domingo, 24 de junho de 2012

Encontro dos Ex-Prefeitos


Nelson Paes (em memória)

A lua-grande boiava num céu cinzento, naquela noite fria do mês de agosto. Eu resolvi como dizia Mario Sette, "Arruar". E sai andando pelas ruas da cidade. Eu que não sou de ir em cadeia, hospital ou cemitério, não sei porque, fui bater com os ossos, lá para as bandas do Mundaú, bem em cima do São Miguel, onde um dia eles vão descansar. O medo se apoderou de mim, no entanto aos poucos foi indo embora. Não era tarde, mas também não era cedo. Dormia a esplanada da Boa Vista. Aqui alí, bruxoleava a luz de um candeeiro, dentro de uma casinha humilde, do arruado ao lado do outro dormitório. Do cemitério, palavra grega, que significa dormitório. Afinal, Manuel Bandeira não disse que "estão todos dormindo"?.
De repente ouvi vozes uma conhecidas umas, desconhecidas outras. Não eram soturnas nem guturais.
Era um grupo de pessoas que conversavam, dialogavam. Não batiam papo; porque isso é próprio dos animais. Me aproximei e reconheci todos eles. Alguns eu conhecera pessoalmente; outros, tinha visto o retrato.
Eram todos ex-prefeitos de Garanhuns: O Major Antônio da Silva Souto; José de Almeida; Júlio Brasileiro; Euclides Dourado; Aloísio Souto Pinto; Francisco Figueira; Celso Galvão; Álvaro Rocha e Mário Lira. Figueira, de terno azul-marinho, era o mais elegante do grupo. Parecia um príncipe.
Álvaro Rocha falou ao major Antônio da Silva Souto: "Me dá uma pitada do teu tabaco", no que foi atendido tirou um pouco de rapé, inalou e deu dois espirros que feriram o silêncio daquele campo santo. Celso Galvão perguntou: "Quais são as novidades"?. Euclides Dourado respondeu: "A sucessão municipal". Figueira entrou na conversa: "E quem são os candidatos? Tem algum da UDN?. Tem, disse Aloísio Pinto; mas sem a minha participação quem vai ganhar são estes caras do PSD. Aloísio, falo Mário Lyra, "você está por fora, não sabe que não é mais como no nosso tempo. PSD e UDN, já era, hoje os partidos tem outras siglas: PP, PDT, PDS, PT." Tudo a mesma coisa, seu Mário.
E o seu filho Fernando? "Ah! Seu Mário, aquilo é um inexperiente, foi para Recife, quando devia ter ficado mantendo o meu nome na política de Garanhuns. Afinal, é o meu herdeiro.
Coisas da política! Coisas da política! Coisas da política, falou Soutinho, que acabava de chegar: Deu boa noite à todos e apertou a mão de Euclides Dourado: "Soutinho, você aqui, você não mora lá no Recife"?. "E o que tem isto? Álvaro Rocha não está morando no Rio de Janeiro"?, Figueira no Recife"?
Uma baforada de charuto, a fumaça como que incensando o ambiente: Elpídio Branco: "Hoje prefiro ouvir".
E os candidatos? perguntou José de Almeida. "Se dependesse da minha indicação, seria aquele menino de João Marinheiro, como é o nome dele? Ah! Sim, Ciro Ferreira Costa. Álvaro Rocha falou ". "Bom, muito bom", disse Figueira, acrescentando: Substituir esse Ivo, é difícil". É, falou Mário Lyra: "E a oposição?, reconheço que hoje, ela tem outros trunfos; afinal, o custo de vida; e a inflação". "Mas que tudo seja feito sem violência; a violência não resolve; só o amor e a paz, constrói para a eternidade", falou o Coronel Júlio Brasileiro, que se havia mantido em silêncio e só agora dava seu pronunciamento.
"E os candidatos? Insistia Aloísio contando nos dedos, Álvaro Rocha foi enumerando, Manoel Cândido, José Inácio, Givaldo de Freitas Calado, Dr. Pedro Hugo, Humberto de Moraes, , Amílcar Valença, Paulo Faustino, Antônio Edson, Jaime Pinheiro, Aguinaldo de Barros e, dizer que são mais de vinte candidatos. "Candidatos à candidatos", redarguiu Figueira.
Celso Galvão cochilava. O Major Souto se despediu: "Boa noite meninos; eu vou dormir".
Foi quando eu me apercebi que passava de meia-noite. Me lembrei de uma histórica frase: "Os mortos comandam os vivos". Fui saindo, o grupo se dissolvia e ainda ouvi Álvaro dizer a Aloísio alguns nomes dos que havia citado, e quando pronunciava alguns deles, Aloísio dizia": Aquilo é gente? Aquilo é gente?. (Fonte: Matéria publicada no jornal "O Monitor", em 24 de outubro de 1981).

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