domingo, 19 de agosto de 2012

O VELHO GENERAL


José Rodrigues da Silva (in memoriam)

Cabelos brancos e carapinhados, lábios grossos e maxiliar inferior visivelmente saliente, surgiu nesta cidade, lá pelas bandas do Sítio Várzea, um preto velho que atendia pelo apelido de General. O mundo inteiro vivia a tirania da segunda guerra mundial. A rapazeada dividia-se em opinião, muitos procuravam o Exército para voluntariamente irem à guerra; outros fugiam para lugares mais distantes, enquanto isso, várias nações pegavam fogo. Nos dias de domingos ou feriados, as pessoas adultas reuniam-se para falar sobre os acontecimentos bélicos, ali, também, estava o velho General. Com seus oitenta anos e não perdendo tempo, General dizia haver servido na Guerra do Paraguai, ao lado do General Osório:

-Combati valentemente as forças de Solano Lopes e trouxe a vitória para o Brasil. Estou no final da vida, mas se me derem as mesmas armas daquele tempo, irei sozinho para a Alemanha, arrancar de unhas o bigode de Hitler.

Essas aventuras contadas pelo preto velho, valeram-lhe o apelido de General. General era diferente de muitas pessoas que se zangam quando tratadas por apelido. Ele quando passava por alguém que lhe chamava de General ao invés de ficar zangado balançava a cabeça em sinal de agradecimento, como que exigindo respeito. Quando alguma pessoa perguntava por sua origem, respondia:

-Sou filho de Africanos, pertenço a raça que colaborou para o engrandecimento deste país durante sua colonização.

General não respeitava os anos, trabalhava de sol a sol no eito dos fazendeiros de café da região, e quando tinha alguma folga cuidava de sua pequena roça, o espojeiro, como ele mesmo chamava. Os anos foram passando e com eles foram desaparecendo o vigor físico do velho guerreiro. Um certo dia General recebeu um ultimato de um certo fazendeiro que o mesmo teria vinte e quatro horas para deixar a fazenda. Aqui não tem lugar para quem não pode trabalhar.

No mesmo dia, às quatros horas, de alforje às costas se despedia do Sítio Várzea e também daquele para quem na mocidade dera tudo para seu enriquecimento. Sem forças e sem dinheiro para realizar uma grande viagem, General se localizou numa casa velha existente na Rua das Tábuas, nas proximidades da Vila Maria pertencente ao Capitão Tomaz da Silva Maia. Alí seria o local ideal para o preto velho que carregava noventa anos pedir esmolas. Meses depois, desabou uma parede do casebre onde residia. Como reconstruir, se não dispunha de um tostão, e as esmolas que recebia davam somente para alimentação. De repente, veio-lhe uma idéia, pedir ao prefeito do município uma ajuda de alguns tijolos e telhas retiradas das construções da prefeitura. Na época, o prefeito era Dr. Celso Galvão que embora sendo civil, era militarista de coração. Apoiado num cacete que lhe servia de pernas, subiu a ladeira do açude e veio em direção a prefeitura falar com o interventor. Com grande esforço conseguiu chegar até ao local desejado. Mas, como falar com Dr. Celso Galvão se ninguém legava para sua pessoa. Triste e de cabeça baixa, sentado nas escadaria do prédio, esperava uma difícil oportunidade para se avistar com o chefe do município. De repente, inesperadamente, passou por ali o Jornalista Ulisses Pinto que ia em direção ao gabinete do prefeito. Como todo mundo sabe, Ulisses sempre foi o maior encrenqueiro político desta cidade. Com medo das encrencas de Ulisses, Celso Galvão lhe dava passagem livre. Penalizado, o Jornalista perguntou ao velho General o que estava fazendo aqui, e de lágrimas aos olhos, General contou a Ulisses a razão de sua vinda a prefeitura. Minutos depois estavam chorando os dois. Foi ai que Ulisses falou : O senhor fala agora mesmo com o Dr. Celso.
Como sabia do prestígio que Celso Galvão desfrutava nos meios militares, ao entrar no gabinete, disse:

- Dr. Celso, o General faz uma hora que espera para falar com o senhor.

Dr. Celso pulou da cadeira, chamou o contínuo e disse:

- Arrume imediatamente o gabinete que eu vou receber um General.

Ulisses Pinto por haver mentido procurou dar o fora, porém minutos depois foi introduzido no gabinete do prefeito, o preto velho. Celso ficou danado de raiva com Ulisses, porém, como já o conhecia nada procurou fazer, entretanto atendeu ao General de mentira. Assim viveu General no meio da sociedade sem ser visto por ela. Talvez, quem sabe, seja hoje, no céu um General de verdade. (Fonte: Livro "Almas Anônimas", foto: antigo Cine Glória Avenida Santo Antonio, século passado, arquivo pessoal).

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