segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

GARANHUNS POESIA


Garanhuns Natal de 1960




Nelson Fernandes - Garanhuns, Fevereiro de 1959.
 

Na vasta região inculta, adusta,
Em meio às serranias do Nordeste,
A bela Garanhuns desponta augusta!
Oásis que nasceu em pleno agreste.

Sua bela rica, encantadora,
Já pintaram em côres os estetas;
Sua magia viva, sedutora,
Já cantaram, também, grandes poetas.

Talvez enfeitiçado ou delirante,
Fui tentado a cantá-la e no entanto
Como os outros também pequei sonhando...
Não resisti ao seu enorme encanto.

O belo quadro com que me deparo,
Quero esboça-lo, mas... não tenho rima
Para traçar este modelo raro
Que a natureza fez a obra prima!

Se pego a palheta, falta a tinta
Que da mais colorida e mais relêvo.
E a inspiração parece extinta
Para exaltar-lhe o requintado enlêvo.

Quisera que, no mundo fantasista,
Por um momento apenas, eu vivesse...
E na orgia do soberbo artista,
Um turbilhão de idéias eu tivesse!

Embalde firo a lira como meus dedos!...
Os sons procuro - qual louco maestro
Que conhece da música os segrêdos...
Porém, na hora exata foge o estro!

Ó musa! Vem a mim neste momento,
Suprema inspiradora e mãe do verso!
Acende o facho! Dá-me alento!
Quero roubar mais luz ao universo!

Quero beber na fonte cristalina
Da imaginação a pura linfa...
E através da embriaguês divina,
Cantar iluminado pela ninfa!

Foi um dia... vagando nos espaços,
Tonto de luz - o gênio da bondade,
Deixou cair dos seus potentes braços
Um pedaço do céu - como cidade.

Pois, quando nas colinas verdejantes
O astro rei levanta a fronte acesa,
Seus raios formam chuva de brilhantes
Vem banhar-lhe o corpo de Princesa!

Nas tardes invernosas de agosto,
As nuvens vêm descendo lá do céu,
Para beijar-lhe ternamente o rosto...
Formando fino e rendoso véu.

A neblina caindo sôbre o monte,
Vai serenando levemente o fralda...
E a luz crepuscular, com o horizonte,
Formam no céu dourado uma grinalda!

Depois, ao envolver-lhe a noite escura,
Fica sonhando até novo arrebol...
Noiva feliz de perenal ventura,
Por ter um dia despontado o sol!

Mais tarde vem a luz e sôbre ela
Estende o seu lençol bordado a prata...
E dorme Garanhuns - Serrana bela -
Ao som de maviosa serenata!

Assim vive a cidade embalada
Na harmonia que no seio abriga.
E para o sonho - ideal morada
Como parmosa o foi, na Grécia Antiga.

E as deusas emigrante do Oriente.
Novo Éden fundaram nesta terra;
Por isso a poesia está presente
Desde as campinas aos grotões da serra.

Foi cantando esta grande ostentação,
Que fez cair no divinal pecado
"Não tendo suportado a tentação
Um pobre peregrino d'outro estado".

Que aqui chegando como mais um filho
Foi acolhido neste novo teto,
Hoje não sabe se está preso ao brilho
Ou se cativo ao seu grande afeto.

Esse filho sou eu - que nesta casa
A chama dos meus versos vi nascer!
É esta inspiração que me abrasa
Neste momento - um dia vi crescer!

Para dizer tudo que sinto agora
No devaneio que esta terra inspira...
Mesmo que sendo uma voz de fora,
Ao tom saudoso de modesta lira.

Se meu poema não revela tudo
Que representas com real beleza,
Perdoa Garanhuns... - só quis, contudo
No meu delírio decantar riqueza!

Se aqui viver ao decorrer dos anos,
Cantarei sempre - porque tu existe
Serás meus derradeiros desaganos...
O meu consôlo para os dias tristes...

E, ao terminar a minha pobre vida,
Sentindo o frio do feral inverno,
Que tu sejas a última guarida,
Para que eu viva neste sonho eterno.


Nelson Fernandes do Nascimento

Natural do Estado do Ceará, este mimoso poeta para aqui foi removido como funcionário dos Correios e Telegráfos. Amante da Cultura, das letras completou o curso secundário no Colégio Diocesano de Garanhuns, e não se limitando a isso, matriculou-se na Faculdade de Direito de Caruaru, para onde conseguiu sua transferência. Ali reuniu grande parte das suas produções em  versos e, impresso na Tipografia Tavares - Editora, publicou um livro - Aurora da Redenção - que, não obstante apelos dos seus colegas dali, em mais uma demosntração de amor à cidade que cantou, preferiu fazer o seu lançamento na sede do Grêmio Cultural Ruber van der Linden, aqui em 11 de outubro de 1963.

Nelson Fernandes do Nascimento é aqui elemento de grande destaque no meio cultural principalmente como sólio do Grêmio Cultural Ruber van der Linden, onde sempre empolgou-o consócios e visitantes, declamando que é exímio poemas, tanto de sua autoria como de outros poetas.(ficou mantida a grafia da época. fonte: "Livro História de Garanhuns" volume II de Alfrêdo Leite Cavalcante).

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