quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

CINE JARDIM GARANHUNS

Cine Jardim
Neide de Oliveira Tavares


Num breve passeio pelas ruas de Garanhuns, a minha geração carinhosamente chamada de "geração dourada", não pode deixar de contemplar a Praça jardim, ponto de encontro dos jovens nos anos 50 e 60. Ali localizava-se o Cine Jardim, o principal da cidade, bastante frequentado pelos rapazes e mocinhas da época. Muito bem instalado, um prédio muito bonito, suntuoso até, o Cine Jardim somente enaltecia a cidade, enchia de orgulho o Garanhuense, pois era um dos maiores das cidades interioranas.

Tínhamos vários  cinemas, porém nenhum mais importante do que o Jardim, onde os melhores filmes passavam e acontecia a mais partilhada diversão, tornando-se ponto inicial para duradouras amizades. Era ali que os casais marcavam encontros e começavam namoros, muitos destes terminando em casamento. Além do mais, podia-se ver a elegância feminina, apresentada aos olhos daqueles que ficavam nas calçadas, apreciando a entrada e saída das pessoas, ao inicio e término de cada sessão. Geralmente os rapazes saiam apressados e se postavam na esquina da Avenida Santo Antônio, esperando todo um desfilar. Havia sempre um cumprimento aqui e acolá, pois todo o mundo se conhecia. No outro dia, as conversas: Gostou do filme?" "Fulano estava lá". Você viu? Estava com namorada. "E se houvesse um Cinemascope, ou outra invenção, você ficaria com a sensação de desconforto e perda, se não tivesse ido ver a novidade. Contavam o filme e muitos dos que não assisti àquela época, sei o enredo todo, pois era o assunto principal da semana. Quantas vezes senti grande tristeza porque não pude ir ao filme anunciado...

Cine Jardim - Década de 60 - Na foto
da esquerda para direita: (?), Gerson
Andrade, Laércio Machado Pinto,
Antonio Fotógrafo e Cicero Brauna.
Muitos lembram as estórias alegres e românticas das terças-feiras, chamadas de "sessão das senhorinhas". (Quantas vezes estivemos lá, hein, Ilza e Ilma Frias, quantas vezes, Leni Cipriano?). Eram filmes leves, geralmente musicais, vividos por Debbie Reinolds, Shirley Jones, Gene Kelly, Fred Astaire e Cyd Charisse. E os bang-bangs, com Audie Murphie, Rocky Rogers no seu belo cavalo, e com direito a assistir à série, ao "perigo da série", e tudo o mais que ainda repetia-se aos domingos nas matinês? Isto na década de 50, com o seriado de Flash Gordon (que hoje eu vejo no Multishow), e o chamado "perigo da série" vivido a semana toda pela garotada frequentadora. Geralmente nas matinês eu chegava tão cedo junto com meu irmão e a pessoa adulta que sempre nos levava que eu ficava contando as cadeiras ocupadas, sabendo que,  quando toda a sala estivesse lotada, aí sim, ouviríamos o sinal que marcava o inicio da sessão.

Cedo comecei a frequentar o Cinema Jardim, e aos cinco anos de idade, vi o filme que marcou a minha infância: "Coragem de Lassie". Estrelado por Elizabeth Taylor, muito jovem ainda, quase criança, e muito linda. Guardei cenas deste filme até hoje, pouco sabendo do enredo que não entendia, no entando jamais esquecendo a figura bonita e juvenil da atriz.

Ex-Funcionários do Cine  Jardim
Outros que ficou gravado foi: "Numa ilha com você", a cores, estrelado por Esther Williams, e lembro ainda de outro em preto e branco, cujas imagens vinham à minha memória, sem que eu pudesse identificá-la. Tempos atrás, numa sessão da tarde na TV, reconheci as cenas e verifiquei o nome da fita. Tratava-se de uma estória de guerra, com Robert Mitchum, intitulado Sublime Sedução. Quanta emoção senti ao reconhecer o filme que assistira ao lado do meu pai, que tão cedo me transmitiu o amor á sétima arte.

Quem não se deleitou na época com os épicos: Helena de Tróia, Ulisses, ou com os religiosos: Os dez  mandamentos, Ben Hur, Quo Vadis, e outros mais? Quem pode esquecer os dramas vividos pelos famosos Toni Curtis e Burt Lancaster em Trapézio, ou gary Grant e Debora Kerr em Tarde Demais Para Esquecer, ou mesmo, Juventude Transviada com James Dean, também estrelando Assim caminha a Humanidade, ao lado do bonitão Rock Hudson? E os filmes alegres com Doris Day, comédias românticas com Marilyn Monroe, ou a ingênua Sandra Dee? A geração dourada viveu a época áurea de Hollywood e foi privilegiada com filmes inesquecíveis protagonizados por atores e atrizes célebres. São tantos! todos eles assistidos no Cinema Jardim, onde a empolgação especialmente nos faroestes nos levava a gritar e aplaudir, quando a mocinha era salva da mão dos bandidos, pelo herói. Era uma vibração geral. Deve ser este motivo pelo qual o filme assistido numa sala de cinema é bem melhor, pois dividimos ou somamos emoções.

Durante muitos anos curtimos o Cinema Jardim. Ele já fazia parte da nossa vida. Esta e a razão porque sinto um misto de tristeza e revolta dentro de mim, quando passo em frente ao local onde funcionava o cinema. Somente pessoas insensíveis ou desmemoriadas poderiam permitir a modificação do prédio, transformando-o  num supermercado, que de tão pouco frequentado, logo fechou. Mas o mal já estava feito. Não somos contra o progresso, porém este não requer sempre demolição. A beleza destruída poderia ter sido preservada para a posteridade, com uma utilidade mais nobre, servindo à cultura de Garanhuns. Agora é tarde demais. Por mais que construam, por mais que façam não se restituem as ilusões perdidas, embora tentem reencontrá-las. O sabor do passado ficou perdido para sempre. Fonte da Pesquisa: Livro "Lembranças de Garanhuns e outras mais", de Neide de Oliveira Tavares).

3 comentários:

  1. Perfeito... Tenho 45 anos e ainda vivi bons momentos no Cine Jardim no qual meu pai (o terceiro, em pé de camisa branca e bermuda, na foto dos funcionários) trabalhou e nos ensinou tanto. SAUDADES e parabéns à postagem e ao texto que diz tudo...

    ResponderExcluir
  2. Essa foto é do meu arquivo, rarará. Esse foi um dos dias da remoção das cadeiras e maquinários. Da esquerda para a direita: Zé que era o porteiro; de boné branco e agachado, Dedé da equipe de apoio; com uma boina branca e de mãos na cintura, Sebastião Cardoso, ex-funcionário do antigo INPS, irmão do ex- deputado Zé Cardoso, e muito amigo do meu pai; ao seu lado com um martelo na mão, meu saudoso pai, Manoel Paes, que era bilheteiro e quem anunciava, pelas ruas da cidade no microfone de um carro de som, a sinopse de um novo filme que estava entrando em cartaz; ao seu lado, também seu grande amigo, Ivaldo biu, que era projetista. Ainda posso escutar com o ouvido da saudade a voz do meu pai: "O cine Jardim exibe hoje em duas sessões o filme..."

    ResponderExcluir