terça-feira, 28 de maio de 2013

SOUTO FILHO: O POLÍTICO E AS SUAS RAÍZES

Do poder, meu pai não sentiu jamais o desvarío, nem o considerou um bem de raiz.
Da sua tolerância, da moderação e da compreensão humana fizeram dele um autêntico líder.
Ele soube ser digno de si mesmo e foi grande em tudo: na força do seu talento, na resistência do seu caráter e nas dimensões do seu coração.
Procurava na medida do possível, atender a todos que lhe solicitasse ajuda, e as mágoas acumuladas após a Revolução de 1930, nunca o deixaram negativista ou revoltado.

Sempre sereno e dócil, meu pai jamais guardou ressentimentos, nem mesmo dos mais ferrenhos adversários. Minha mãe, habitualmente comentava que ela demorava mais a esquecer as agressões e injustiças, feitas ao meu pai, do que o próprio.
O meu pai tinha virtude de se apiedar dos ingratos, de esquecer a fraqueza dos pérfidos e de perdoar os frustrados e desleais.
Embora muito criança, nunca descobrí no semblante de papai, um vestígio sequer de mágoa recalcada. Tudo nele, nos gestos, na postura, no falar manso, retratava um espírito desarmado, face às muitas decepções e desencantos, que um homem público enfrenta.
Conhecera os mais recônditos escaninhos da nossa história política enquanto viveu. 
Guardo dele, essa imagem de homem e de pai cheio de candura.A força das suas raízes de homem do agreste, nunca lhe arrefeceram o ânimo.
Foto: Souto Filho, D. Chiquita com os filhos Souto
Neto, Esther e Gerusa (no colo), e a Professora
Celeste Dutra, na casa do Praça Dom Moura, 44.
Garanhuns, a sua muito amada Garanhuns nunca deixou de lhe representar a terra da promissão e era com o nome da sua terra natal nos lábios, que lhe sentíamos a alegria de viver e lutar. Era inexcedível o seu amor filial, o seu carinho por Garanhuns, para onde encaminhou todos os seus pensamentos e ações no decurso de uma vida orientada no sentido do bem público da sua terra. Conseguiu oficializar os primeiros colégios de Garanhuns, pois achava que educação e instrução de um povo, representavam a principal meta de progresso.
Ele jamais fez política baixa,de perseguição ou de corrupção, nos legando um nome acima de qualquer suspeita. Quando se encontrava na sua função de Curador Geral de Órfãos e Interdictos, zelava com maior probidade e lisura, sobre os bens dos orfãos e doentes mentais.Zelava como fosse o próprio pai deles, nos seus interesses.

Ele possuía como poucos, o sentimento da moralidade, que todo homem público deveria ter, pois hoje vivemos uma inversão de valores.O julgamento histórico de um político, não é o que passa, é o que fica.

Certa vez, o Governador Carlos Lima Cavalcanti, que era seu adversário político, mandou através do líder do seu governo, convidá-lo para um encontro, ou audiência no Palácio do Governo.
Prontamente, Papai retrucou ao emissário, que no Palácio, ele não poria os seus pés, mas, que poderia receber sua excelência, em sua residência. O Governador compareceu à nossa casa e longamente conversou com meu pai, às portas fechadas. Mamãe mandou o nosso copeiro servir cafezinhos e sucos de frutas na sala.


Papai que consumiu grande parte da sua existência, exercendo mandatos políticos, com exemplar dignidade e discrição, se  vivesse nos tempos atuais, classificaria de acinte à pobreza, as mordomías de nossos Três Poderes. Modesto e simples, não gostando de ostentações, logo porém, se fazendo respeitar e admirar por seu comportamento irrepreensível. Homem plural, estendeu seu zêlo e afeto da família para a grande família maior: seus correligionários, seus seguidores.

Filho modelo e dedicado aos pais, também o foi às suas irmãs: Marieta, Alice, Amabilia e Euridice. Ele era o filho do meio,  mais moço que Marieta e Alice e mais velho que Amabilia e Euridice.
Antes de tudo, meu pai foi um telúrico, amou profundamente sua gente, sua terra, suas raízes.

Já dizia Oswaldo Aranha, que cada homem carrega sobre seus ombros a sua geografia. Papai tinha o seu universo, do qual, eu infelizmente tão pouco participei. Meu pai nunca se desligou das suas origens, dos seus princípios e valores morais. Pela vida afora, nunca deixamos de ser o que somos.

A sua trajetória política foi pontilhada de sucessos, mas também de ostracismo, após a Revolução de 1930. Os seus 26 anos de vida pública, iniciada aos 25 anos de idade, deixou marcas onde passou, pela sua vida limpa, honrada e acima de tudo por um espírito conciliador. Nunca subjugou ou tripudiou sobre o vencido. Foi um verdadeiro democrata, um autêntico liberal e amigo dos seus amigos.

As nossa idas a Garanhuns, em fins dos anos vinte, eu ainda tão pequena, mas, suficientimente precoce, para me recordar de alguns detalhes e acontecimentos. Todos nós, Papai, Mamãe e os meus dois irmãos mais velhos, usávamos guarda-pós para nos livrar da poeira que a locomotiva levantava, já que naquela época, não havia estradas de rodagem asfaltadas.

A estação de trem de Garanhuns, regorgitava de gente com a chegada do seu chefe político. A Banda de Música do maestro Francisco Ribeiro e Silva, tocava apresentando as boas vindas aquele homem, um dos legítimos representantes do Estado no parlamento. Fogos eram lançados sob a direção do Sr. José Francisco Ribeiro e Silva, mais conhecido como José Fogueteiro.

A minha Babá Celina, impecável no seu uniforme, com avental engomado, me tirava da plataforma, receiosa dos empurrões, com a multidão se comprimindo em torno de Papai ao receber os primeiros cumprimentos dos parentes, amigos e eleitores.

Rumávamos em seguida para a nossa casa, situada na Praça Dom Moura, número 44 na época uma das mais bonitas e confortáveis casas de Garanhuns. Não tínhamos nenhuma mordomia, apenas um Cabo da Polícia Militar a mandado do delegado local, Nelson Leobaldi, que ficava em nosso portão como segurança, que naquela época se  chamava ordenança. Papai nunca solicitou do Delegado essa regalia, que adotava por livre e espontânea vontade. A casa possuía espaçosa varanda, porão habitável, onde meu pai instalou seu gabinete. Parece que estou a vê-lo, guarnecido com lindos móveis de jacarandá e uma mesa redonda com tampo de mármore, decorada com estátua de bronze, que hoje pertence ao meu irmão Souto Neto.  Mamãe, esmerava-se em trazê-la numa ordem perfeita.Não consentia que riscássemos o polido assoalho, nem que espalhássemos brinquedos pelos cantos. Brincávamos no porão e no jardim, muito florido e tratado.O clima privilegiado da montanha contribuia para a linda floração.No porão Papai tinha o seu gabinete onde recebia todas as manhãs os seus correligionários e amigos particulares.

Quantas lembranças, me trazem à casa 44 da Praça Dom Moura. As férias naquela espaçosa casa, eram de excepcional deslumbramento. Naquela atmosfera de lar, recebíamos pessoas ilustres do governo, amigos e  parentes, que iam usufruir dos bons ares de nossa Garanhuns.

Lembro-me, que, ao entardecer algumas vezes, meu pai percorria a pé, as ruas de Garanhuns, andando a frente dos seus correligionários e amigos. Ele ia em primeiro plano e os demais o seguiam. Observava à distância e apesar da minha pouca idade, os identificava: Severiano Moraes, Euclides Dourado, Sales Vilanova, Abdias Branco, João Café, Godofredo de Barros, Antônio Brasileiro, Joaquim Branco, Luiz Guerra, Urbano Vitalino e outros que  não me ocorrem no momento.

Que pai seria aquele, que marcava uma época e uma presença naquela cidade, que ele tanto amava? A política é uma atividade coletiva e papai, chefe político o devia também aos seus seguidores, correligionários e fiéis amigos. O líder era ele, que sabia bem dirigir os seus liderados. Naqueles tempos já tão distantes, não poderia avaliar o peso da sua influência política no Estado.

Os amigos eram muitos em Garanhuns, no Recife e no Rio de Janeiro, porém os fraternais e mais chegados eram Eurico de Souza Leão, Elpidio Branco, Maviael do Prado, Tomaz Lobo, Arnaldo Bastos, Júlio Santa Cruz, os compadres Fábio Maranhão, José Eustáquio da Silva e Silviano Rangel Moreira, Caraciles Leite, Francisco Pereira, sem esquecer os primos Soriano Furtado, Francisco Furtado Neto e João da Silva Souto, o nosso saudoso Bida, e relembrando também no Rio, Francisco Pessoa de Queiroz, Cristovão Xavier Lopes, deputado José Braz, filho do ex-Presidente Wenceslau Braz e o Senador Jones Rocha, de São Paulo.

Meu pai, nascido na então Vila de Brejão, que pertencia a Garanhuns, na Fazenda Frexeiras, era descendente direto do casal Micael d'Amorim Souto e Maria Paes, que habitava em 1706, o Sítio Môchila, tronco origem da mais antiga família garanhuense, de onde vieram apesar de sobrenomes diferentes: os Soutos, os Rodrigues,os Gueiros, os Furtado, os Barros, os Vaz da Costa, os Vilela e os Paes. Denominavam-se de Môchileiros todas essas famílias, oriundas do casal d'Amorim Souto e Maria Paes.(Fonte da Pesquisa: Livro Memórias de Amor de Gerusa Souto Malheiros).

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