros, ripas e linhas
Quando eu ia deitar
Antes do sono pegar
Contando as telhas que tinha

Inda recordo da sala
Uma placa dava luz
A imagem de Jesus
o relógio nem se cala
Tique-taque e nem se abala
De hora embora batia
Tinha uma Santa Luzia
Nossa Senhora e São João
O Padre Cicero Romão
São Bento, Santa Maria.

Retratos reproduzidos
De quase toda família
Na sala tinha mobília
Cadeira em cipó pulido
Duas bancas e um cabido
Um espelho e uma mesa
Quando a luz estava acesa
Uns cantava outros tocava
No mês de maio se rezava
Não se falava em tristeza

Um pequeno corredor
Da sala para a cozinha
À direita a camarinha
De Maroca e se Sinhô
Tinha cama e cobertor
Malas bonitas de grade
Não tô contando a metade
Tinha oratório com Santo
Ali nunca teve pranto
Tudo ali era bondade

Quando descia o batente
Chegava à sala de janta
O quadro da ceia Santa
O guarda louça na frente
E seis cadeiras somente
De pau, arredor da mesa
Não se falava em pobreza
Agradecendo rezava
A Deus  por tanta fineza

Na cozinha era o fogão
Com lenha de Murici
Maçaranduba e quirí
Uma boca de carvão
Uma jarra e um pilão
Uma banca pra sentar
Uma máquina pra relar
Milho pra fazer cuscuz
Todos pediam a Jesus
Pra este pão não faltar.

De alpendre rodeada
Feito por Lúcio Vicente
Virada para o poente
Na frente alta calçada
Três batente era a chegada
Pra descer até o chão
Vinte metros o barracão
De mãe que negociava
Cem vezes ia e voltava
Levando a chave na mão.

Bem atrás era o cercado
Encostado o armazém
Tinha a escola também
O curral do outro lado
Feito de arame farpado
A porteira de mourão
De lado o pé de mamão
O poleiro das galinha
O riacho e a varginha
E o saudoso buracão

No oitão a velha casa
Lugar onde fui nascido
Era lugar preferido
De fazer fogo de brasa
Pro café torrado em casa
E guardar velho utensílio
O peso de trinta quilo
Paio de fava e café
Um vaso de zinco em pé
Com quinze sacos de milho

Antes da hora da ceia
Todos vinham pra calçada
Ficava olhando a estrada
De seis até seis e meia
A luz do sol bem vermeia
Se enconbria no puente
Eu pequeno era inocente
Comigo mesmo, eu pensava
Parece que o sol entrava
Na lagoa do Vicente

Mãe coitada a trabalhar
Cuidando da grande lida
Fazendo nossa comida
As menina a lhe ajudar
Terminava de aprontar
Com coragem e esperteza
Com muita delicadeza
Ela dizia, Sinhô
Venham logo, por favor
A janta já ta mesa

Quando terminava a janta
Mãe ficava na cozinha
Cantando rezas baixinha
Que parecia uma santa
Na sala as menina canta
Outro a harmônica controla
Os que chegam da escola
Na gamela os pés lavava
Meu pai calado afinava
Sua bonita viola.

Da família eu vou falar
É a minha obrigação
Falar de irmã de irmão
Porque não posso deixar
Para completar o lar
Deixando tudo acertado
Hoje vivo admirado
Por causos acontecido
Nós éramos tudo unido
Hoje é tudo separado.

A mais velha, Margarida
Era uma alma bondosa
Tinha a beleza da rosa
Por toda compadecida
Alegrava a minha vida
Ver ela perto de mim
Só parecia um jardim
De flores bem perfumada
Deus tem em sua morada
Porque ele quis assim

Eudórica, a segunda irmã
Morena, cor de canela.
É pequena, mais é bela.
Que dela eu sempre fui fã
Parecia uma manhã
Na data da primavera
É lutadora e sincera
Tem um largo coração
Amiga dos seus irmão
E os seus filhos venera

Maria José a terceira
Irmã boa e caridosa
Toda vida foi bondosa
Desde o tempo de solteira
Sempre foi hospitaleira
Eu ainda estou lembrado
Que nezinho, seu namorado.
Lembro do dia e da data
Carregava as suas cartas
Para ganhar uns trocados

Elói era um bom irmão
Eu ainda era pequeno
Mais a ele não condeno
Ele ser de criação
Tinha um bom coração
Por todos era querido
Porém, hoje é falecido
Está com Deus ao seu lado

Jonas sempre foi unido
Não deu trabalho aos pais
Estudioso demais
Sempre foi bem sucedido
Pela vida oprimido
Quando a mulher morreu
Porém, lutou e venceu
Da vida foi destemido
Casou a segunda vez
É o herói dos seus filhos.

Raimundo foi diferente
Era caseiro demais
Viveu sempre com os pais
Em tudo estava na frente
No trabalho competente
Lê na hora do intervalo
Com nada sentia abalo
Trabalhador de mão cheia
Na hora que se aperrêia
Ninguém lhe pisa no calo

Dantinha era do pesado
Todo serviço topava
O trabalhado que pegava
Era logo terminado
Mas quando tava afogado
Ele comprava uma briga
Mais não arrumava intriga
Que não dava resultado
Hoje é aposentado
E para a vida não liga

Agilberto é falecido
Não recordo bem o ano
Era gentil e humano
Nos negócio decidido
De todo mundo querido
Era alegre e prazenteiro
Criador, interesseiro
Tudo com ele aumentava
A fazenda só prestava
Quando ele era vaqueiro.

Zezinho nasceu doente.
Desde pequeno, era moço.
Hoje o coitado é um doente mental
Vive como adolescente
Porém, já foi competente.
Nas aulas tinha cartaz
Tudo sabia demais
Cantador de improviso
Muita gente de juízo
Não faz o que ele faz

Dôra é das irmãs mais nova
É mais inteligente
Caprichosa e competente
Em tudo ela dava a prosa
É poetiza e faz trova
Corajoso e destemida
Por todos ela é querida
Pelo seu bom coração
Conselheira dos irmão
Sabe zelar pela vida

Lurdinha era uma pessoa
De semblante muito lindo
Só se via ela sorrindo
Tinha a natureza boa
Porém, a morte atraiçoa.
Morreu na flôr da idade
Hoje só resta a saudade
O corpo na tumba fria
A alma está com Maria
Mora na eternidade

Jaime é muito inteligente
Muitos lhe chama enrolão
Desde pequeno era o cão
Enrolava até a gente
Mais é muito competente
Pra tudo que procurar
Muitos querem criticar
Mas eu acho ele direito
Todo mundo tem defeito
Nós temos que perdoar


Jeová sempre um meninão
Era alto, forte e bonito.
Mas nunca fez profissão
Considero um bom irmão
Que sempre me tratou bem
Hoje doente também
Mais doença não lhe assusta
Hoje vive a sua custa
Não é pesado a ninguém

Juraci, ponta de rama
É o mais novo da casa
No trabalho era uma brasa
E desenhista de fama
Viveu na baixa da lama
Trabalhando no pesado
Cortês e muito educado
Trata todos muito bem
Todos esses dons ele tem
Nada está acrescentado

De mim não quero falar
Para não mudar de tom
Não vou dizer que sou bom
Deixo os outros me julgar
Também não vou me gabar
Dizendo que sou direito
O que disserem eu aceito
Sei que não sou tão ruim
Alguém que fala de mim
Não corrigiu seu defeito

Não gosto de fofoqueiro
De gente falsa e ruim
Toda vida fui assim
Desde o tempo de solteiro
Meus antigos companheiro
Me encontra fazem festa
Mais esse  que me detesta
É tudo cabra safado
Por bons sou elogiado
Só sou ruim pra quem não presta

Agora quero falar
Quanto meu pai foi bondoso
O conto mais precioso
Este não posso faltar
Tu fosse um pai exemplar
Não fosse homem covarde
Era amigo de verdade
Pra mentira dava figa
Não deixou uma intriga
Do sítio até a  cidade

Tu fosse o melhor amigo
Que eu encontrei na vida
Enfrentava a grande lida
Nunca temesse perigo
Não tomava por castigo
Quando tinha um prejuízo
Sempre mostrou o seu riso
Como um valente guerreiro
Na hora do desespero
Não esquentava o juízo

Lembro eu depois de casado
Chegava o dia da feira
Eu olhava as algibeira
Não encontrava um cruzado
Eu de cavalo selado
Pra casa dele seguia
Ele a gavetinha abria
E repartia comigo
Um desse se chama amigo
O resto  é só fantasia

Minha Mãe como era bela
Te mando esta mensagem
Fez uma grande viagem
Não tenho notícia dela
Ainda recordo ela
Com a voz linda a cantar
Todos nós a escutar
Aquelas bonitas modas
Cantando samba de roda
Dá prazer de recordar

Foi mulher determinada
Trabalhava o dia inteiro
No seu serviço caseiro
Nunca botou empregada
A pai não pedia nada
Porque tinha seu dinheiro
Trabalhador e pedreiro
Fazendo armazém e muro
A mulher de mais futuro
Que já vi no mundo inteiro

Sem falar antigamente
O quanto ela trabalhava
Lavava e remendava
A roupa velha da gente
Vivia sempre contente
Sempre ouvia ela cantar
Mais antes de se deitar
Com o candeeiro na mão
Ia para o barracão
A sua porta fechar

Comecei a trabalhar
Com idade de oito anos
Eu e pai e quatro manos
Na roça mato a limpar
Nunca vi pai reclamar
Que estava sem dinheiro
Trabalhava o dia inteiro
Arrancando mato e tôco
Ainda canta coco
Bem ritmado e ligeiro

Jonas, Dantinha e Raimundo
Junto a mim e Agilberto
Nós sempre fomos esperto
Nenhum era vagabundo
Tudo amarelo e corcundo
Mais trabalhava com fé
Formiga preta no pé
Mais pra nós não era nada
cada qual com a sua enxada
Limpando milho e café

Seis horas a gente saia
Para a roça do Vieira
Subia logo a ladeira
Limpava até meio dia
Dá li a pouco se ouvia
O buzo quando apitava
Mãe o almoço aprontava
Nós todos junto comia
As enxada nós batia
E para a roça voltava

Nunca ouve escravidão
Pior do que a da gente
Parecia penitente
Eu junto com quatro irmão
Tudo amarelo e pimpão
Calçado em velha alpercata
De vez em quando uma bota
Para cabra ficar manco
E no dia de descanso
Lá ver lenha na mata

O trabalhado na enxada
E as pizas que levei
Nunca meu pai odiei
Não guardo ódio de nada
Naquela época atrasada
Tudo era deste jeito
Mas existia respeito
Nunca disse um palavrão
Foi uma grande lição
Pai foi um homem perfeito

Alguém vai me censurar
Gente ruim, invejoso
Me chamar de mentiroso
Dizer que quero esnobar
Minha família exaltar
Que escondi os defeito
Nós merecemos respeito
Todos segue sua trilha
Criamos nossa família
Crítica nenhuma eu aceito

Hoje quem nunca foi nada
Que nasceu sem formação
Nunca teve educação
Foi criado nas estradas
Com a bunda remendada
Quer criticar nossa gente
Porém, nós somos decente
Quem fala não é capaz
Querem botar nós pra traz
Mas nós só anda pra frente

Nós fomos os mais cobiçado
Das moças da redondeza
A casa era uma beleza
Chegavam de todo lado
Do terreiro ao cercado
Ficava aquela maloca
Hoje essas mesma fofoca
De nós vive censurado
Mais viviam se mijando
Atrás dos fios de Maroca.


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