The 3 Week Diet

Tuesday, February 18, 2014

EX-CANGACEIRO BALÃO RELATA COM DETALHES A CHACINA DE ANGICOS

Nunca pensei que Lampião morresse. Estávamos acampados perto do Rio São Francisco. Lampião  acordou às 5 da manhã e mandou um dos homens reunir o grupo para refazer o ofício de Nossa Senhora. Enquanto lia a missa, em voz alta, todos nós ficamos ajoelhados ao lado das barracas, respondendo "amém" e batendo no peito na hora do "Senhor Deus".
Terminado o ofício, Lampião mandou Amoroso buscar água para o café. Mas, quando ele se abaixou no córrego, veio o primeiro tiro. Havia uma metralhadora atrás de duas pedras a 20 metros da barraca de Lampião.

Pedro de Cândida , um dos nossos, havia nos traído, e acho que tinha dado ao sargento Zé Procópio até a posição das camas. Numa rajada de metralhadora serrou a ponta da minha barraca. Meu companheiro Merguião, levantou-se de um salto, mas caiu partido ao meio por nova rajada. Eu permaneci deitado, com jeito coloquei o bornal de balas no ombro direito, o sobressalente no esquerdo, calcei uma alpercata. A do pé esquerdo não quis entrar, e eu a prendi também no ombro.
Quando levantei vi um soldado batendo com o fuzil na cabeça de Merguião. De repente, ele estava com o cano de sua arma encostada na minha perna, e eu apontava meu mosquetão contra sua barriga. Atiramos. Caímos os dois e fomos formar uma cruz junto ao corpo de Merguião. Levantei-me devagar. O soldado estava morto, e minha perna não fora quebrada.

Então vi Lampião  caído de costas, com uma bala na testa. Moeda, Tempo Duro; Quinta-feira, todos estavam mortos. Contei os corpos dos amigos. Nove homens e duas mulheres.
Maria Bonita , ferida, escondeu-se debaixo de algumas pedras. Mas foi encontrada e degolada viva. Não havia tempo para chorar. As balas batiam nas pedras soltando faíscas e lascas, ouviam-se; os gritos por toda parte, um inferno. Luis Pedro  ainda gritou: "Vamos pegar o dinheiro e o ouro na barraca de Lampião". Não conseguiu, caiu atingido por uma rajada. Corri até ele, peguei seu mosquetão e, com Zé Sereno, consegui furar o cerco. Tive a impressão de que a metralhadora enguiçou no momento exato. Para mim foi Deus.

No rancho do Minduim encontramos os cangaceiros: Cobra Verde, Novo Tempo, Candeeiro, todos feridos. De lá fomos para a Fazenda Cuiabá.   Muitos se entregaram.
Eu resolvi seguir com um grupo, para Pinhão, onde estava Corisco. Mas no caminho fomos cercados pelas  forças do sargento Zé Luis. Os cangaceiros Cruzeiro, Amoroso, Zé de Vera foram mortos.

Consegui esconder-me até escurecer e então comecei a descer, seguindo o rio. Os
soldados, porém, não haviam desistido. Logo eu os senti na minha pista resolvi tentar driblá-los. Voltei e consegui outra vez furar o cerco. No caminho derrubei um soldado que gritou, antes de morrer: "Pelo amor de Deus, eu não tenho culpa!" Depois contei mais de quinhentos buracos de bala na minha roupa e nos bornais.
Como é que a  gente não morre?
Em Pinhão encontrei Corisco, Zé Sereno e Anjo Roque.(Fonte da Pesquisa: Comunidade do facebook  "O Cangaceiro").

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