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Monday, July 22, 2013

O SHOW HISTÓRICO DE CAETANO EM GARANUNS

Do Blog do Roberto Almeida



O jornalista Júlio Cavani, no Diário de Pernambuco, fez a previsão de que Caetano Veloso faria um show histórico em Garanhuns. Acertou em cheio. No palco da Guadalajara, na madrugada deste domingo, não estava um artista qualquer. O cantor e compositor baiano, que começou a brilhar na distante década de 60, com a contagiante “Alegria, Alegria”, é quase uma síntese ou, paradoxalmente, uma antologia da Música Popular Brasileira.

Quando noticiei em abril que Caetano poderia ser a grande atração do Festival de Inverno de Garanhuns, eu mesmo fiquei na dúvida. E imaginei que grande parte dos leitores só acreditaria na presença do cantor no FIG quando ele pisasse o principal palco do evento.

Acreditava ser bem mais fácil vir Ana Carolina, Djavan ou a dupla nada a verJorge & Mateus do que o compositor de Vaca profana e Tigresa.

Caetano Veloso não é pra qualquer um.

O show apresentado em Garanhuns, com músicas do último trabalho do artista, Abraçaço, traz canções novas, desconhecidas, numa linha experimental iniciada no disco produzido pelo baiano para Gal Costa.

As letras e músicas criadas não são dançantes, nem fáceis, nem populares ou populistas. É a obra de um homem maduro, que se assume velho e triste.

Não por acaso uma das principais canções do CD Abraçaço e do show é intitulada Estou Triste.

“Estou muito triste
Por que será que existe o que quer que seja
O meu lábio não diz
O meu gesto não faz
Eu me sinto vazio e ainda assim farto”

Assim cantou Caetano em Garanhuns para um público imenso, um dos maiores de toda história do Festival de Inverno. Muitos queriam ouvirLeãozinho, ou Sozinho e ficaram decepcionados porque o artista não desfilou seus sucessos mais populares.

Mas tinha gente na praça que conhece a obra de Caetano, sabe de sua grandeza e compreende a nova fase do artista.

Tinha gente de tudo quanto era lugar como hipnotizado, vivendo um sonho, um momento mágico, curtindo uma iguaria rara que tem a ver com a Bahia e o Brasil; com ele mesmo e Chico Buarque, Maria Betânia, Noel Rosa, Gal Costa, Dorival Caymmi, Paulinho da Viola, Roberto Carlos... Enfim a Música Popular Brasileira.

Em meio a tanta coisa bastou uma música do show para justificar o esforço de estar na praça às duas e trinta da madrugada assistindo Caetano Veloso. “Mãe”, gravada por Gal Costa no disco ainda em vinil do final da década de 70, é uma das pérolas do repertório do compositor e ele a interpretou lindamente.

Leia o que disse Caetano ao nosso Diário, ao explicar a inclusão de Mãenesse show que já percorreu as principais capitais do país e chegou a privilegiada Garanhuns:

“Havia o fato de eu nunca ter cantado essa música. Eu a achava muito triste e tinha até um medo supersticioso dela. Mas Abraçaço tem tantas canções de tristeza que Mãe, uma das antigas que me pedem para cantar, fica num contexto adequado. Depois, minha mãe morreu. Não estou mais em situação de ter medo de tristeza”.

Na opinião pessoal do cronista Mãe foi o momento mais bonito do show. Mas a apresentação de CAE teve outros instantes igualmente marcantes. Como quando cantou Reconvexo, uma das que mais animou a multidão.

“Quem não rezou a novena de Dona Cano
Quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor
Quem não amou a elegância sutil de Bobô
Quem não é Recôncavo e nem pode ser reconvexo”.

Muito conhecida na voz de Betânia a música também é linda com Caetano.

Legal também quando Caetano chamou Arto Lindsay ao palco e o apresentou como uma pessoa de Garanhuns. Para quem não sabe o músico, conhecido internacionalmente, é americano, mas morou na infância e adolescência na Suíça Pernambucana. Ele é filho de “Seu Artur”, que foi diretor do Colégio XV de Novembro. Apesar de ter voltado para os Estados Unidos com a família nunca esqueceu os tempos que morou em nossa cidade. Por isso Arto é americano-brasileiro-garanhuense.

Foi tendo ao seu lado o americano que Caetano cantou Você Não Entende Nada, conhecida desde o dueto com Chico Buarque, na década de 70, quando os dois juntaram essa música com Cotidiano. Daí o baiano ter incluído a frase todo dia várias vezes, na apresentação deste domingo, sem ter dado continuidade ao “complemento” feito por Chico tantos anos atrás.

Quando eu chego em casa nada me consola
Você está sempre aflita
Lágrimas nos olhos, de cortar cebola
Você é tão bonita
Você traz a coca-cola eu tomo
Você bota a mesa, eu como, eu como
Eu como, eu como, eu como você...

Caetano ainda cantou Escapulário (“No Pão de Açúcar de cada dia...), Odeio, A Luz de Tieta e algumas outras canções que não fazem parte do último disco.

De Abraçaço merecem ser citadas ainda versos como  

“Eu pensava que nós não nos desgrudaríamos mais
O que fiz pra merecer essa paz
Que o sexo traz?”

E a instigante  “Eu Sou Homem”:

"não tenho inveja da maternidade
nem da lactação
não tenho inveja da adiposidade
nem da menstruação
só tenho inveja da longevidade
e dos orgasmos múltiplos
e dos orgasmos múltiplos
eu sou homem
pele solta sobre o músculo
eu sou homem
pêlo grosso no nariz
não tenho inveja da sagacidade
nem da intuição
não tenho inveja da fidelidade
nem da dissimulação
só tenho inveja da longevidade
e dos orgasmos múltiplos
e dos orgasmos múltiplos
eu sou homem
pele solta sobre o músculo
eu sou homem
pêlo grosso no nariz".

Enfim, foi um show histórico para Garanhuns. De um artista múltiplo, completo e genial. Muito em forma nos seus quase 72 anos, embora tenha admitido ao repórter pernambucano Júlio Cavani que a idade está pesando. Mas se Deus quiser Caetano Veloso ainda vai viver muito, produzir outras tantas canções belas como Sampa

Basta ele sair da vida da gente quando tiver passado dos 100, como fez sua mãe Dona Canô.

A morte da matriarca deixou o artista triste, mas todos nós estamos alegres por Garanhuns ter recebido no Festival de Inverno um dos melhores cantores, compositores e intérpretes deste país. 

Obrigado Caetano.

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