quinta-feira, 26 de julho de 2012

DELMIRO GOUVEIA TRAZ PRIMEIRO AUTOMÓVEL À GARANHUNS

EM 20 DE AGOSTO DE 1916 TEVE ENTRADA NESTA CIDADE, VINDO DA PEDRA, ALAGOAS, O PRIMEIRO AUTOMÓVEL, DE PROPRIEDADE DO SR. DELMIRO GOUVEIA.

Delmiro Augusto da Cruz Gouveia(foto) não foi somente o pioneiro do aproveitamento de Paulo Afonso, foi também o grande precursor na criação da grande indústria na zona das caatingas. Ainda lhe coube a primazia na introdução do automóvel no sertão nordestino. Adquirindo carros europeus, abriu às próprias custas 520 km de estradas de rodagem, ligando a Pedra à cachoeira, aos centros urbanos vizinhos, Água Branca e Mata Grande e as portas de trilhos da "Great Western", na cidade alagoana de Quebrangulo, passando a rodovia por Santana do Ipanema e Palmeira dos Índios, e na cidade pernambucana de Garanhuns, via Santana e Bom Conselho.

A construção das estradas foi iniciada em 1911, a partir da Pedra. Ainda no primeiro semestre de 1912, os automóveis do Coronel Delmiro já alcançavam Santana de Ipanema. As novas estradas continuaram sendo abertas nos sertões alagoano e pernambucano e tiveram de galgar o rebôrdo meridional da Borborema, através das serras do Muro e de São Pedro, para atingir a região do agreste, onde localizavam os terminais ferroviários.

Duas turmas de trabalhadores mantinham estas primeiras rodovias sertanejas em bom estado de conservação, de modo que foi deslizando sobre elas que os caminhões "Ford" e os automóveis "Chevrolet", alguns anos mais tarde, ganharam o caminho do sertão alagoano, enquanto muitas outras regiões do país continuavam dependendo do carro de bois e do lombo de animais.

Um elegante "Fiat", um "Austin" grande e outro pequeno e um imenso "N.A.G." obedeciam docilmente a uns mágicos chamados "Seu" Cruz, João de Deus, Euclides ou Luís Maranhão, Zé Pó e Campina. "Seu" Cruz era um gênio, sabia até afinar piano. E da Pedra até Garanhuns, o povo conhecia cada um dos automóveis, pelo som da buzina. Lá em Santana do Ipanema, Antônio Bocão nunca se enganou: o carro fonfonava na grande curva do rio, a meia légua da cidade. Daí a pouco o automóvel parava na frente do sobrado do Coronel Manoel Rodrigues: era Delmiro, Iona, Adolfo Santos, Borella, Ferrário ou o médico da Pedra, de passagem para Quebrangulo ou Garanhuns.

Enquanto o hospede jantava lá em cima, o chauffeur se desdobrava em complicados serviços: colocava óleo e gasolina, bulia numa pequena bomba misteriosa e preparava os faróis de acetileno para viajar durante a noite. Era preciso chegar na estação, antes do trem partir. E o carro puxava 60 km por hora.

Com as rodovias de acesso à cachoeira de Paulo Afonso, começaram as excursões. Em fins de julho de 1915, o então Ministro da Agricultura, Dr. José Bezerra, em companhia do Governador de Alagoas, Dr. João Batista Acióli, do Deputado Federal Pernambucano, Dr. Manoel Borba, do Escritor Bastos Tigre, Secretário do Ministro e dos engenheiros Eugênio Gudin, Jungsted e Butler, foi visitar a cachoeira. Os excursionistas fizeram a viagem de Quebrangulo a Pedra, em três automóveis, durante sete horas, percorrendo 300 km, a tardinha e na noite de 28 de julho. Na manhã seguinte, visitaram a fábrica de linhas e a usina hidrelétrica.

O Ministro da Agricultura e sua comitiva retornaram a Maceió no dia 30. E o "Diário de Pernambuco" de 2 de agosto já publicava uma entrevista do Escritor Bastos Tigre, que descreveu a excursão e se mostrou encantado com a bela iniciativa do Coronel Delmiro Gouveia, o primeiro industrial brasileiro a conquistar para a indústria uma parcela desse formidável tesouro que a natureza guardava ali.

Nos meados de 1916, Manoel Borba, na qualidade de Governador de Pernambuco, foi inaugurar, oficialmente os trechos da rodovia de Delmiro Gouveia, no território de Pernambuco. A comitiva foi de trem até Garanhuns, no dia 22 de agosto, e dela faziam parte o próprio Coronel Delmiro Gouveia e seu amigo de Santana de Ipanema, o Coronel Manoel Rodrigues da Rocha. Às 13 horas, os excursionistas deixaram Garanhuns ocupando quatro automóveis. Às 9 da noite, chegaram a Santana do Ipanema, jantando no sobrado do Coronel Manoel Rodrigues.
Ao que consta da minuciosa reportagem do historiador Mário Melo do "Diário de Pernambuco" de 28 de agosto, o Governador Manoel Borba e sua comitiva, depois de ligeiro descanso na confortável vivenda, de ouvido o funcionamento de um colossal miraphone, recomeçaram a viagem, saindo lá de Santana às 10 horas da noite e chegando ao centro "agro-fabril-mercantil" da Pedra às 2 da madrugada do dia 23. A fadiga era geral e a ordem foi dormir, apenas 4 horas, porque às 6 a voz possante do adiantado industrial acordava os excursionistas.

Já funcionavam, então, na primeira vila operária sertaneja, quatro escolas, serviço médico, cinema e banda de música. A fábrica trabalhava de segunda-feira ao sábado, em três turnos de 8 horas.

O Governador Manoel Borba e sua comitiva percorreram a fábrica, visitaram a usina hidrelétrica, assistiram a uma sessão de cinema e ainda foram homenageados com uma retreta. No dia 24 de agosto, às 5 horas da tarde, deixaram a Pedra, pernoitando em Santana, onde foram hospedados pelo Coronel Manoel Rodrigues. Na sexta-feira, 25, viajaram para Garanhuns de onde sairam de trem para o Recife, às 10 horas da noite.

Na referida reportagem de 28 de agosto, o "Diário de Pernambuco" informou, textualmente: "A estrada que S. Excia. inaugurou tem 246 km, dos quais 115 em território pernambucano, ligando Garanhuns a Bom Conselho e estas localidades a Quebrangulo, Santana do Ipanema e Pedra, em Alagoas.

O Historiador Oliveira Lima e os Jornalistas Plínio Cavalcanti e Assis Chateaubriand também visitaram a Pedra, no tempo de Delmiro Gouveia. Ficaram impressionados com o surto civilizador que ali encontraram.

Aquele famoso intelectual, que conhecia o mundo inteiro: ficou admirado com a obra de Delmiro Gouveia: "Nunca supus, e com dificuldade o acreditaria se o não tivesse visto, que no alto sertão se encontrasse o que debalde de procuraria na zona açucareira ou mesmo nas capitais destes estados, num resultado devido simplesmente, um simplesmente que é tudo ao empenho de um homem pôs em construir um edifício moral da solidez e do brilho do que me foi dado admirar".

O Jornalista Plínio Cavalcanti descobriu na Pedra uma verdadeira Canaã sertaneja, "tão branca e limpa, que a primeira vista julguei-a um grande algodoal de capulhos alvejantes". E Assis Chateaubriand percebeu na obra admirável de Delmiro Gouveia uma resposta magistral a "Canudos", com a substituição do fanatismo e do banditismo pela moderna civilização industrial, baseada na ciência e na técnica.

Menos de dois anos após o desaparecimento do criador desta imensa obra, foram conhece-la Dom Sebastião Leme, Arcebispo de Olinda e Recife e Dom Duarte Leopoldo, Arcebispo da Capital paulista. Dom Duarte e Dom Leme, acompanhados pelo Dr. Tarcilo Leopoldo e pelo Cônego Benígno Lira, partiram do Recife em 25 de setembro de 1919, pernoitando em Garanhuns. No dia seguinte, viajando de automóvel, chegaram a Pedra, às 8 horas da noite. No sábado, 27 de setembro, visitaram a cachoeira de Paulo Afonso e a fábrica de linhas. A noite em majestosa solenidade litúrgica, o Arcebispo de São Paulo, Dom Duarte Leopoldo, sagrou a igreja de Nossa Senhora do Rosário, primeiro templo construído no centro industrial das caatingas.

Regressando ao Recife, Dom Duarte concedeu longa entrevista ao "Diário de Pernambuco" de 1º de outubro, em que se podem ler palavras de grande entusiasmo: "Venho positivamente maravilhado. Se em minha vinda ao Norte só me fosse ver Paulo Afonso, digo-lhe com franqueza que Paulo Afonso pagava a viagem. Tive ocasião de ver como é possível desenvolver a civilização e vi a própria civilização em pleno coração sertanejo".

Outra importante visita feita à Pedra foi do inglês Arno S. Pearse, Secretário Geral da International Federation of Master Cotton Spinners and Manufacturers Associations, durante os meados de 1921.

Com a sua reconhecida autoridade no assunto, Mister Pearse, no documentado relatório das observações que fez no Brasil, diz que a Fábrica da Pedra merece especial referência, devido ao extraordinário trabalho e empreendimentos pioneiros, que foram exigidos na sua instalação, trabalho inteiramente iniciado e concluído por um brasileiro, o cearense Delmiro Gouveia.

Depois de elogiar a vila operária e a disciplina reinante no centro industrial, Mr. Pearse escreve: "Os operários são bem comportados, bem vestidos e limpos. Quando vão para o trabalho, estão mais bem trajados do que o operário de fábrica europeu médio em dia de domingo.
O Coronel Delmiro Gouveia foi assassinado em 10 de outubro de 1917, em seu chalé na Pedra.
(Fonte da Pesquisa: Livro "Delmiro Gouveia O Pioneiro de Paulo Afonso" do Escritor Tadeu Rocha).

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