terça-feira, 17 de junho de 2014

O HOMEM QUE VESTIA LUIZ GONZAGA

Luiz Gonzaga foi um dos mais importantes clientes do artesão José Aprijo
Lopes(foto), que nasceu em Exu (PE) em 23 de maio de 1941 e conquistou
  a fama em Ouricuri. Foto de Lucas Marcelino e Cell Filho.

"As 5h30 eu estou de pé. Escovo os dentes e, em seguida, já vou para a oficina. O café eu só tomo às 7h30. Depois volto para trabalhar de novo. Fico para lá e para cá, naquele rojão. Chega gente, vou atender. Quando olho para a hora tem passado o dia. Paro só de noite, já tarde". Essa é a rotina diária do artesão José Aprijo Lopes, que descreve com detalhes como vive, aos 72 anos de idade, na cidade de Ouricuri.

Quando jovem, Aprijo trabalhou na agricultura. "Meu pai queria que eu estivesse na luta da roça todos os dias, junto com ele. Quando tinha meus 21 anos, em 1962, avistei um vaqueiro muito enfeitado, com peças de couro muito bonitas. Me interessei por aquilo e resolvi fazer. Quando pensei que não, tinha feito", relata. As primeiras peças do artesão do couro foram produzidas nos intervalos do trabalho no campo, sem que seu pai soubesse, pois, não queria que o filho tirasse o foco das atividades rurais.


Eu comecei a trabalhar sem  instrução nenhuma, fazia as peças por minha conta. Ai fui fazendo umas coisinhas, todo mundo olhando,  achando bonito e eu achando bom trabalhar. Depois um amigo de meu pai chegou lá na minha casa e me convidou a ir para cidade do Crato, no Ceará, a fim de ter umas aulas com o mestre Juarez. Ai fui para o Crato. O negócio clareou para mim. Trabalhei três anos lá, depois voltei para Exu e fiquei trabalhando por minha conta.


De Exu, o artesão partiu para Serra Talhada. Foi lá que Aprijo conheceu o Rei do Baião. "Meu sobrinho me apresentou a Luiz Gonzaga. Ele deixou o material comigo e fiz o primeiro gibão da vida dele e um chapéu, diferente dos que ele já usava. Ele gostou muito e daí para cá, disparou mesmo de encomendas de artistas, cantores e até mesmo de gente que gosta dele". De acordo com José, o cantor gostava de coisa bem feita e era muito exigente.

Luiz Gonzaga se tornou um colecionador de peças produzidas por Aprijo. "Ele tinha várias peças diferentes. Era chapeú, gibão, perneira, bota, cinturão e guarda-peito.Mas ele só usava o chapeú, o gibão e o guarda-peito. As peças tinham acabamentos feitos com bijuterias, adornos, argolas, fivelas, grampos e botões. Luiz Gonzaga usou as peças em seus shows pelo Brasil a até mesmo no exterior. "Tenho uma foto dele com o papa. Ele estava usando peças minhas".


Depois de 18 anos vivendo em Serra Talhada, em 1984, José passou a residir e trabalhar em Ouricuri.Sua família só chegou à cidade dois anos depois, em 1986. Até 1988, o artesão produziu peças para Luiz Gonzaga. De 1981, quando começou os trabalhos para o cantor, até 1988, Aprijo fez cerca de 50 peças para Gonzaga, sendo que algumas ele usava e outras dava de presente. O artesão e o rei tiveram uma relação de trabalho e amizade durante sete anos.

Na cidade de Ouricuri, Aprijo mantém uma loja, onde expõe e comercializa suas peças. Na oficina onde trabalha, conta com oito máquinas de costura. Em períodos de muito trabalho, o artesão chega a empregar oito pessoas. Por mês, sua equipe de produção utiliza cerca de 120 metros de couro. O material utilizado por Aprijo é comprado na região, normalmente em Petrolina, Juazeiro do Norte, Feira de Santana e Salgueiro.

Após a morte do Rei do Baião, em 2 de agosto de 1989, José continuou produzindo peças para outros cantores, fãs de Luiz Gonzaga e turistas que passavam pela região. "Luiz era o meu carro-forte. Era muito bom para mim. Ele dava muito valor ao meu trabalho". Adelmário Coelho, Jorge de Altinho, Dominguinhos, Alcimar Monteiro, Santana, Flávio Leandro, Sirano e Sirino são outros nomes do forró nordestino que já encomendaram peças ao artesão que vestiu o rei.(Fonte:Revista Movimentto- www.movimenttope.com.br)

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