domingo, 26 de janeiro de 2014

LULA E O PRIMO BUSH

David Gueiros - 04/2005


Torneiro mecânico, proletário autêntico do ABC paulista, Luiz Inácio Lula da Silva dificilmente poderia imaginar ser parente de gente ilustre. No entanto, mesmo antes de sua eleição, já apareciam “primos” dele, de todos os lados, alguns ilustres e outros nem tanto.

Primeiro foram os parentes de Garanhuns e Caetés, convidados a participar das festividades da posse do novo Presidente da República. Estes vieram a Brasília, viveram aqui seus 15 minutos de glória, e voltaram a Pernambuco para rememorar a ocasião pelo resto da vida.

Um desses primos de Lula, chamado Bartolomeu Atanásio de Morais, autodenominado “genealogista da família da Silva”, deixou em Brasília alguns primores de suas investigações genealógicas, alegando, inclusive, ter traçado a genealogia do presidente até oito gerações. É muita coisa, pois isso coloca Lula como descendente dos pioneiros colonizadores dos Campos dos Garanhuns, nos alvores do século XVIII. Naquela época, uma endogamia grupal foi formada naquele sertão serrano, que incluía gente como Simoa Gomes, neta de Domingos Jorge Velho, Antônio Vaz da Costa, ancestral do conhecido economista e ex-diretor do BID, Rubens Vaz da Costa, e Micael de Amorim Souto, dono do latifúndio da Mochila, ancestral do deputado Antônio Souto Filho (“Soutinho”) de grande distinção na Primeira República, sem falar de Renato Barreto Rego, ancestral dos Atanásio de Morais. Gente fina, toda ela. Sei que não cai bem um proletário que se presa ter ascendentes tão ilustres, mas prossigamos.

De início, Bartolomeu afirmou que, através da família Atanásio de Morais, Lula é também contra parente de José Ermírio de Morais. A partir dessa informação, sabe-se estar o presidente irremediavelmente ligado, por laços de parentesco, à fina flor do capitalismo brasileiro. Não sei se isso alegrará seu coração proletário, porém presumindo que as informações fornecidas pelo “genealogista da família da Silva” são corretas, sem dúvida alguma haverá razão para orgulho. Afinal, José Ermírio de Morais, à sua maneira, é pessoa tão bem sucedida quanto o próprio Lula, apesar de ser da terrível classe capitalista, exploradora do povo.

Todas as informações sobre a genealogia de Lula, afirmou ainda Bartolomeu de Morais, estão registradas na obra do historiador garanhuense, Alfredo Leite Cavalcanti (História de Garanhuns, Vol. I 1968). Essa dica é válida, porém incompleta, pois o livro de Alfredo Leite (como ele era conhecido) não registra a genealogia de todas as famílias garanhuenses, tendo esse pesquisador se limitado a traçar apenas os nomes das linhagens mais conhecidas localmente. Os parentes pobres ficaram de fora. Afinal, pobre parente é carne no dente.

Assim, há um missing link, ou mesmo vários missing links, nas listagens de Alfredo Leite, de modo que não pode um pesquisador de fora, com absoluta certeza, traçar a linhagem do Lula através delas. Dessa maneira, resta aceitar a palavra de Bartolomeu de Morais, como sendo fiel e correta, aceitando inclusive a alegação de que Bartolomeu pessoalmente tem os nomes de todos os ancestrais de Lula, ainda que não revelados, por ocasião da visita do abnegado genealogista a Brasília.

Seguindo a pista dada por Bartolomeu, descobre-se no livro de Alfredo Leite o casal pioneiro, através do qual esse genealogista traça a família de Lula: Renato Barreto Rego e Eugênia Soares de Abreu, ancestrais dos Atanásio de Morais. Estes foram avós de Francisca Pereira do Nascimento e Ana Pereira do Nascimento, que se casaram respectivamente com os irmãos José Paes de Lira e Bernardo Luís da Silva. Êpa! Chegamos perto do nome de Lula, pois a linhagem deste, de acordo com Bartolomeu, passa por este último senhor.

Os dois rapazes acima citados eram filhos de Manuel da Silva Gueiros, e netos de Manuel Dias da Silva. Vindo de Sergipe, Manuel Dias da Silva se casou com Maria Paes Cabral, filha do latifundiário garanhuense Micael de Amorim Souto. Sugere então Alfredo Leite que esse sergipano - homem de posses, pois casou com a filha de um grande latifundiário - era ligado à Casa da Torre, em sua expansão pastoril, muito além das margens do São Francisco. A Casa da Torre, da família Dias D’Ávila - poderosos cristãos novos - chegou a possuir milhares de quilômetros quadrados de terra, indo da Bahia ao Piauí, incluindo ainda trechos de Sergipe, partes da Capitania das Alagoas e pedaços de Pernambuco.

Latifundiários! Que horror! Mais ainda, os da Casa da Torre eram cristãos novos – judeus convertidos a ferro e a fogo. Caso essa informação seja correta, Lula seria então um provável descendente de judeus. Logo ele, que anda arrastando a asa para os ditadores árabes, inclusive trazendo-os ao Brasil, para um encontro em maio próximo!

Como provável descendente de Manuel da Silva Gueiros, Lula estaria então ligado a muitos nomes de distinção no Brasil. Entre estes, o jurista Nehemias da Silva Gueiros, o Ministro Esdras da Silva Gueiros, o Vice-governador do Pará Deputado Antônio Teixeira Gueiros, o Ministro Evandro Gueiros Leite, o Senador e Governador do Pará Hélio Motta Gueiros e outros mais desse nome, que se distinguiram nesta República, na segunda metade do século passado.

Menciona-se essa linhagem Gueiros, porque piores coisas podem ser ditas sobre as ligações desses “contra-parentes dos contra-parentes”. No meio desse caminho encontra-se, horror dos horrores, a família Bush do Texas. Sim, do próprio George W. Bush! Como pode?

Acontece que o pastor Jerônimo Gueiros, de Garanhuns, no começo do século passado, casou com Cecília Frias. Esta era uma das três filhas - Cecília, Dorcas e Prelediana - de Inocêncio Frias, fazendeiro e conselheiro municipal de Garanhuns. Ocorre que a irmã de Cecília Frias, chamada Prelediana, casou com um pastor norte-americano de origem portuguesa, missionário batista, chamado Jepheter Hamilton. Este trabalhou no Brasil por uns tempos, tendo eventualmente ido morar nos Estados Unidos, na Nova Inglaterra. Ao se aposentar, o casal foi morar em Portugal, deixando, porém, os filhos adultos nos Estados Unidos. Esse lado norte-americano da família tem mantido contato com os primos brasileiros, de tempos em tempos.

Assim, a informação que segue vem de Charles K. Ortel, neto de Prelediana, um renomado “investidor independente”, na Nova Inglaterra. A filha mais nova de Prelediana, assim informa Charles Ortel, casou com um colega da Universidade de Yale, chamado Ortel, de tradicional família da Nova Inglaterra, com ligações familiares em todo o pa&i acute;s, inclusive no Texas. Foi mãe de três rapazes, destarte netos da garanhuense Prelegiana Frias, um dos quais recebeu o sobrenome de Gueiros e outro de Frias. Como o próprio Charles Ortel nos informa, através das ligações familiares da sua família paterna, ele é primo legítimo de George W. Bush, no lado americano, e primo legítimo dos filhos e netos de Jerônimo Gueiros e Cecília Frias, no Brasil. Os Ortel são não apenas capitalistas, mas também Republicanos conservadores. Isso não pega bem, para um presidente proletário, ter contra parentes desse tipo.

Os caminhos são tortuosos, como soem ser os levantamentos genealógicos. Porém, presumindo-se que as informações de Bartolomeu de Morais são corretas, então Lula descende mesmo de pioneiros dos Campos dos Garanhuns. Mais ainda, pode-se afirmar que, como descendente de Manoel Dias da Silva, ele é provavelmente de ascendência judaica; é também parente do capitalista José Ermírio de Morais; é parente dos descendentes de Prelediana Frias, e através deles é “primo” (com mil aspas) do companheiro George W. Bush. Que horror! “Contra-parente dos parentes dos contra-parentes da mulher do cavalariço del Rei”, já dizia Jerônimo Gueiros.

Essas conclusões são tão absurdas, que seria bom voltar a Garanhuns a fim de consultar o genealogista Bartolomeu Atanásio de Morais, a ver se de alguma maneira ele não se enganou no levantamento que fez da genealogia de Lula.

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