The 3 Week Diet

Tuesday, April 10, 2012

FLORO GOMES NOVAES.

"Pelo sangue daquele que era meu sangue, o sangue dos que lhe tiraram sangue" Esta frase e atribuída a Floro Gomes Novaes, personagem de um dos mais trágicos dramas do cangaço nordestino.

- Não esqueço o dia em que encontrei o cadáver de meu pai estendido numa estrada. Vi a lama formada pelo sangue misturar-se a pedaços de couro cabeludo e à carne branca e espumosa do seu crânio, esfacelado a coronhadas de rifle.

Aos 18 anos matei meu primeiro homem. De lá pra cá o meu lar é a caatinga.

Quando assassinaram em Capelinha-AL o marchante Ulisses Gomes Novaes, o Nordeste ganhou um dos mais célebres, discutidos homens do cangaço. Floro. Tal qual Lampião. O motivo do ingresso deste homem nesta vida violenta e perigosa, foi a perda do pai.

Desencadeou o processo de vinganças e depois não teve mais jeito de parar as matanças.

Existe muitas diferenças entre ambos. Desde a naturalidade (Lampião era pernambucano, Floro nasceu em Alagoas).

Floro foi cangaceiro moderno, motorizado, tinha domicílio certo na Fazenda Mamoeiro, criava pequeno rebanho de caprinos, algumas cabeças de gado e um dos maiores produtores de feijão do município de Águas Belas-PE.

Lampião agia numa época. Floro agia noutra.
Fora outras coincidências, as mais importantes e contundentes na vida destes dois homens são:

1 - O início (A morte do Pai)
2 - O fim (A morte pelas armas)

Tanto Lampião como Floro, morreram de emboscada.
O próprio Floro, numa pega de boi, numa buchada, numa caça de tatu ou de veado, declamava para os companheiros mais íntimos:

"Depois que meu pai morreu,
Entrei de vez no cangaço.
Mato há quatorze anos
E nunca cansei o braço.
Tenho o coração de bronze
E a resistência do aço".

Na semana pré-carnavalesca, Floro acertou com Mané Miúdo em Águas Belas, uma caçada de veado no Riacho do Mel, para quarta-feira de cinzas. O carnaval de 1971 pintava como um dos mais animados no sertão. Chovia.

Mané Miúdo avisou que iria participar juntos os irmãos Wilson e Américo, filhos de João Lins. Gente de confiança.

Riacho do Mel é uma propriedade perto da Passagem e da Fazenda Mamoeiro. Sempre aparecia uns veados por lá. Alfredo Godoy tomou conhecimento.

Na manhã do dia combinado, Floro mandou selar a burra, enquanto limpava a espingarda calibre 12. Revisou os cartuchos, colocando 14 no aió(bolsa que o sertanejo usa para caçar) e dois nos canos.
Calçou botinas, dirigiu-se para o curral e reclamou da demora do ajudante.

O bonito animal peidava, soltava coices, numa demonstração de que não estava para ser montado naquele dia.

- Sai daí fi da peste, deixa que eu selo.
Com trabalho e açoites o animal deixou o dono lhe preparar.
Floro passou a perna, juntou esporas no vazio, deu duas riscadas levantando poeira no terreiro.

D. Neném na porta de casa voltou a fazer o pedido do café;
- Fuloro, meu coração tá pedindo pra tu num ir. Num vá não meu fi!
- Besteira véia. Pru causa desse agôro a burra já tá cheia de pantim. Disse, apanhando a espingarda encostada na parede da casa.
Neste momento vai chegando Wilson. Vinha saber da demora:

- Seu Fuloro! O pessoá já tá lá no Riacho do Mé, isperando pelo sinhô. Me pidiro pra vim sabê se o sinhô ainda vai?

Floro entregou a 12 ao rapaz:

- Vambora. Vai levando a ispingarda.
Ajeitou o chapéu de Sumé, presente de Sebastião Trovão administrador da Fazenda Carié, tocando montaria.

Viraram à direita ao atingirem a estrada Boqueirão-Águas Belas. Logo adiante dobraram novamente no mesmo sentido, pegaram a que segue para o Riacho do Mel.

Manhã bonita. Um concris saboreava flor vermelha do cardeiro. A bem-te-vi no topo de uma braúna soltava seus tristesvidas. O orvalho em folhas, absorvido pelos raios do astro-rei. Andaram um quilômetro.

Por trás de moitas de sacatinga, Jurandir de espingarda 20 e Alfredo de mosquetão. Revólveres 38 e respectivas facas à cinta. Moitas praticamente isoladas em campo aberto.

Floro nunca imaginou naquele descampado, lado esquerdo da estrada, dois homens escondidos e um objetivo.

Continuou a conversa com Wilson Lins. Versava sobre outras caçadas. Passagens pitorescas.
No passar em frente do piquete, o primeiro tiro. Jurandir endereçou-o ao ouvido esquerdo de Floro. Passou de raspão na testa, perfurando a aba do chapéu.

No estampido, Floro gritou:

- Solta a ispingarda e corre, senão tu morre, fi da peste!!!

Wilson o fez. Disparou na montaria. A burra empinou.
A parada propiciou Alfredo acionar o mosquetão. O balaço entrou à altura da costela mindinha. Saiu abaixo do peito direito, queimando o músculo do braço.

Floro caiu de tórax perfurado. Arrastou-se rapidamente apanhando a espingarda. Mirou as moitas e fez fogo. O esconderijo foi podado pelos caroços de chumbo da possante. No interior só os gravetos.

A dupla correu caatinga à dentro pelo mesmo lado esquerdo, após o segundo disparo. Atravessou a estrada na frente, pegando o lado direito.

8:30 horas. A dor asfixiando-lhe o peito. O ódio lhe mantendo de pé.
Disparou outro cartucho por cima de um repuxo de cerca em direção à capoeira. Outra tentativa vã.
Correr, não podia. Começou a insultar:

- Vem pra cá amarelo safado, pra gente morrê trocando tiro. E tome tiro.
Ficou brigando e falando, sozinho.
A burra havia fugido. Começou a caminhada de volta. Sacrificado, atravessou a cerca para atalhar caminho. Agarrando em tudo que servisse de apoio. Encurtava distâncias.
Dor e raiva aumentando, parava. Recarregava a arma e insultos:

- Corre fi da peste. Tu num é home mesmo. Corno safado!!!
Mais um tiro a esmo.
Os agressores já haviam chegado à umburana, onde deixaram seus aiós e o supérfluo. Lastimava Jurandir, apreensivo:

- O sirviço foi má feito. Perdemo a caçada.

- Pió é qui ele tá vivo e viu a gente. Completou Alfredo.
Na realidade, a umburana estava na rota do ferido. Todos convergiram num só ponto, após o atentado. Um devagar, os velocistas com tempo suficiente para alguns goles. Serenar nervos na fuga.
A cachaça passou queimando gargantas. O esforço contribuiu.
Na partida, o barulho. Garranchos quebrados, resmungos de ira.

- Óia quem vem ali. Disse em voz baixa Jurandir.

- É o home de novo. Completou.

Abaixaram-se, apontando armas.

A dor retira reflexos. Disparos quase simultâneos. O tiro de mosquetão atingiu o encontro da perna direita, partindo-a. O de espingarda, peito esquerdo. Cravou cinco rolimãs abaixo da clavícula, junto ao coração. Floro deu um pulo. Urrou igual fera atingida de surpresa. No cair, acionou o gatilho a copa da umburana.

Correram. Jurandir parou adiante:

- Vou pegá-lo de revólver.

- Num vá não, qui você num sabe cum quem mexeu. Advertiu Alfredo.
Nesse instante ouviram o berro:

- Tu me paga, fi da peste!

Pique final. Ferido mortalmente, não recarregou a arma, nem disparou mais. Restava cheio um cartucho. Talvez por precaução encostou no tronco de uma catingueira, arriando. Espingarda em punho. Descartar-se da bota da perna ferida cutucando-lhe o calcanhar com o bico da outra, o último esforço.

Tu me paga!!! Última fala.

D. Neném estava com a razão. Vários avisos aconteceram: a montaria; a coincidência de rotas; os resmungos. Todos negativos. Fatais.
Muita gente ouviu tiros. Na caatinga não desperta curiosidades muita coisa. Ninguém se atreveu investigar.

Wilson chegou a galope. Américo e Mané Miúdo uníssonos, perguntaram:

- Cadê Fuloro?

- Eu vinha cum ele e deram uns tiros na gente. Perto de Casa. Ele mandô soltá a ispingarda e corrê! É o que sei dizê!

Em direção ao local do tiroteio, acorreram. Distava uma légua. Resfolegantes, não encontraram nada.
Mané Miudo tomou iniciativa:

- Amériqui, vai na casa de Fuloro avisá a D. Neném:

- Num mi diga uma coisa dessa não meu fi. Pru Nossa Sinhora!!!

Iniciou a busca. À tarde choveu forte. A busca parou. A noite cobriu de manto escuro todo sertão em notícia. Comentários.

Uns achavam que Floro havia saído na trilha dos agressores; outros que estava morto de corpo escondido. Não havia sinais de sangue. Dúvida nas duas versões. Encontro com a polícia alagoana e prisão, outra hipótese levantada.

A chuva cessou pela madrugada. Estiou.
Ao amanhecer da quinta-feira, o mais sensato: todo mundo espalhado no mato, procurando uma pista, um vestígio, o homem.
O orvalho retido no verde molhava vestimentas.
Às onze horas, José Lins, primo de Wilson, avistou Floro sentado, espingarda no colo, olhos arregalados, rindo por ser cangulo:

- O home tá vivo!!! Gritou para o companheiro de procura.
- Adonde?
- Ali. Tá ferido, mai tá vivo.

Num tôvendo sangue. Vamo cum cuidado, que ele pode pensá qui nós e o pessuá qui imboscou ele e passa fogo na gente. Advertiu José Lins.

Chegaram perto e notaram a inércia, era cadáver.

- Fica aí qui eu vou avisá o pessuá. Disse José Lins.
Um urubu livrando-se dos respingos da noite animado pelos raios de sol, bateu assas do alto de uma árvore próxima. Susto sem tamanho. Pernas no mundo.

- Tá vivo!!! Tá vivo!!! Correndo caatinga a dentro.

No encontro do grupo que vinha com José Lins de Volta, o sangue às veias. No local notaram o engano e a causa do medo.
De rigidez cadavérica, sem sangue na roupa e no corpo, Floro perfurado de balas. Colocaram numa rede e levaram-no. Curiosos percorreram a trilha deixada até o local da primeira emboscada. Doze cartuchos detonados pelo chão. Dois ficaram no aió, intactos.
O caixão providenciado de Garanhuns, chegou à tardinha.
O velho João Paes e o filho Chico vestiram o magro cadáver. Última roupa.

O exame cadavérico efetuado por médico em Águas Belas, diagnosticou a causa-mortis: hemorragia interna provocada por vários ferimentos transfixiantes perto do coração. Presumindo-se que tenha expirado na tarde da quarta-feira. Chuva e frio aliados, conservaram o cadáver naquela noite. Às vinte horas da quinta-feira não exalava nenhum mau cheiro, contou João Paes.

O cortejo fúnebre saiu da Fazenda Mamoeiro para Águas Belas na sexta-feira pela manhã. Feita a autópsia, seguiu para Jacaré dos Homens. O sepultamento se deu à tarde.

Jornalistas, repórteres, gente importante de toda parte, principalmente dos dois estados compareceram. O pequeno povoado virou notícia nacional.
Muita gente foi detida para averiguações. Os colegas da inusitada caçada, encabeçaram lista de suspeitos. Jurandir e Enéas presos, confessaram. Alfredo Godoy desapareceu.

Albertino Valença e os caçadores inocentes, soltos.
Na quaresma os jornalistas continuaram. Exploraram o assunto até o julgamento, desaforado para Recife. Nos jornais não faltou matéria.

Enéias Boiadeiro e Jurandir Valença foram condenados. Pouco tempo de reclusão.
Enéias e Jurandir, cumpridas as penas de mandante e executor, desapareceram também.
Restaram as histórias, os atacantes, os defensores, a controvérsia na lendária vida do homem que marcou época na caatinga, depois de Lampião - Floro Gomes Novaes.
(Fonte: Livro "A morte de Floro Gomes Novaes e o aniversário da Sudene", de Reginaldo Heráclio).






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