segunda-feira, 28 de maio de 2012

SERAPIÃO DEIXA A MATRIZ DE SANTO ANTÔNIO RUMO AO RECIFE


Os sinos da Matriz de Santo Antônio foram companheiros emotivos de Serapião, durante doze anos. Com eles soube sentir a alma sertaneja, nas suas emoções, quando nas alvoradas festivas e dentro das nostalgias do cair da tarde. Ele os sabia bimbalhar. Nas plenitudes de maio, ele os tocava com poesia e com sentimento.

Nas cidades do interior, gozava antigamente o Sacristão de muita consideração. Era um dos elementos selecionados na localidade. Tomava parte em todas as festas cívicas, era o organizador dos festejos da Matriz e chamado para as manifestações políticas no município, e para as festinhas familiares. Depois do Prefeito, era ele o homem que mais afilhados tinha; depois do Vigário, o que mais presentes recebia dos matutos, em dias de feira: muita galinha gorda, cabritos e bacorinhos; ovos fresquinhos e queijos de coalho e de mochila. Na terra de Serapião ficaram ma lembrança do povo os auxiliares do Padre Pires e do Monsenhor Pequeno: Cantalice, Ormindo, farmacêutico, depois médico; Zé Leal, agente do correio e o Sinhô, fazendeiro e bom tocador de violão, da família Tenório. Para substituir Serapião foi nomeado um professor de música, autor de peças sacras, com boa voz e conhecimento de vários idiomas, que veio lá das bandas de São Bento do Una para construir sua casa na Boa Vista.

Estava criado o Bispado e nova organização já era dada à paróquia, com a criação de novas freguesias dentro da própria sede. A velha Matriz elevada à categoria de Catedral, acrescido o número de sacerdotes e se desdobravam os serviços religiosos. Começavam as incardinações e excardinações. O sacristão já não podia dar conta dos trabalhos, zelar pela ornamentação e limpeza da Catedral; nem tinha tempo suficiente para preparação dos atos religiosos e das festividades, com a responsabilidade da escrituração do movimento paroquial: Os proclamas, que chamavam de banhos, certidões, assentamentos de batizados, avisos, etc. E como poderia cuidar do jardim, por ele feito entre a Matriz e o Santa Sofia?

Naquela faixa de terra estreita, porém perfumada, efloresceram os primeiros suspiros do seu coração ainda adolescente; viu brotarem os lírios das almas cândidas das meninas moças de sua cidade; e, nas primaveras sertanejas, elas desfolharem as calêndulas para a certeza do seu bem-me-quer. Ali sentia o jovem sacristão, na sua simplicidade, os eflúvios da sua formação de matuto pernambucano, que ama a terra em que nasceu, que admira a natureza rica e bela que lhe serviu de berço. Sabia que ninguém mais cuidaria com tanto amor daquele jardim. Com tristeza, veria depois fenecerem as violetas e os amores-perfeitos, os cravos e mal-me-queres, dálias e crisântemos daquele cantinho que era toda a sua vida, naquela adolescência humilde. A tabela para os serviços religiosos era muito baixa: um batizado estava sujeito ao pagamento da espórtula de três mil réis e um casamento dez mil reis, incluindo-se os proclamas. E só pagava quem podia. Serapião já não teria auxiliares, porque só ficava com uma quinta parte do que arrecadava, para todos. Padre não podia pegar em dinheiro. Quando o sacristão recebia descontava a sua quinta parte e o restante entregava a uma pessoa da família do Vigário. A fábrica da paróquia estava sobrecarregada.

Em fins de julho, em surdina, começou Serapião agir para deixar a sacristia, com muito pesar. Deixava também a paróquia o Padre Manoel, seu grande amigo, até então Vigário, desde a Hecatombe de 1917. Dele sentiram grandes saudades sacristão e coroinhas. Era o destino implacável do nordestino. A profecia do seu pai, quando ele nascera: Este menino vai andar muito. O destino já lhe apontava um caminho a seguir: a família do Padre Manoel chamou-o para Recife. Aprontou o seu cafiote. E começaram os dias de pranto e de prematuras saudades; horas de incertezas e de esperanças, marcando a sua próxima partida. Começaram as despedidas dos velhos companheiros de infância e adolescência. Nas horas de folga, com lágrimas nos olhos, ia rever, um a um, os recantos românticos e belos da sua terra: O Pau Pombo, a Vila Regina, o Brejo das Flores, o açude em frente à Cadeia Pública; a grota d'agua, o alto do Magano, o Monte Sinai; a Boa Vista dos Leites, a Ponta da Areia, das rendeiras, o Cinema Chicó; o Ginásio e o Santa Sofia, onde "Ma-Mére" lhe ofereceu uma imagem de N. S. do Perpétuo Socorro, que guardou consigo, com carinho e devoção. Visitou todos os lugares da sua infância, demoradamente.

Naquela última primavera na terra natal, Serapião, com olhar enternecido, admirava o seu jardim, ao lado da Matriz. As filhas de Maria e as moças do côro, antes de colherem flores para os altares da Virgem e de Santo Antônio, o santo casamenteiro. Era ingênuo também o sacristão. Na véspera de deixar o cargo, estava ele alta madrugada na matriz, meditabundo, como que vencido por um grande desalento. Abriu todos os armários e gavetas das velhas cômodas existentes na sacristia, para reavivar os seus conhecimentos da liturgia da missa. Naqueles instantes mórbidos para a sua alma de matuto religioso, o sacristão demissionário meditava até sobre as cores dos paramentos: branco era o símbolo de luz, alegria, pureza; verde, marcava esperança à Côrte Celeste; encarnado, simbolizava o sangue e fogo, só usado nas missas do Espírito Santo e dos Mártires; roxo, significando penitência; rosa, alegria e o preto era símbolo do luto. Mais conformado, subiu ao côro, pela última vez, para agitar os seus amigos, os sinos da Matriz, como um adeus aos companheiros cotidianos. Ao descer uma zeladora que o vinha observando disse-lhe: Muito sofre quem é sensível! Uma lágrima caíra dos olhos do emotivo sacristão.

Em uma segunda-feira, pela manhã, chorando em um velho vagão da Great Western, com destino à cidade do Recife, embarcava Serapião Cavalcanti Albuquerque, como. Era mais um sertanejo que deixava a sua terra. As suas tias, todas três, os seus pais, irmãos e amigos, foram levar as suas despedidas. A dor imensa que lhe ia na alma naquele momento, ainda vive funda na sua lembrança, mas não a sabe descrever. Lembra-se que ao ver o telengo-tengo se movimentar, dirigiu-se às suas tias, entre lágrimas, e disse: Virei buscá-las! E o calendário marcava quatorze de setembro de 1920; e no omega de Artur Condutor: oito horas. O comboio já se afastava da cidade tão amada, ao longo da estrada onde passeara, nas manhãs frescas da sua infância com a sua Dinha querida.


As recordações começavam povoar a sua memória e via se afastarem: a Catedral, o Casario Branco, o campo de futebol, o cemitério, as serras verdes, um mundo de coisas que seriam motivos para as mais cruciantes saudades e indeléveis recordações. Mas enchia-se a sua mente com as festinhas tradicionais de Freixeiras, São João, Santo Antônio, cavalhadas de São Pedro, os saraus do Brejo das Flores e até das desobrigas de Serrinha. Viu passar Angelim, a modesta vila onde nascera.

Quase noite, chegava ao término da viagem: Cinco Pontas. Estava na Mauricéa decantada pelos poetas pernambucanos. Recife a inconfundível capital de todo o nordeste, onde não há provincianismo. Mas sua cabeça estava cheia de lembranças dos dias vividos na venerada sacristia, no convívio do bondoso Agobar, Tônho, Sadi, Zé Maria e outros. Tocava o sino da Penha: o Ângelus.(Foto: Matriz de Santo Antônio na época em que Serapião era sacristão, trabalhou entre 1908/1920).


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