quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A HEGEMONIA DE UMA CIDADE

Por João Marques dos Santos


Antiga Estação Ferroviária de Garanhuns - década de 1950

Um monge beneditino, há mais de 50 anos, criou o cognome "Suiça Pernambucana". D. Jerônimo de Sá Cavalcanti, que se encantou com a cidade. As serras, as névoas, o clima frio inspiraram a  definição. Antes, em 1879, Silvino Guilherme de Barros, o Barão de Nazaré, fez comparação igual: "É uma parte da Europa, tirada do Velho Mundo, e colocada em uma região da província de Pernambuco". Discurso feito na Assembléia Provincial de Pernambuco.

O deputado provinciano tinha vindo à então Vila de Garanhuns, para repousar. Também ele se encantou com as beneses do clima, da água, das serras e do povo. À época, já se procurava lugar para tratamento de doenças respiratórias. Assim, reconhecimentos e elogios foram gerando mais títulos. Uns de curta duração. Outros que, melhor harmonizados, ficaram para sempre. "Cidade das flores", ao lado de "Suiça Pernambucana", por exemplo, adjetivam poeticamente Garanhuns.

A altura da cidade chega a 1.045 metros acima do nível do mar. Mais alto no Estado só e Pedra do Cachorro, na Serra da Baixa-Verde, em Triunfo. Situada em serra do mesmo nome - Serra dos Garanhuns - a cidade goza o privilégio de clima ameno e montanhoso. Temperatura média secular de 21º C, com variação máxima de 4º C. Durante o verão, o termômetro pode excepcionalmente indicar 33º C. Nos meses de julho e agosto, o frio pode ser de 9º C. As noites, todas elas frias, tenha sido dia de sol ou de chuva.

Entre colinas, as paisagens são prazerosas. Serras que se descortinam. Azuis ao alcance das máquinas fotográficas. A maioria dentro da cidade, entre ruas e sítios próximos. Outro título nobre: "Cidade das 7 Colinas". Contadas as sete elevações por toda cidade. Praças e avenidas floridas. Palmeiras e eucaliptos cheirosos. Há uma parque deles só. Seu nome homenageia o maior prefeito da cidade até hoje: Euclides Dourado (1925). Jardins por praças e construções suspensas. Como foi a Babilônia antiga. Em qualquer direção, tem-se passeio agradável. As ladeiras são constantes pelos bairros mais antigos. O Heliópolis, entretanto, é plano, recebendo o sol bem ao lado de uma colina: Monte Sinai. Este bairro, surgido há 80 anos é maior hoje que a cidade de origem, E, pela sua grandeza, é também orgulho para a cidade.

Relevo, o clima, águas minerais, paisagens verdes e flores. Tudo em Garanhuns caracteriza uma natureza maravilhosa. É cidade nordestina. Mas de Nordeste tem apenas o sol. E os traços da alma do povo. Um oásis em meio a grande região seca e sofrida. E diz mais o cancioneiro popular: "Onde o Nordeste garoa". Azuis, os montes - como foi dito - e alvos nos meses de chuva e névoa. A gente de Garanhuns veste bem. No inverno, as roupas da estação. Em todos os tempos, é notório o cuidado do garanhuense ao se vestir. As mulheres, bonitas, dá prazer vê-las esmeradas no bom gosto feminino.

A história cultural remonta a começos do século XX. O primeiro colégio foi em 1900, o Quinze de Novembro. Em seguida, O Santa Sofia em 1912. O Diocesano em 1915. Foram estes colégios, com seus internatos, que provocaram primeiro o desenvolvimento educacional e cultural. O Garanhuns, primeiro jornal da cidade, em 1905. Um dos editores, Arthur Brasiliense Maia, considerado depois o "Príncipe dos Poetas" da terra. Uns 20 anos depois, veio o Grêmio Polímático. Iniciou a história do teatro em Garanhuns. E daí para cá, foram vários jornais, grêmios e escritores de nome. Luís Jardim e Celso Vieira, este último foi da Academia Brasileira de Letras. O Grêmio Cultural Ruber van der Linder por 50 anos movimentou e encaminhou a literatura.

Hoje, a cidade é forte, com representantes de fama. Uma academia de letras com prédio próprio e mais de 20 participantes. Academia de Letras de Garanhuns, cujas cadeiras homenageiam a memória da cidade. A cultura popular também é representada por vários grupos. Os quilombolas, com suas danças tradicionais. Reisados, maracatus e outras formas de manifestação artística.

Atualmente, são realizados grandes eventos culturais. O "Festival de Inverno", o maior e de grande repercussão regional. O "Natal dos Sonhos", com iluminação feérica. E, o FLIG - Festival de Literatura de Garanhuns. 

O artesanato vem despontando, com futuro promissor. Já alguns artistas ou artesãos exportam os seus trabalhos. Recentemente, a cidade ganhou a Casa do Artesão. O teatro, de tradição, tem uma casa de espetáculos. O Centro Cultural, que reúne também mais atividades culturais.

Outros aspectos, do comércio e da agricultura, têm uma história grandiosa. Como cidade-pólo, Garanhuns sempre teve o comércio líder da região. Sua atração chega, inclusive, a receber uma boa clientela do vizinho Estado de Alagoas. O Café, principal produto agrícola foi exportado por muito tempo, mas ceder lugar hoje a outras atividades.

A pecuária, sempre existente, é histórica. Integra a grande bacia leiteira de Pernambuco.

Fins do século XVII, quando a região foi descoberta, exploradores das margens do Rio São Francisco, adentrando mais para os sertões, chegaram nestas serras. A fazenda Garcia, depois "Tapera do Garcia", teria sido a mais próspera. E deu início ao povoamento.

Índios e negros, ao lado dos fazendeiros, começaram a população. Os índios, Cariris, vindos mais no norte. Os negros, refugiados, dos domínios dos Palmares. Daí, surgiu a figura central, a chamada "a mãe da cidade". Simôa Gomes de Azevedo, neta do capitão de campo Domingos Jorge Velho. Herdeira das terras, que foram a paga ao sertanista, pela vitória sobre Zumbi. Filha de Miguel Coelho Gomes foi uma heroína. Doou as terras herdadas á igreja. E, depois, as terras passaram para o patrimônio público. Contribuição maior para o surgimento da povoação.

Garanhuns, de uma história também bela, deu seu contributo para a formação histórica do Brasil. Invoca figuras e contos heróicos. E histórias que que se comparam às dos livros romanescos. É uma cidade bonita, onde se reúnem história, natureza e um povo simpático. A hospitalidade da terra significa a maior identidade. A literatura, a elegância, são outras tantas definições que explicam Garanhuns.Fonte:("Anais  do II Festival de Literatura de Garanhuns-FLIG, 2007).

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